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Edição 1 708 - 11 de julho de 2001
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Rádio, marketing e gogó

O velho populismo é o combustível
de Garotinho na corrida presidencial

Consuelo Dieguez e Marcelo Carneiro


Ana Carolina/Folha Imagem
Garotinho e Rosinha em marcha contra o apagão no Rio

O mais novo fenômeno político brasileiro, Anthony Garotinho, entrou para valer na corrida presidencial incorporando um dos mais antigos signos da política nacional. Com um polimento aqui, uma recauchutagem ali e fortes pinceladas messiânicas, o jovem governador do Estado do Rio, de apenas 41 anos de idade, é a versão renovada do velho populismo. Seu veículo preferido é o mesmo rádio que serviu de palanque aos mais carismáticos políticos do século passado. Sua política de comunicação é turbinada por uma milionária estrutura de marketing. Até o final do atual mandato, o governo estadual pretende investir 100 milhões de reais entre publicidade e telemarketing. Garotinho chegou a ponto de instalar um restaurante popular que serve 3.000 refeições por dia a 1 real na Central do Brasil, no melhor estilo Getúlio Vargas – que mantinha projeto semelhante também no centro do Rio. A mulher do governador, Rosinha, com quem está casado há vinte anos, comanda a Secretaria de Ação Social, que coordena a distribuição do Cheque-Cidadão, de 100 reais, entregue todo mês a 40.000 pessoas. Para completar, Garotinho, que é evangélico, tem os pastores e deputados da religião para espalhar sua candidatura pelo país, em nome do Senhor. "Ele é um político travestido de pastor", comenta o cientista político Marcus Figueiredo, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. "E Rosinha joga o papel de Evita Perón."

A pobreza da América Latina é um campo fértil para o surgimento de lideranças que bajulam o povo para ganhar votos, como o coronel Hugo Chávez, presidente da Venezuela. Ainda assim, o desempenho de Garotinho nas últimas pesquisas eleitorais é impressionante. Até pouco tempo atrás, o nome do governador fluminense mal aparecia. Hoje, está embolado no segundo lugar, com 11% da preferência dos eleitores e já tem presença palpável fora do Estado do Rio. Garotinho teria tudo para ficar para trás na disputa com Ciro Gomes e Itamar Franco, que têm muito mais estrada que ele. A explicação para boa parte dessa performance está na falta de candidaturas novas, avalia o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro. Os brasileiros, desiludidos, tendem a se encantar com quem possa representar um rompimento com o que está aí. É precisamente essa a bandeira que Garotinho desfralda sempre que lhe colocam um microfone pela frente. Fala mal de todo mundo como se fosse uma alternativa ao político brasileiro convencional. Quem não o conhecesse, vendo-o de boca fechada, faria a avaliação errada do personagem. Garotinho é baixo (1,70 metro) e roliço. Preocupado com a papada precoce, só compra camisas cuja gola disfarce o problema. O que faz diferença nele é a inteligência rápida, grande articulação verbal e muita capacidade de envolvimento. Cultiva a imagem de homem religioso e apegado à família, um time de futebol – ele e Rosinha têm nove filhos, sendo cinco adotivos. "Ele faz seu marketing pessoal com muita competência", diz Montenegro.

A obstinação é outra marca registrada de Garotinho, que, ainda criança, dizia no colégio que queria criar um partido. Quando se elegeu prefeito de Campos, no norte fluminense, em 1988, já pensava em ser governador. E desde que conseguiu esse segundo objetivo dedicou-se a preparar o caminho para o Planalto. Sua maior base de sustentação vem do movimento evangélico. O governador tem como um dos principais aliados o pastor Francisco Silva, do PL, dono da rádio Melodia, com filiais em São Paulo e Minas Gerais. Ali, Garotinho monta seu palanque. Durante cinco minutos, duas vezes por dia, conversa com Francisco Silva sobre os feitos de seu governo. O programa A Paz do Senhor, Governador é retransmitido para onze Estados.

