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Eu
quero Nova York
O bilionário dono da Bloomberg
quer ser o próximo prefeito de
Nova
York bancando a
campanha
com o próprio dinheiro
Ângela
Pimenta, de Nova York
Raul Junior
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"Meu
trabalho no comando
de uma empresa
como a Bloomberg
é mais
difícil do que
administrar a
cidade de Nova
York" |
Aos
59 anos, não satisfeito em possuir uma fortuna estimada em 4 bilhões
de dólares, pilotar o próprio helicóptero, chefiar
7.200 funcionários e abastecer a cada minuto os mercados financeiros
de mais de 100 países com informações de sua agência
de notícias econômicas e políticas on-line, Michael
Bloomberg quer ser o próximo prefeito de Nova York. Administrador
de empresas formado em Harvard e empresário de grande influência,
Bloomberg transferiu-se no ano passado do Partido Democrata para o Republicano
em troca de mais apoio político para sua candidatura nas eleições
de novembro. Até agora, já conseguiu a adesão do
governador do Estado de Nova York, George Pataki, e de Rudolph Giuliani,
o atual prefeito. Bloomberg financia cada centavo de sua campanha. Aos
eleitores promete conter o desperdício da burocracia da cidade,
entre outras metas. Ele fundou seu império há vinte anos,
depois de ser demitido da corretora de valores Salomon Brothers. Saiu
de lá com uma indenização de 10 milhões de
dólares e a idéia de irrigar os mercados com informações
políticas e econômicas de todo o mundo. Em Nova York, ele
concedeu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja Por que o senhor resolveu candidatar-se a prefeito de
Nova York?
Bloomberg
Porque estou empenhado em mudar para melhor a vida das pessoas. Ser prefeito
desta cidade requer capacidade gerenciadora, liderança e também
saber comunicar-se com o povo. Esse cargo exige que se prestem contas
à população. Tudo isso já faz parte de minha
rotina de trabalho. Na Bloomberg, eu gerencio, administro, ouço
e também dou satisfação do que faço ao mercado.
Acredito que alguém precisa fazer com que a burocracia desta cidade
melhore. Há uma série de problemas a ser resolvidos por
aqui: não há dinheiro que chegue e há desperdício
e problemas com os sindicatos, entre outras coisas. Em Nova York vivem
8 milhões de pessoas, e esta é uma cidade com tamanha liderança
que, se eu fizer com que as coisas melhorem por aqui, certamente essas
mudanças acabarão sendo copiadas em muitas outras cidades.
Veja Mas o senhor não acha que administrar uma cidade
é uma atividade bastante diferente de tocar a própria empresa?
Afinal, o senhor é dono da Bloomberg e pode fazer o que bem quiser
com ela. Como prefeito o senhor teria de prestar contas ao povo e aos
vereadores diariamente.
Bloomberg
Certamente há diferenças entre as duas coisas. Mas no mundo
dos negócios tamb&ea é uma atividade bastante diferente de tocar a própria empresa?
Afinal, o senhor é dono da Bloomberg e pode fazer o que bem quiser
com ela. Como prefeito o senhor teria de prestar contas ao povo e aos
vereadores diariamente.
Bloomberg
Certamente há diferenças entre as duas coisas. Mas no mundo
dos negócios também existe uma série de restrições
a respeito do que se pode fazer. Como, por exemplo, convencer as pessoas
a trabalhar conjuntamente, a lidar com fornecedores, consumidores, com
as legislações municipal, estadual, federal. Na Bloomberg
nós lidamos com as leis de 125 países ao redor do mundo.
Portanto, eu poderia afirmar que meu trabalho atual é até
mesmo mais difícil de fazer do que aquilo a que estou me propondo.
Veja Mas como prefeito de Nova York o senhor também
teria a amolação de ver a imprensa sensacionalista vasculhando
sua vida privada incessantemente...
Bloomberg
Não há nada em minha vida privada que pudesse causar-me
qualquer tipo de embaraço. O que a imprensa faz é realmente
invasivo, mas se os repórteres olharem bem não vão
encontrar nada. Realmente é chato que a imprensa vasculhe sua vida,
mas lidar com isso faz parte de minha escolha. O que você prefere
fazer: ajudar o povo ou continuar numa posição confortável?
Quero ajudar o povo de Nova York. Sei que no leito de morte, se eu olhar
para trás e concluir que temi o escrutínio público
e preferi gastar meu tempo jogando golfe ou tomando mais banhos de sol
a trabalhar duro, eu vou dizer não! Tenho certeza de que terei
mais prazer e satisfação na vida se ajudar a quem precisa.
Veja O que o senhor tem a dizer sobre os processos por assédio
sexual que algumas de suas ex-funcionárias têm movido contra
o senhor?
Bloomberg
Temos alguns milhares de empregados. Todos os ex-funcionários que
têm uma reclamação recorrem a advogados que nos ligam
e dizem: "Nós vamos acusá-los de alguma coisa e, se vocês
não quiserem ter nenhum tipo de publicidade negativa envolvendo
a empresa, é melhor nós fazermos um acordo e vocês
assinarem o cheque". E minha resposta é não. Nós
não fizemos nada de errado e não vamos mudar.
Veja Mas o que o senhor teria a dizer especificamente sobre
os processos por assédio sexual?
Bloomberg
Em
primeiro lugar, em vinte anos de minha empresa, que atua em mais de 100
países, só aconteceram três desses processos. Além
disso, um deles foi desqualificado pelo próprio juiz, que não
viu nenhuma evidência que pudesse incriminar-nos. No segundo, o
juiz mandou o marido e o cunhado da reclamante para a cadeia por fraude.
