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A primeira e a última
Pesquisa mostra que o eleitor
Caco de Paula e Diogo Schelp
Saiu na semana passada a primeira pesquisa que registra as impressões do eleitorado sobre o desempenho dos prefeitos que tomaram posse em janeiro. O trabalho foi realizado pelo instituto Datafolha. Entre nove capitais avaliadas, sete são administradas por homens e duas por mulheres. E são elas, as mulheres, os destaques do trabalho. Uma das prefeitas, Ângela Amin, de Florianópolis, é a grande estrela da rodada. Aparece em primeiro lugar, com 68% de aprovação. Entenda-se por aprovação a soma dos porcentuais referentes às respostas "bom" e "ótimo". A outra mulher que aparece na pesquisa do Datafolha é a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, do PT. Marta recebeu a menor taxa de avaliação positiva entre os nove analisados. Ficou no pé da lista, visivelmente distante do penúltimo colocado. Apenas 20% dos eleitores classificaram seu governo de ótimo ou bom. Os especialistas deram diferentes interpretações ao ranking dos prefeitos, mas todos concordam num ponto: os candidatos a presidente em 2002 deveriam observar essa pesquisa com atenção redobrada. "O eleitor quer resultados, e só resultados. Quer ver cumpridas as promessas de campanha", diz o cientista político Sérgio Abranches. "Se não era possível fazer, por que não pensou nisso na hora de prometer?" Foi exatamente essa comparação feita pelo eleitor entre o comportamento da então candidata e o da atual prefeita que alçou a pepebista Ângela Amin ao primeiro lugar da lista e jogou Marta para o último. Como Ângela disputava a reeleição, prometia na campanha apenas continuar o bom trabalho realizado no primeiro mandato. Marta assumiu o compromisso de tirar a cidade do atoleiro em que se encontrava após uma administração desastrosa e recheada de denúncias de corrupção, a do malufista Celso Pitta. Não falou em elevar a vida do paulistano ao céu, mas prometia o purgatório. Seis meses depois de ter sido eleita, fez muito pouco. A cidade continua um inferno. A prefeita escorregou em aspectos que dizem respeito ao interesse imediato dos eleitores. Primeiro, aumentou a tarifa de ônibus da cidade em um nível recorde. Depois, tirou verbas que estavam destinadas ao combate às enchentes e ainda não apresentou soluções para os congestionamentos, que têm aumentado nos últimos seis meses. Para completar, o caixa da prefeitura está praticamente quebrado. Diferentemente de Marta, a prefeita Ângela tem dinheiro sobrando. É de perguntar o que aconteceria com um candidato com coragem suficiente para afirmar, durante a campanha, algo do tipo: "Votem em mim e vocês viverão seis meses de caos". Ou então: "Prometo apenas não roubar. Quanto às realizações, não esperem nada". Os estudiosos costumam alertar para o risco embutido na confecção de rankings que comparam realidades diferentes. Moradores de cidades mais arrumadas, sem grandes desafios, costumam avaliar melhor seus prefeitos. Curitiba e Porto Alegre freqüentam quase sempre a parte superior em listas desse tipo. Municípios mais desorganizados, como Rio de Janeiro e Fortaleza, invariavelmente aparecem lá embaixo. Por essa razão, todo cuidado é pouco quando se cotejam universos desiguais. Observe como são distintos os desafios das duas prefeitas. Ângela Amin, a número 1, governa a cidade que a Organização das Nações Unidas elegeu como a melhor capital brasileira para viver. "Floripa" oferece aos moradores uma infra-estrutura de fazer gosto. Com 340.000 habitantes, possui uma boa rede de transporte, bom serviço de coleta de lixo e iluminação pública, além de uma taxa de criminalidade de padrão europeu. É a cidade dos sonhos dos brasileiros de classe média que gostariam de deixar as metrópoles em busca de um lugar mais tranqüilo para viver. Já São Paulo tem uma população de 10 milhões de habitantes, um trânsito medonho e índices de homicídio que só perdem para países conflagrados.