Álbum de família
Rosinha e seus nove filhos: imagem de boa esposa e política à la Evita Perón

Garotinho tomou a decisão de candidatar-se à Presidência em janeiro de 2000, um ano depois de assumir o governo do Estado. Avalia que, se não disputar agora, precisará esperar oito anos, já que o presidente eleito em 2002 provavelmente concorrerá à reeleição em 2006, com boas chances de vitória. Isso significa que as atuais condições só se repetiriam em 2010. Ele trabalha de olho nos institutos de opinião e sempre dá um jeito de adaptar-se ao que deseja o povo. Quando fala dos concorrentes, está dizendo aquilo que institutos de pesquisa já ouviram da boca dos eleitores. "Itamar defende a moralidade, mas foi vice de Collor. Lula não tem experiência. Ciro é pai do desemprego", foram algumas das críticas usadas por ele na semana passada, todas elas coincidentes com uma pesquisa divulgada recentemente.

A verdade é que o governador usa dois pesos e duas medidas. A experiência administrativa que diz possuir por ter sido duas vezes prefeito de Campos e ocupar há mais de dois anos o Palácio Guanabara não lhe dá, até o momento, credenciais muito convincentes. O Estado do Rio tem desempenho medíocre em saúde e educação, dois termômetros importantes na avaliação de qualquer política social. Está em 14º lugar no ranking nacional de saúde na vigilância epidemiológica, em último na Região Sudeste e atrás de Roraima. O Rio apresenta também um dos maiores índices de repetência do país. Na segurança, um dos pontos-chave de sua campanha, os índices de mortalidade por homicídio continuam aterradores. Em 1999, herdou o segundo pior índice de homicídios do Brasil. Eram 52 mortes para cada 100.000 habitantes, o dobro da média nacional. De lá para cá, a situação praticamente não mudou. Esse quadro mostra como Garotinho é competente em matéria de gogó. Acaba de ser apontado como o governador mais popular do país em pesquisa do Datafolha.

Em março deste ano, pesquisas mostraram que o governador era pouco conhecido fora de sua base fluminense. A estratégia surgiu rapidamente. "Pedi a minha assessoria que marcasse participações nos programas populares de televisão", revela. Foi um show de comunicação. No programa de Raul Gil, o governador falou do restaurante popular. Com Adriane Galisteu, a conversa foi sobre segurança pública. Já no de Luciana Gimenez, Garotinho foi com Rosinha a tiracolo e fez um discurso sobre os valores da família, sem se importar com as popozudas em closes quase pornográficos. O périplo ainda incluiu visitas a Ratinho e ao cantor Netinho.

Mas o grande alento à campanha veio com sua filiação ao PSB de Miguel Arraes, em janeiro deste ano. Era o ingrediente político que faltava para dar prestígio e confirmar o viés oposicionista da candidatura, até então apoiada quase exclusivamente no carisma evangélico de Garotinho. O governador conseguiu entrar na legenda com a ajuda de Eduardo Campos, neto do ex-governador pernambucano. Enfrentou resistências no partido, como o senador Saturnino Braga e o governador do Amapá, João Alberto Capiberibe. Venceu os obstáculos – entre eles Itamar Franco, que pretendia candidatar-se pelo PSB. E se transformou na grande estrela da legenda. Ali, age como dono. Atropelando antigas lideranças, Garotinho foi ao Paraná convidar os irmãos Álvaro e Osmar Dias para ingressar no partido. E chamou o ex-líder do PMDB, Michel Temer, para suas hostes. Ao perceber a velocidade com que Garotinho se movimenta, o ex-governador Leonel Brizola, que teve seu PDT praticamente dizimado com a saída do ex-afilhado, descreveu o fenômeno desta maneira: "Por onde passa, ele desestrutura, destrói e rompe com o que está instituído", atacou.

