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A farsa do megatraficante
Ao contrário
do que pregam as autoridades,
Fernandinho Beira-Mar não é nem nunca
foi o número 1 das drogas

Rubens Valente
|
A
EMPRESA DO TRÁFICO
O organograma
abaixo descreve como funciona a empresa do tráfico de cocaína.
Sua ponta forte está na Colômbia, onde a droga é
produzida. A outra está nos lugares onde é vendida
aos viciados. O negócio é dividido em quatro níveis.
Os personagens
escolhidos para ilustrar o quadro são os exemplos mais conhecidos
em cada nível
|
1º
NÍVEL
INDUSTRIAIS
|
| Dominado
pelos colombianos. São donos de 98% do mercado |
| FATURAMENTO
ANUAL |
| Os
cartéis movimentam bilhões de dólares |
| CLIENTES |
| Transportadores
que atuam no mercado internacional |
| EXEMPLOS |
No
passado: Pablo Escobar
Hoje: Hernán Giraldo Serna, apontado como sucessor
de Escobar, tem um exército pessoal de 400 homens |
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2º
NÍVEL
TRANSPORTADORES
|
| São
os brasileiros que têm ligação direta com
os cartéis. Transportam toneladas de pó. Os brasileiros
chegam no máximo a este nível |
| FATURAMENTO |
| Remessas
de até 50 milhões de reais |
| CLIENTES |
| Traficantes,
como Fernandinho Beira-Mar |
| EXEMPLO |
| Antonio
Mota Graça, o "Curica", acusado de traficar 9 toneladas
|
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3º
NÍVEL
ATACADISTAS
|
| Suprem
os traficantes que atuam em morros e favelas |
| FATURAMENTO
ANUAL |
| Cerca
de 3 milhões de reais |
| CLIENTES |
| Os
traficantes que fornecem a droga em papelotes ao consumidor
final |
| EXEMPLOS |
A
polícia estima que dezenas de traficantes atuem neste
segmento. Em São Paulo: Sônia Aparecida Rossi,
a "Maria do Pó"
No Rio de Janeiro: Luiz Fernando da Costa, o "Beira-Mar" |
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4º
NÍVEL
ATACADISTAS
|
| Pela
estimativa da polícia, milhares de traficantes atuam
neste segmento |
| FATURAMENTO
ANUAL |
| Milhares
de reais |
| CLIENTES |
| Viciados
|
| EXEMPLOS |
No
passado: José Carlos dos Reis Encina, o "Escadinha"
Hoje: Márcio Amaro de Oliveira, o "Marcinho VP",
e Celso Luiz Rodrigues, o "Celsinho da Vila Vintém" |
|
Ao anunciar
à imprensa internacional a captura de Luiz Fernando da Costa, o
"Fernandinho Beira-Mar", ocorrida em abril na selva colombiana, o ministro
da Defesa daquele país, Luiz Fernando Ramirez, afirmou: "Prendemos
um dos mais importantes traficantes da atualidade". A notícia correu
o mundo nesses termos. O New York Times e a rede de televisão
CNN abriram espaço para contar a história de Freddy Seashore,
como o criminoso é chamado em inglês. O governador do Rio
de Janeiro, Anthony Garotinho, ficou tão feliz com a captura que
chegou a declarar o seguinte: "Ele controla mais de 6 000 pontos-de-venda
de drogas no Brasil e tem um capital de mais de 100 milhões de
dólares". Garotinho previu que a prisão de Fernandinho provocaria
uma queda expressiva no volume de cocaína em circulação
no Brasil e uma conseqüente elevação no preço
do pó. Até então, essa inflação só
havia sido registrada em 1993, ano da morte do maior traficante de todos
os tempos, o colombiano Pablo Escobar. A versão de que o Brasil
prendeu um dos maiores traficantes do mundo tem um problema: Fernandinho
não é um megatraficante. Nem está perto disso.
A importância
de um traficante é definida pela polícia de todo o mundo
segundo um quadro com quatro níveis, uma espécie de organograma
da narcoempresa. O mais elevado dos níveis, o dos chefões
internacionais, é ocupado apenas por colombianos. No passado, esse
cargo era de Pablo Escobar. Hoje, a polícia caça um sujeito
apontado como seu sucessor, um tal de Hernán Giraldo. Diz-se a
respeito dele que possui um exército com mais de 400 homens e que
remete algo como 3 bilhões de reais em cocaína por ano para
os Estados Unidos e Europa. O segundo nível é preenchido
pelos chamados "transportadores". O país onde eles agem com maior
força é o México. Há alguns brasileiros atuando
como transportadores. São homens que negociam diretamente com os
cartéis da Colômbia e movimentam grandes partidas de cocaína,
sempre na casa da tonelada. Pelo menos três brasileiros desse naipe
foram localizados nos últimos dez anos. Um deles, Antonio Mota
Graça, o "Curica", foi preso acusado de ligação com
uma carga de cocaína avaliada em 50 milhões de reais. Outro,
o americano radicado no Brasil Paul Lir Alexander, preso nos Estados Unidos,
tinha um patrimônio de 23 milhões de reais, e o último,
que ainda está sendo investigado, controla uma frota de mais de
vinte aviões, com participações em onze empresas
de fachada. O terceiro nível abriga dezenas de traficantes no Brasil.
