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Sou
entreguista, sim
"Entregaria
o Ministério
da
Fazenda ao FMI, a seleção a um
técnico argentino e a Petrobrás
ao primeiro que aparecesse"
A Iugoslávia ganhou 1,3 bilhão de dólares dos países
ricos ao entregar o ex-ditador Slobodan Milosevic ao Tribunal de Haia.
Quem sabe também dão alguma caixinha para nós se
aceitarmos entregar-lhes o coronel Ubiratan Guimarães, responsável
pelo massacre de 102 presos do Carandiru.
Outro dia um leitor enfezado xingou-me de "entreguista". Tem razão.
Se dependesse de mim, entregaríamos tudo aos estrangeiros: o coronel
Ubiratan iria para Haia, o Ministério da Fazenda para o FMI, a
Floresta Amazônica para as multinacionais farmacêuticas, o
Pantanal para os contrabandistas paraguaios, a seleção de
futebol para um técnico argentino, a Petrobras e o Banco do Brasil
para os primeiros compradores que aparecessem. Os brasileiros vivem reclamando
que o governo sucateou o patrimônio nacional durante as privatizações.
Vejo as coisas pelo ângulo inverso: surpreende-me que o governo
tenha conseguido encontrar tantos otários dispostos a pagar esses
preços exorbitantes.
Não que os estrangeiros mereçam grande consideração.
Comemoraram a prisão de Milosevic como uma vitória do mundo
civilizado contra as forças do mal. No mesmo dia em que Milosevic
chegava a Haia, porém, o jornal Le Monde revelava a cumplicidade
de franceses e americanos no assassinato de Ben Barka, líder da
oposição a Hassan II, do Marrocos. Você pode alegar
que o episódio ocorreu muito tempo atrás, em 1965, em plena
Guerra Fria. O que dizer então do genocídio de 800 000 tutsis
em Ruanda, em 1994? Li recentemente que americanos, belgas e franceses
sabiam que os hutus estavam preparando um massacre e preferiram não
se intrometer. Os franceses, aliás, continuaram a vender-lhes armas
durante toda a guerra de extermínio, tanto que Jean-Christophe
Mitterrand, filho do ex-presidente, foi acusado de ter recebido propina
para não interromper o tráfico.
Além do leitor que me xingou de "entreguista", houve outro que
me definiu "apagão do talento". Existe algum colunista da imprensa
que tenha tido o bom gosto de evitar frases de efeito ao escrever sobre
a crise energética? Duvido. Todos eles, comentando os mais variados
assuntos, regozijaram-se com tiradas como "apagão da inteligência",
"apagão da moralidade", "o governo no escuro", "o racionamento
do quarto zagueiro", "o ministro pouco iluminado", "a luz no fim do túnel",
"o último a sair apague a luz". Esse é o nosso senso de
humor. Achamos muita graça em frases de duplo sentido. É
por fatos desse tipo que sempre falo mal do Brasil.
A propósito, uma gentil leitora tentou me defender dos detratores
afirmando que falo mal do Brasil porque o amo. Amando-o tanto, fico revoltado
ao ver o estado em que se encontra. A gentil leitora está redondamente
enganada. Não amo o Brasil coisa nenhuma. Se amasse, falaria bem.
E não me parece que o país esteja pior agora do que no passado.
Pelo contrário: nunca foi melhor. O que não é consolo
para ninguém, claro. A escritora Flannery O'Connor ficava pasma
com as cartas que os leitores lhe enviavam. Um dia ela disse: "Espero
que cedo ou tarde me escreva alguém realmente inteligente, mas
parece que atraio somente a raça dos mentecaptos". Leia Flannery
O'Connor. Ela é americana. E eu sou entreguista.
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