A caminhada rumo ao Planalto está apenas começando e já provoca reações negativas para o candidato. Na semana passada, a Justiça Eleitoral tirou do ar dois programas do governador. Um na rádio Tupi, que o repetia para dezessete rádios, e outro na TV Record, do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal. Ambos tinham por objetivo enaltecer seu governo e anunciar sua candidatura à Presidência. Outra baixa foi a liminar conseguida pelo PT, impedindo os gastos com publicidade para os próximos trinta meses. Pela proposta encaminhada ao Tribunal de Contas do Estado, Garotinho pedia autorização para gastar até 180 milhões de reais até o fim de 2002. A decisão final ainda não saiu.

Garotinho já venceu dificuldades maiores. Em 1982, concorreu pelo PT à Câmara de Vereadores de Campos e não conseguiu eleger-se. Sem o emprego de radialista, que abriu seu caminho na política, arregaçou as mangas e foi para a rua vender livrinhos de literatura de cordel. Rosinha não ficou atrás. Passou dois anos batendo de porta em porta como revendedora da Avon. Continua com a mesma obstinação. É capaz de ficar até 3 horas da madrugada no Palácio Guanabara. Sua agenda de governador assemelha-se mais à de um prefeito de interior que à de um político com ambições nacionais. Não perde uma inauguração de estrada ou entrega de ambulâncias. Ultimamente, somam-se a esses compromissos locais uma peregrinação nacional que inclui cultos evangélicos, como o que reuniu 700.000 pessoas em São Paulo no mês passado, e reuniões com líderes políticos por todo o Brasil.

Onde está situado o governador Garotinho em matéria de linha política? Difícil afirmar. Diz-se de esquerda, mas seus principais aliados são o PMDB, o PL e o PTB. No ano passado, seus principais assessores, homens que o acompanham desde a prefeitura em Campos, envolveram-se em negócios nebulosos que balançaram seu governo e resultaram no rompimento com o PT. Foi mais um problema que Garotinho superou. Agora, dada a largada eleitoral, preocupa-se em mostrar que não é um político sem substância. Na semana passada, lançou as bases da Teoria da Prosperidade, um projeto econômico que pretende estimular o consumo com mais oferta de crédito e juros mais baixos – estratégia tida como inflacionária por nove entre dez economistas. Sua teoria baseia-se na Teologia da Prosperidade, criação dos pentecostais americanos, segundo a qual Deus não criou o homem para ter uma vida miserável. O governador parece convicto de que chegará ao Planalto, embora todos os analistas políticos concordem que é cedo para fazer projeções em cima das pesquisas eleitorais disponíveis. Sobre si mesmo, tem uma piadinha de gosto duvidoso: "Sabe qual a semelhança entre esta senhora grávida e Brasília? Ambas estão esperando Garotinho".

 

ELE FALA DOS OUTROS

"Itamar e Ciro são o Fernando Henrique recauchutado."
Ronaldo Guimarães

"Levo desvantagem em relação a Lula e Ciro porque eles estão desocupados e eu tenho de trabalhar."

Domingues
"O programa do PT parece feito pelo Malan."
Ana Araújo
"Lula não sabe diferenciar uma estação de tratamento de esgoto de uma fábrica de cimento."
Frederic Jean

"Se perguntarem ao Serra o que uma mulher deve usar se tiver problema de refluxo, ele vai confundir com fluxo financeiro. Ele é economista, não entende nada de saúde."

Alexandre Tokitaka
"O Brizola virou uma espécie de Eurico Miranda da política."
Ana Araújo

 

OS OUTROS FALAM DELE

"É que nem perereca, vai para lá e para cá."
Leonel Brizola

"Aviso aos evangélicos: cuidado que nessa cara redonda pode estar o próprio demônio."
Leonel Brizola

"Não sabe administrar
coisa grande."
Lula

"Só faz jogo de empurra."
José Serra

"Esse governador que hoje critica se dizia de oposição, mas todos nós assistimos quando ele tomou posse e correu para a Granja do Torto para fazer acordo com 'seu' Fernando Henrique."
Itamar Franco

"Não falo com mau-caráter."
Itamar Franco

"Ele não tem alma."
Marcello Alencar

"Garotinho sabe fazer marketing pessoal com muita competência."
Carlos Augusto Montenegro

 

Com reportagem de Silvia Rogar


 
 
   
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