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Caça aos
povos isolados
Biólogo
viaja o mundo para coletar
o DNA de diversas civilizações

Lia
Abbud
A.Enrique Valentim
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Herrera: banco com 10
000 amostras |
São cada vez mais raros os povos que ainda conseguem manter algum
isolamento e não apresentam traços de mistura racial. Os
aborígines de Taiwan, os bantus quenianos, os índios koguis,
na Colômbia, e os suruís, no Brasil, entre outros, representam
alguns dos últimos exemplares de grupos que ainda vivem nessas
condições. Em decorrência de obstáculos geográficos
e dificuldades de comunicação, eles têm muito pouco
contato com os homens brancos. Nos últimos anos, um dos raríssimos
visitantes que conseguiram quebrar essa barreira foi o biólogo
cubano René J. Herrera, da Universidade Internacional da Flórida.
Desde 1994, o especialista viaja pelo mundo em busca das mais diferentes
etnias. Em geral, chega aos lugares sozinho, carregando uma maleta com
seringas, tubos e envelopes. Depois de estabelecer uma relação
amistosa, pede permissão para coletar sangue, saliva ou cabelo
dos habitantes da comunidade. O resultado de suas andanças por
cerca de vinte países já lhe rendeu 10.000 amostras, que
formam um dos maiores e mais curiosos bancos genéticos do mundo.
"É preciso estudar esses povos enquanto ainda preservam suas características
originais", explica Herrera.
Uma das maiores utilidades da pesquisa dos genes de um indivíduo
dessas comunidades é ajudar a descobrir quais estruturas são
responsáveis por certas forças ou fraquezas do organismo.
"Realizar a mesma análise com pessoas que misturam várias
raças é como tentar organizar uma caixa que contém
peças de vários quebra-cabeças misturados", compara
Herrera. O banco genético pode ser importante também para
fornecer pistas que ajudem a esclarecer questões relacionadas à
evolução da humanidade e aos movimentos migratórios
de nossos antepassados. Fora do campo científico, a coleção
do biólogo cubano tem sido útil à polícia
de diversos países. Em meio às investigações,
elas recorrem aos dados de Herrera para identificar o padrão racial
de alguns suspeitos. O FBI é um dos clientes do serviço.
Antes de empreender uma viagem, Herrera vale-se de emissários que
tentam convencer os povos da utilidade de sua pesquisa. Alguns acham que
seu trabalho tem relação com bruxaria e recusam-se a colaborar.
Chegar aos lugares representa a segunda parte da aventura. Certa vez,
Herrera subiu uma montanha de quase 5.000 metros no Himalaia no lombo
de um cavalo para colher sangue de uma tribo. Na volta, quando achou que
seus problemas haviam acabado, hospedou-se em uma cidade na região
de Caxemira, na Índia. Só que sua estada por ali coincidiu
com um violento conflito entre as forças do governo e o povo local,
que exigia a independência. Quando tentou fugir de avião,
mais uma desagradável surpresa: por causa de um surto local de
peste bubônica, os outros países se recusavam a receber passageiros
da Índia. O remédio foi ficar na zona de conflito por mais
alguns dias. "Felizmente, escapei sem nenhum arranhão", conta Herrera.
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