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Edição 1 708 - 11 de julho de 2001
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Sou entreguista, sim

"Entregaria o Ministério da
Fazenda ao
FMI, a seleção a um
técnico
argentino e a Petrobrás
ao
primeiro que aparecesse"

A Iugoslávia ganhou 1,3 bilhão de dólares dos países ricos ao entregar o ex-ditador Slobodan Milosevic ao Tribunal de Haia. Quem sabe também dão alguma caixinha para nós se aceitarmos entregar-lhes o coronel Ubiratan Guimarães, responsável pelo massacre de 102 presos do Carandiru.

Outro dia um leitor enfezado xingou-me de "entreguista". Tem razão. Se dependesse de mim, entregaríamos tudo aos estrangeiros: o coronel Ubiratan iria para Haia, o Ministério da Fazenda para o FMI, a Floresta Amazônica para as multinacionais farmacêuticas, o Pantanal para os contrabandistas paraguaios, a seleção de futebol para um técnico argentino, a Petrobras e o Banco do Brasil para os primeiros compradores que aparecessem. Os brasileiros vivem reclamando que o governo sucateou o patrimônio nacional durante as privatizações. Vejo as coisas pelo ângulo inverso: surpreende-me que o governo tenha conseguido encontrar tantos otários dispostos a pagar esses preços exorbitantes.

Não que os estrangeiros mereçam grande consideração. Comemoraram a prisão de Milosevic como uma vitória do mundo civilizado contra as forças do mal. No mesmo dia em que Milosevic chegava a Haia, porém, o jornal Le Monde revelava a cumplicidade de franceses e americanos no assassinato de Ben Barka, líder da oposição a Hassan II, do Marrocos. Você pode alegar que o episódio ocorreu muito tempo atrás, em 1965, em plena Guerra Fria. O que dizer então do genocídio de 800 000 tutsis em Ruanda, em 1994? Li recentemente que americanos, belgas e franceses sabiam que os hutus estavam preparando um massacre e preferiram não se intrometer. Os franceses, aliás, continuaram a vender-lhes armas durante toda a guerra de extermínio, tanto que Jean-Christophe Mitterrand, filho do ex-presidente, foi acusado de ter recebido propina para não interromper o tráfico.

Além do leitor que me xingou de "entreguista", houve outro que me definiu "apagão do talento". Existe algum colunista da imprensa que tenha tido o bom gosto de evitar frases de efeito ao escrever sobre a crise energética? Duvido. Todos eles, comentando os mais variados assuntos, regozijaram-se com tiradas como "apagão da inteligência", "apagão da moralidade", "o governo no escuro", "o racionamento do quarto zagueiro", "o ministro pouco iluminado", "a luz no fim do túnel", "o último a sair apague a luz". Esse é o nosso senso de humor. Achamos muita graça em frases de duplo sentido. É por fatos desse tipo que sempre falo mal do Brasil.

A propósito, uma gentil leitora tentou me defender dos detratores afirmando que falo mal do Brasil porque o amo. Amando-o tanto, fico revoltado ao ver o estado em que se encontra. A gentil leitora está redondamente enganada. Não amo o Brasil coisa nenhuma. Se amasse, falaria bem. E não me parece que o país esteja pior agora do que no passado. Pelo contrário: nunca foi melhor. O que não é consolo para ninguém, claro. A escritora Flannery O'Connor ficava pasma com as cartas que os leitores lhe enviavam. Um dia ela disse: "Espero que cedo ou tarde me escreva alguém realmente inteligente, mas parece que atraio somente a raça dos mentecaptos". Leia Flannery O'Connor. Ela é americana. E eu sou entreguista.

 
 
   
 
 
   
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