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Edição 1 708 - 11 de julho de 2001
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Caretice tardia

Em cemitério de Paris, bons modos
marcam
trinta anos da morte do
roqueiro Morrison

Ruth de Aquino, de Paris

CIC
Jim Morrison: o galã fazia sucesso pelo físico e pela música


O rebelde Jim Morrison deve ter-se revirado de verdade no assediado túmulo. Uma multidão comportada e silenciosa compareceu, na terça passada, ao cemitério Père-Lachaise, em Paris, para celebrar os trinta anos da morte do roqueiro que foi líder da banda The Doors. Nada de histeria, sexo, drogas ou rock'n'roll. Apenas jovens e famílias inteiras, que depositavam anjos de cerâmica e flores, acendiam incensos ou levavam camisetas e revistas com as fotos do astro. Nem quando Ray Manzarek, o ex-tecladista do conjunto, e Danny Sugerman, o ex-produtor, chegaram ao local houve risco de descontrole. Foi muito diferente do que aconteceu em 1991, no vigésimo aniversário da morte, quando os fãs fizeram uma baderna digna do ídolo. Naquela ocasião, aos urros, atiravam latas de cerveja nos policiais, que reagiram com gás lacrimogêneo. Abrandou o fã-clube, mas não a idolatria ao cantor. Apesar de estar em um cemitério rico em celebridades, como Marcel Proust, Honoré de Balzac, Oscar Wilde e Frédéric Chopin, o túmulo de Morrison é o único que precisa de guarda e duas câmaras de TV, com o objetivo de proteger o lugar contra os mais exaltados. O cemitério é a maior atração turística do bairro de Belleville.

Bonitão e arruaceiro, Jim Morrison foi símbolo da contracultura e fanático pela vida e obra do poeta francês Arthur Rimbaud, modelo de artista rebelde. Ele tirou a roupa no palco mais de uma vez, brigava com policiais e estimulava o uso de drogas e o amor livre. Dizia que recebia espíritos de velhos índios e que era um xamã. Em 1969, mostrou o pênis para 15.000 pessoas que viam seu show em Miami e foi preso – algo comum em sua carreira. Morreu pelos excessos com o álcool, misturado a drogas pesadas e brandas, na banheira de sua casa, no elegante bairro do Marais, na presença da mulher, Pamela Courson. Só tinha gravado seis álbuns com The Doors, desde 1967. Em março de 1971, mudara-se de Los Angeles para Paris. Queria ser apenas poeta. Ficou barbudo e gordo, para desespero das fãs. Três meses depois, era enterrado no Père-Lachaise. Para completar o mito, morreu muito jovem, aos 27 anos, como seus contemporâneos Jimi Hendrix e Janis Joplin. Começava o culto. Em 1979, por exemplo, um ex-colega de faculdade, o cineasta Francis Ford Coppola, incluiu a canção The End no clássico antibélico Apocalypse Now. O hino psicodélico Light My Fire foi regravado diversas vezes. Bandas jovens lançaram vários discos-tributo. No Brasil, cantores como Renato Russo admitiram sua influência nas composições e, principalmente, nos trejeitos enlouquecidos no palco.

A professora de inglês carioca Cláudia Pimentel, de 47 anos, foi uma das fãs que viajaram até o Père-Lachaise para render sua homenagem. Ficou oito horas em vigília em frente do túmulo. "Nenhum outro vocalista fez com minha alma o que Jim fez", conta Cláudia. "Eu era uma criança depressiva, obcecada pela morte, mas com suas letras aprendi que as pessoas têm seu lado de sombra e que podem libertar-se." Ameaçados várias vezes de remoção para os Estados Unidos, os restos de Jim viraram patrimônio de Paris, apesar das recorrentes críticas dos demais freqüentadores do cemitério, que acusam os fãs do cantor de pichar os demais jazigos ou de deixar cigarros de maconha espalhados pelo local. Para o trigésimo aniversário da morte o plano original era um concerto dos sobreviventes dos Doors, mas hoje eles mal se falam. Só faturam em cima da memória e estão lançando Bright Midnight – Live in America, uma seleção de treze concertos ao vivo da banda.

 
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