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Edição 1 708 - 11 de julho de 2001
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Caça aos povos isolados

Biólogo viaja o mundo para coletar
o DNA de diversas civilizações

Lia Abbud

A.Enrique Valentim
Herrera: banco com 10 000 amostras


São cada vez mais raros os povos que ainda conseguem manter algum isolamento e não apresentam traços de mistura racial. Os aborígines de Taiwan, os bantus quenianos, os índios koguis, na Colômbia, e os suruís, no Brasil, entre outros, representam alguns dos últimos exemplares de grupos que ainda vivem nessas condições. Em decorrência de obstáculos geográficos e dificuldades de comunicação, eles têm muito pouco contato com os homens brancos. Nos últimos anos, um dos raríssimos visitantes que conseguiram quebrar essa barreira foi o biólogo cubano René J. Herrera, da Universidade Internacional da Flórida. Desde 1994, o especialista viaja pelo mundo em busca das mais diferentes etnias. Em geral, chega aos lugares sozinho, carregando uma maleta com seringas, tubos e envelopes. Depois de estabelecer uma relação amistosa, pede permissão para coletar sangue, saliva ou cabelo dos habitantes da comunidade. O resultado de suas andanças por cerca de vinte países já lhe rendeu 10.000 amostras, que formam um dos maiores e mais curiosos bancos genéticos do mundo. "É preciso estudar esses povos enquanto ainda preservam suas características originais", explica Herrera.

Uma das maiores utilidades da pesquisa dos genes de um indivíduo dessas comunidades é ajudar a descobrir quais estruturas são responsáveis por certas forças ou fraquezas do organismo. "Realizar a mesma análise com pessoas que misturam várias raças é como tentar organizar uma caixa que contém peças de vários quebra-cabeças misturados", compara Herrera. O banco genético pode ser importante também para fornecer pistas que ajudem a esclarecer questões relacionadas à evolução da humanidade e aos movimentos migratórios de nossos antepassados. Fora do campo científico, a coleção do biólogo cubano tem sido útil à polícia de diversos países. Em meio às investigações, elas recorrem aos dados de Herrera para identificar o padrão racial de alguns suspeitos. O FBI é um dos clientes do serviço.

Antes de empreender uma viagem, Herrera vale-se de emissários que tentam convencer os povos da utilidade de sua pesquisa. Alguns acham que seu trabalho tem relação com bruxaria e recusam-se a colaborar. Chegar aos lugares representa a segunda parte da aventura. Certa vez, Herrera subiu uma montanha de quase 5.000 metros no Himalaia no lombo de um cavalo para colher sangue de uma tribo. Na volta, quando achou que seus problemas haviam acabado, hospedou-se em uma cidade na região de Caxemira, na Índia. Só que sua estada por ali coincidiu com um violento conflito entre as forças do governo e o povo local, que exigia a independência. Quando tentou fugir de avião, mais uma desagradável surpresa: por causa de um surto local de peste bubônica, os outros países se recusavam a receber passageiros da Índia. O remédio foi ficar na zona de conflito por mais alguns dias. "Felizmente, escapei sem nenhum arranhão", conta Herrera.

   
 
   
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