São realidades tão distantes que até parecem parte de dois países diferentes. Mas aqui se impõe o velho dilema, aquele que quer saber quem veio antes, o ovo ou a galinha. Ângela é uma ótima prefeita porque administra uma cidade arrumadinha? Ou a cidade está arrumadinha porque ela é uma ótima prefeita? A resposta pode ser dada por meio da pesquisa de popularidade feita na primeira gestão de Ângela. Quando chegou ao governo, em 1997, ela tratava apenas de dívidas altas e lidava com uma folha de pagamento que estava com três meses de atraso. Embora Florianópolis costume ser mais generosa com seus prefeitos do que São Paulo, os eleitores não elogiavam Ângela Amin nas pesquisas. Durante um ano e meio foi considerada uma das piores prefeitas do Brasil. Conclusão: ela virou o jogo graças a seu talento e competência. Reeleita, Ângela é um caso raro de governante que não sofreu até o momento o desgaste típico do segundo mandato. Que o exemplo sirva de estímulo para Marta: sete dos nove prefeitos que começaram o mandato em 1997 com avaliações ruins conseguiram reverter a tendência quando chegaram ao fim do governo. É interessante observar os resultados de outra pesquisa divulgada na semana passada. O Datafolha também apurou o grau de satisfação do eleitorado com os governadores de dez Estados. Anthony Garotinho, do Rio de Janeiro, apareceu em primeiro lugar com 61% de aprovação e Jaime Lerner, do Paraná, em último, com apenas 27% de aprovação. O resultado é interessante porque derruba dois mitos sobre o eleitorado. O primeiro mito é o de que os políticos, sejam eles um pouco melhores ou um pouco piores, costumam agradar aos paranaenses (nos últimos vinte anos, os administradores do Estado foram campeões de popularidade). Conforme outra crença, é quase impossível agradar à população do Estado do Rio (os dois antecessores de Garotinho, Marcello Alencar (PSDB) e Leonel Brizola (PDT), foram dois dos governadores mais impopulares do Brasil). O encanto do eleitorado com Lerner se quebrou quando seu governo não apresentou grandes feitos e acabou envolvido em denúncias de irregularidades. Um dos casos mais barulhentos envolve um de seus principais aliados políticos, o prefeito de Londrina, Antônio Belinati, que foi cassado por corrupção. Belinati é também marido da vice-governadora. Garotinho, por sua vez, gerencia um dos maiores projetos de construção e recuperação de estradas em curso no Brasil. Acertou em cheio. As pesquisas mostram que asfalto e segurança são os principais produtos que os eleitores esperam do governador. "Nos dois casos, o eleitor posicionou-se sobre aquilo que considera ser o talento individual de cada um", diz o cientista político Marcos Coimbra. Fica claro nas pesquisas que o eleitor se cansou de desculpas. Ninguém pode argumentar que a cidade de São Paulo tem preconceito contra o PT. Primeiro porque já votou no PT quando elegeu Luiza Erundina, em 1988. De mais a mais, ficaria difícil continuar a conversa quando se sabe que Tarso Genro, também do PT, obteve 52% de aprovação na prefeitura de Porto Alegre. É o segundo mais popular do país. Também seria complicado sustentar que a prefeitura de São Paulo vai mal porque o governo estadual não repassou uma verba devida ou porque Brasília tem sido rigorosa com o pagamento da dívida. Pesquisas qualitativas mostram que as pessoas sabem claramente que o recolhimento do lixo é tarefa municipal, e que os buracos na rua nada têm a ver com o governador. "Todo mundo conhece as obrigações do prefeito. Se ele não faz seu trabalho direito é condenado", diz Sérgio Abranches. A rodada do Datafolha analisou o comportamento do eleitor nos grandes centros e viu surgir um tipo até intolerante, num certo sentido. Vale saber que, também no mundo das pesquisas, existe outro Brasil, muito mais simpático aos governos, não importa o nome do titular. A avaliação dos presidentes da República sempre é melhor em Mato Grosso, Goiás e Amazonas, Estados com muitas cidades pequenas. Conhecedores dessas peculiaridades, presidentes em crise de popularidade refugiam-se no interior, evitando a exposição nos grandes centros. O presidente José Sarney desafiou essa lógica e pagou um preço alto por isso. Em um de seus piores momentos, ele fez uma viagem ao Rio de Janeiro. O ônibus em que estava foi apedrejado. Fernando Henrique Cardoso vive atualmente um de seus períodos de maior impopularidade. Neste ano já visitou o interior seis vezes. Em abril esteve em Formosa, em Goiás, e em maio em Capão Bonito, em São Paulo. Na sexta-feira da semana passada, sua comitiva estava no Estado do Tocantins, onde é muito querido.
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