Eles compram cocaína em lotes de algumas dezenas de quilos e distribuem
para pequenos traficantes (quarto nível), que atendem aos viciados
nos morros e nos bairros de periferia. Fernandinho atuava na terceira
faixa de "mercado".
M. Lembo
 |
Reuters
 |
| Queima
de cocaína no Brasil e o presidente Pastrana, da Colômbia,
ao lado de guerrilheiro das Farc: o
desafio das drogas é global |
O papel desempenhado
por Beira-Mar na estrutura do pó já era conhecido no meio
policial. "Esse cidadão não passa de um intermediário",
diz Romeu Alves Ferreira, coronel da reserva do Exército do Rio,
que há dez anos estuda o narcotráfico no Brasil. "Ele é
o típico bandido de favela que cresceu rapidamente no mundo do
crime e estava tentando dar um passo mais largo", afirma. O coronel Ferreira
mantém em seu computador um questionário com 35 itens para
encaixar os traficantes conhecidos num dos quatro níveis. Esse
questionário confirmou Beira-Mar no terceiro escalão. O
resultado dessa análise foi submetido por VEJA a quinze especialistas
no assunto. Apenas um, o secretário de Segurança do Rio,
Josias Quintal, discordou da avaliação. Procurado para falar
sobre o tema, a primeira reação do secretário foi
afirmar que Beira-Mar era o maior traficante do Brasil. Apresentado aos
dados que situam Beira-Mar em uma posição mais modesta,
Quintal adotou postura cautelosa: "Não tenho condição
de avaliar o tráfico em todo o Brasil", afirmou. "Só posso
falar pelo Rio, onde seguramente ele é o maior."
Beira-Mar
foi transformado num megatraficante por causa de um conjunto de fatores
políticos. O primeiro apareceu na eleição de 1998.
O governador Garotinho concorreu ao cargo empunhando a bandeira do combate
ao crime organizado. Meses após a posse, criou uma equipe de policiais
só para investigar Beira-Mar, foragido de um presídio em
Minas Gerais. O segundo episódio ocorreu em virtude da CPI no Congresso
Nacional para tratar do narcotráfico. Depois de constatar que não
teriam meios de produzir grandes novidades, os deputados se concentraram
nos traficantes mais conhecidos pela mídia, entre eles Fernandinho.
Detalhe: mesmo foragido, o traficante vivia dando entrevistas em rádios
e jornais, ameaçando "entregar todo mundo", como dizia. Para reagir
a suas provocações, a Polícia Federal e os policiais
cariocas montaram uma megaoperação para capturá-lo.
Pressionado, Fernandinho mudou-se para a Colômbia. Lá, seu
nome serviu a um terceiro propósito de fundo político. Há
uma corrente política que advoga a tese de que as Farc devem ser
combatidas a bala, sob o argumento de que dão abrigo a traficantes.
Há vários indícios dessa ligação, mas
faltava uma prova definitiva. E ela apareceu quando o Exército
colombiano teve a notícia de que um megatraficante brasileiro estaria
escondido entre os guerrilheiros. Montou-se uma estratégia para
caçar Fernandinho e outra, muito bem organizada, para dar relatos
diários à imprensa sobre os progressos alcançados.
Fernandinho
Beira-Mar não é um bagrinho qualquer. Primeiro porque, em
treze anos de carreira criminosa, construiu um bom patrimônio. De
acordo com levantamento feito pela polícia até o momento,
seus bens conhecidos giram em torno de 4,5 milhões de reais, incluindo
na conta imóveis registrados em seu nome e no de laranjas. Ou seja,
é alguém que conseguia guardar algo como 30.000
reais por mês no período. Outro dado que o distingue da maior
parte dos bandidos é o temperamento violento. Num diálogo
assustador captado pelo grampo da polícia, Beira-Mar mandava cortar
o braço, os pés e a orelha de um inimigo, "devagar, pedaço
por pedaço". Antes de ser assassinada com cinco tiros, a vítima
foi obrigada a comer a própria orelha.
Por muito
tempo, o Brasil não passou de um corredor alternativo para que
a droga produzida na Colômbia chegasse aos Estados Unidos e à
Europa. Numa segunda fase, parte da droga começou a ser comercializada
também no mercado interno. Hoje, o país disputa o segundo
lugar entre os maiores consumidores de tóxicos, atrás apenas
dos Estados Unidos. Há um debate internacional sobre a melhor forma
de lidar com o problema. Uma corrente prega a liberação
total das drogas. Outra, adotada pelos Estados Unidos e também
defendida pelas autoridades brasileiras nos seminários temáticos,
fala numa combinação de esforços em duas frentes:
a educativa, que tem por objetivo reduzir o interesse dos jovens pelas
drogas, e a policial, que visa a diminuir a oferta. Há uma opinião
predominante entre os especialistas. A repressão mais eficaz é
aquela feita sobre os megatraficantes, os que mexem com toneladas. A prisão
de um barão acaba desmontando uma quadrilha pela cabeça.
É ótimo que a polícia tenha conseguido trancafiar
Beira-Mar. Mas, ao sugerir que prendeu um chefão do tráfico,
passa à sociedade a idéia de que está trabalhando
segundo as regras do manual. Indiretamente, vende a impressão de
que o país está até mais seguro, pois se livrou de
um tubarão. Infelizmente, os verdadeiros chefões ainda estão
soltos. Em tempo: a droga no Brasil (e também no Rio) não
aumentou de preço após a prisão de Freddy Seashore.
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