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Uma fazenda misteriosa
Madeireira
bancada por entidade
filantrópica dinamarquesa agride
leis brasileiras na Bahia
Flávia Varella
Fotos Selmy Yassuda
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| A
serraria dentro da fazenda de 88 000 hectares: operação comercial |
Uma
fazenda com o tamanho de duas Florianópolis, esquecida na erma
divisa entre Goiás e Bahia, esconde um segredo. Tida na região
como uma empresa que atrasa salários, demite sempre por justa causa,
não fornece equipamentos de segurança e proíbe seus
empregados de sair da fazenda por períodos de quinze dias, a Floryl
foi comprada com dinheiro de organizações beneficentes.
A triste ironia veio à tona há duas semanas. Durante uma
investigação de sonegação fiscal, a polícia
dinamarquesa descobriu um documento que indica como proprietária
da Floryl a Tvind, uma entidade que atua em vários países
com diversos nomes entre eles os conhecidos Humana e Planet Aid
e arrecada dinheiro e roupas usadas para ajudar os pobres do Terceiro
Mundo e criar "um mundo melhor".
Na vizinha cidade de Posse, a 50 quilômetros da fazenda, ninguém
acredita que a Floryl, uma madeireira que explora uma floresta de pínus
e eucaliptos plantada no cerrado baiano há mais de vinte anos,
possa ter ligação com filantropia, humanismo ou qualquer
coisa do bem. "A Floryl é a pior empresa da região. Eles
são injustos, não respeitam leis trabalhistas e tratam mal
os funcionários", afirma Oton Pereira Lima, presidente do sindicato
dos trabalhadores rurais de Posse. "Filantropia?", espanta-se o padre
Moacir Santana. "Isso é malandragem. Eles não fazem nada
pelos pobres aqui." No Ministério do Trabalho, chovem denúncias
contra a Floryl, segundo o chefe de fiscalização do trabalho
do Distrito Federal, Ivando Pinto da Silva. Ele diz que a empresa tem
problemas com recolhimento do FGTS, atrasa pagamentos, não oferece
equipamentos de segurança individuais e tem problemas de insalubridade
nos alojamentos. Silva enviou há dez dias o relatório ao
Ministério Público. "Já aplicamos multas inúmeras
vezes, mas eles não resolvem os problemas."
Curso
na favela Irregularidades, escândalos, maus-tratos e desvio
de verbas são palavras constantemente associadas à Tvind,
uma organização à qual se atribui um patrimônio
de centenas de milhões de dólares. O "movimento", como dizem
seus membros, começou em 1970 como uma escola de inspiração
esquerdista e libertária. O líder era o dinamarquês
Amdi Petersen, que dois anos antes havia rodado o mundo num ônibus
com colegas e vivenciado as agruras do Terceiro Mundo. A idéia
era reformar o mundo reformando a consciência das pessoas. Hoje
o grupo Tvind tem cerca de quarenta escolas sob nomes diferentes em cada
parte do mundo. Uma delas, a americana IICD, tem um curso típico
dos oferecidos pela rede. Dos seis meses de curso, os alunos passam três
em uma comunidade do interior do Paraná e nas favelas do Recife.
Custa 3.800 dólares.
Os
primeiros milhões de dólares chegaram através das
escolas. Além do pagamento dos alunos, o governo subsidiava os
salários dos professores, que abriam mão de seus vencimentos
em prol do movimento. Em 1977, o grupo criou seu primeiro braço
filantrópico, a UFF, que recolhia roupas usadas recebidas em doação
e as vendia para, teoricamente, bancar projetos sociais e também
políticos na África. As escolas e as entidades humanitárias
se espalharam. Os caixotes amarelos de coleta de roupas da UFF, Humana
e Planet Aid tornaram-se parte da paisagem européia e, mais recentemente,
da americana também.
Seita
Os professores das escolas, membros do que se chama Teachers Group,
aparecem como donos de empresas com sede em paraísos fiscais como
as ilhas de Cayman e Jersey. Através dessas empresas, a cúpula
da Tvind seria dona de um império que inclui fazendas na América
Latina, edifícios comerciais, uma rede de TV por satélite,
empresas de computação e navegação, condomínios
residenciais e comerciais em Miami e nas Ilhas Cayman e uma rede de mais
de 100 lojas de roupas usadas. A Tvind foi investigada em vários
países. Na França, o governo concluiu que o negócio
de coleta de roupas usadas era uma operação lucrativa, e
não beneficente. Na Inglaterra, as autoridades mandaram acabar
com negócio semelhante sob o nome de Humana, mas eles reabriram
como Planet Aid. Uma investigação na Suécia revelou
que apenas 2% do dinheiro obtido com a venda das roupas doadas era usado
em caridade. Relatórios dos governos da França e da Bélgica
acusam a Tvind de ser uma seita.
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| Funcionários
no corte das árvores: chovem denúncias de problemas trabalhistas |
No
final dos anos 80, a Tvind criou uma fundação e recebeu
verbas de cerca de 9 milhões de dólares para ser aplicadas
em projetos de pesquisa científica, ambientais ou humanitários.
Parte do dinheiro foi usada para a compra da Floryl, em 1994, um negócio
de 9,25 milhões de dólares. Como a Floryl é uma empresa
que vende madeira, trata-se de uma operação comercial e
ainda por cima nada humanitária como os brasileiros do sudoeste
baiano sabem muito bem. Assim, o repasse de dinheiro teria sido crime.
A Tvind nega ser dona da Floryl, como de qualquer outra empresa que lhe
é atribuída. A compra foi feita em nome da Bahia Farming,
com sede na Ilha de Jersey, que, embora já tenha mudado sua denominação
e composição societária pelo menos nove vezes, sempre
teve entre os sócios nomes de pessoas ligadas ao Teachers Group.
Thomas Vaeth e Lars Jensen, que assinaram a compra da Floryl, são
citados por ex-membros como integrantes da cúpula da Tvind. Vaeth
aparece também em outro documento obtido por VEJA como sócio
principal de outra fazenda no Brasil, a Baldum, que produz melões
no município de Ipanguaçu, no Rio Grande do Norte. Seu endereço
pessoal no documento é o mesmo da Floryl. Questionado se é
integrante do Teachers Group, o dinamarquês Lars Jensen, que comanda
a fazenda, diz não ter interesse em falar de sua vida pessoal.
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