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Edição 1 708 - 11 de julho de 2001
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Inferno capixaba

Denúncias de corrupção obrigam
governador
do Espírito Santo a
demitir a primeira-dama

Lucila Soares

 
Nestor Müller
José Ignacio e Maria Helena Ferreira: crise política dentro de casa

O governador do Espírito Santo, José Ignacio Ferreira, elegeu-se pelo PSDB em 1998 e ganhou projeção nacional logo após sua posse como arauto da austeridade. Tinha pela frente o desafio de reerguer um Estado demolido financeiramente ao longo dos oito anos anteriores, nos governos do pedetista Albuíno Azeredo e do petista Vitor Buaiz – hoje no PSDB. E os sinais que vinham do Palácio Anchieta eram de que o governador assumira realmente decidido a sanear o Estado. Em menos de dois meses, reduziu os salários do funcionalismo e dispensou 21.000 servidores. No início deste ano, denúncias de corrupção e tráfico de influência começaram a trincar essa imagem de seriedade. Na semana passada, o governo capixaba afundou numa crise sem precedentes. Pressionado por uma CPI na Assembléia Legislativa e uma investigação no Ministério Público, Ferreira demitiu cinco secretários – entre eles sua própria mulher, Maria Helena Ferreira, que ocupava a Secretaria de Ação Social – e o procurador-geral do Estado, Antônio Carlos Pimentel. Antes, já havia exonerado o irmão de Maria Helena, Gentil Ruy, seu secretário de Governo, também por acusações de corrupção.

Nada disso aplacou os ânimos. A oposição já fala em impeachment e aliados admitem a formação de um "secretariado de notáveis" para tentar contornar a situação. Não vai ser fácil. A primeira-dama é acusada de receber 50.000 reais da distribuidora T.A. Oil em troca da concessão de vantagens tributárias, mas o caso está longe de ser isolado. O prefeito de Cachoeiro do Itapemirim, Theodorico Ferraço, foi um dos que encabeçaram denúncias contra o governo estadual. Em abril, entregou à procuradoria sete fitas gravadas pelo empresário mineiro Nilton Monteiro, que revelam um suposto esquema de "pedágios" para operações com ICMS. Outra frente veio da Xerox do Brasil, que decidiu fechar uma fábrica no Estado. A justificativa do presidente da empresa, Guilherme Bettencourt, em carta ao governador, foi curta e grossa. A empresa recebera oferta de "intermediação onerosa" – em bom português, propina – para liberar financiamentos retidos e sustar a cobrança de impostos já pagos.

 
Edson Chagas
Protesto em frente à Assembléia: CPI da propina em ação

No caso, a propina se destinaria a facilitar a liberação de recursos do Fundo de Desenvolvimento das Atividades Portuárias (Fundap), que beneficia empresas importadoras e é um eficiente instrumento de incentivo da economia capixaba – uma das que mais crescem em todo o país. Criado na década de 70, o Fundap devolve aos importadores que operam no Espírito Santo, a título de empréstimo em condições bastante vantajosas, dois terços do ICMS recolhido. Só no ano passado, foram liberados 421 milhões de reais para cerca de 300 empresas. "Esse tipo de corrupção é resultado de um processo de deterioração ética no relacionamento entre interesses privados e públicos", diz o prefeito de Vitória, Luiz Paulo Velloso Lucas, que também é do PSDB, mas faz oposição aberta ao governador. O prefeito diz não ter a menor idéia do desfecho da crise administrativa do governo capixaba. Mas já antevê uma crise política que será uma pedra no sapato da direção nacional do tucanato. Reeleito no ano passado com 80% dos votos e uma das estrelas da nova geração de seu partido, Velloso Lucas avisa que, no ano que vem, apoiará para o governo estadual o senador Paulo Hartung, que perdeu a convenção do PSDB para José Ignacio Ferreira e mudou-se de armas e bagagens para o PPS. "O partido atuou contra a renovação e a favor do que há de pior no Espírito Santo. Desse jeito, estou fora", avisa o prefeito.

 
 
   
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