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Caretice
tardia
Em cemitério de Paris, bons modos
marcam trinta
anos da morte do
roqueiro Morrison
Ruth
de Aquino, de Paris
CIC
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| Jim
Morrison: o galã fazia sucesso pelo físico e pela música |
O rebelde Jim Morrison deve ter-se revirado de verdade no assediado túmulo.
Uma multidão comportada e silenciosa compareceu, na terça
passada, ao cemitério Père-Lachaise, em Paris, para celebrar
os trinta anos da morte do roqueiro que foi líder da banda The
Doors. Nada de histeria, sexo, drogas ou rock'n'roll. Apenas jovens e
famílias inteiras, que depositavam anjos de cerâmica e flores,
acendiam incensos ou levavam camisetas e revistas com as fotos do astro.
Nem quando Ray Manzarek, o ex-tecladista do conjunto, e Danny Sugerman,
o ex-produtor, chegaram ao local houve risco de descontrole. Foi muito
diferente do que aconteceu em 1991, no vigésimo aniversário
da morte, quando os fãs fizeram uma baderna digna do ídolo.
Naquela ocasião, aos urros, atiravam latas de cerveja nos policiais,
que reagiram com gás lacrimogêneo. Abrandou o fã-clube,
mas não a idolatria ao cantor. Apesar de estar em um cemitério
rico em celebridades, como Marcel Proust, Honoré de Balzac, Oscar
Wilde e Frédéric Chopin, o túmulo de Morrison é
o único que precisa de guarda e duas câmaras de TV, com o
objetivo de proteger o lugar contra os mais exaltados. O cemitério
é a maior atração turística do bairro de Belleville.
Bonitão e arruaceiro, Jim Morrison foi símbolo da contracultura
e fanático pela vida e obra do poeta francês Arthur Rimbaud,
modelo de artista rebelde. Ele tirou a roupa no palco mais de uma vez,
brigava com policiais e estimulava o uso de drogas e o amor livre. Dizia
que recebia espíritos de velhos índios e que era um xamã.
Em 1969, mostrou o pênis para 15.000 pessoas que viam seu show em
Miami e foi preso algo comum em sua carreira. Morreu pelos excessos
com o álcool, misturado a drogas pesadas e brandas, na banheira
de sua casa, no elegante bairro do Marais, na presença da mulher,
Pamela Courson. Só tinha gravado seis álbuns com The Doors,
desde 1967. Em março de 1971, mudara-se de Los Angeles para Paris.
Queria ser apenas poeta. Ficou barbudo e gordo, para desespero das fãs.
Três meses depois, era enterrado no Père-Lachaise. Para completar
o mito, morreu muito jovem, aos 27 anos, como seus contemporâneos
Jimi Hendrix e Janis Joplin. Começava o culto. Em 1979, por exemplo,
um ex-colega de faculdade, o cineasta Francis Ford Coppola, incluiu a
canção The End no clássico antibélico
Apocalypse Now. O hino psicodélico Light My Fire foi
regravado diversas vezes. Bandas jovens lançaram vários
discos-tributo. No Brasil, cantores como Renato Russo admitiram sua influência
nas composições e, principalmente, nos trejeitos enlouquecidos
no palco.
A professora de inglês carioca Cláudia Pimentel, de 47 anos,
foi uma das fãs que viajaram até o Père-Lachaise
para render sua homenagem. Ficou oito horas em vigília em frente
do túmulo. "Nenhum outro vocalista fez com minha alma o que Jim
fez", conta Cláudia. "Eu era uma criança depressiva, obcecada
pela morte, mas com suas letras aprendi que as pessoas têm seu lado
de sombra e que podem libertar-se." Ameaçados várias vezes
de remoção para os Estados Unidos, os restos de Jim viraram
patrimônio de Paris, apesar das recorrentes críticas dos
demais freqüentadores do cemitério, que acusam os fãs
do cantor de pichar os demais jazigos ou de deixar cigarros de maconha
espalhados pelo local. Para o trigésimo aniversário da morte
o plano original era um concerto dos sobreviventes dos Doors, mas hoje
eles mal se falam. Só faturam em cima da memória e estão
lançando Bright Midnight Live in America, uma seleção
de treze concertos ao vivo da banda.

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