E no terceiro nós acabamos fechando um acordo financeiro. Foi uma
coisa ultrajante, mas o fiz apenas porque o processo se desenrolaria interminavelmente.
Passei por um detector de mentiras que não acusou nada contra mim.
Se você perguntar à maioria de nossos empregados, eles vão
dizer que adoram trabalhar aqui e não querem demitir-se. Mas eu
sou um belo alvo e por isso tem gente que sempre vai acusar-me de algo.
E a única coisa de que me têm acusado é de justamente
dizer alguma coisa nunca de ter feito algo errado. E mesmo nesse
caso o detector de mentiras provou que eu não tinha dito nada daquilo.
Meus acusadores não prestaram testemunho sob juramento, mas eu
sim. Qual é? Chega! Isso é ridículo!
Veja O senhor, que pertencia aos quadros do Partido Democrata,
mudou de partido no ano passado. Qual é a diferença entre
ser um democrata e ser um republicano em Nova York?
Bloomberg
Na verdade, em Nova York não existe nenhuma diferença. Mesmo
nacionalmente, há republicanos liberais que são mais liberais
que alguns democratas conservadores. De certa maneira, há uma sobreposição
entre os democratas de direita e os republicanos de esquerda no Congresso
americano. Mas no âmbito da cidade de Nova York essas diferenças
não são visíveis.
Veja Que tipo de ideal lhe serve de motivação
para a vida pessoal e profissional?
Bloomberg
Adoro minha família. Adoro correr, esquiar, jogar golfe, gerenciar
minha empresa e também ajudar as pessoas e, novamente, é
por isso que quero ser prefeito de Nova York. Auxiliar o próximo
faz parte da cultura americana. Desde o berço os americanos são
ensinados a se preocupar com as outras pessoas. Nem todos aprendem essa
lição, mas o serviço público é um conceito
que está no cerne de nossa cultura, de uma forma mais enraizada
do que nos países latinos. E talvez seja por isso que nós
temos um desempenho melhor.
Veja Como é que o senhor vê a Bloomberg daqui
a cinco e daqui a dez anos?
Bloomberg
Não penso nem planejo nada com toda essa antecedência. Na
verdade, não planejo nada para um prazo mais longo que os próximos
doze meses. Acho que a habilidade de prever as oportunidades e os problemas
que vão ocorrer daqui a cinco anos é tão pequena
que eu não gasto meu tempo com isso. Sou um sujeito prático:
olho diretamente para aquilo que nós podemos fazer neste mês
ou neste ano. E, se podemos fazer um bom trabalho neste ano, no ano que
vem teremos um monte de novas oportunidades para explorar. Meu trabalho
consiste exatamente em assegurar que a empresa possa lidar com qualquer
espécie de revés, enquanto a missão dos outros 7.199
funcionários é fazer tudo para que não precisemos
enfrentar uma posição desfavorável. Eles têm
de construir, inovar, trabalhar duro para melhorar a empresa, enquanto
eu preciso ater-me aos possíveis reveses. Alguém disse que
a Bloomberg corre muitos riscos desnecessários, mas eu diria que
não somos assim. Na verdade, a razão pela qual nós
temos tido tanto sucesso é que fazemos coisas novas, mas nós
as planejamos com a antecedência suficiente.
Veja Como é que o senhor vê seus principais
competidores, principalmente a agência de notícias Reuters
e o conglomerado Dow Jones?
Bloomberg
Não sei quem eles são nem o que fazem.
Veja Por que até hoje o senhor não abriu o
capital da empresa, oferecendo suas ações ao público?
Bloomberg
Porque não existe nenhuma razão para isso. As empresas só
abrem seu capital nas bolsas de valores quando precisam levantar dinheiro.
Acontece que nós temos todo o dinheiro e a visibilidade de que
precisamos no mercado. Em outubro vai fazer vinte anos que esta empresa
foi fundada, e estamos muito bem, obrigado. Acontece que depois que se
abre o capital de uma empresa você é levado a restringir
os riscos que ela precisa correr para continuar crescendo.
Veja O senhor acredita que a desaceleração
da economia americana poderá resultar em recessão?
Bloomberg
Acredito que esse período de desaceleração ainda
não acabou, e na verdade ninguém sabe quando isso ocorrerá.
Nos últimos anos, todos os setores da economia americana estiveram
em expansão. Além disso, o acesso ao mercado de ações
foi enormemente facilitado a novos investidores, que acabaram aquecendo-o
demais. Agora, estamos justamente passando por essa correção
do mercado de ações, o que aliás é bastante
saudável para a economia. Todo mundo tem uma opinião a respeito
disso, mas de fato ninguém sabe quando essa desaceleração
terminará. Não acredito que a economia americana será
zerada e tampouco que o mundo vá acabar.
Veja O Brasil é hoje umas das maiores economias do
planeta, mas ainda é bastante vulnerável a qualquer sobressalto
externo. De que maneira o país poderia melhorar sua imagem internacional
e também fortalecer sua economia?
Bloomberg
O
Brasil é um grande país, com um enorme número de
pessoas que trabalham duro. Entretanto, não tem uma massa de trabalhadores
suficientemente educada. E quem olhar para o Brasil verá um enorme
número de pessoas que não sabem ler nem têm as habilidades
profissionais necessárias para competir globalmente. Portanto,
educação é o primeiro item a ser melhorado no país.
O segundo depende de uma enorme vontade política: o Brasil precisa
abrir cada vez mais suas fronteiras. Hoje não se sobrevive a menos
que se possa fazer comércio ao redor do planeta. E vender produtos
e serviços ao redor do mundo significa também que os comerciantes
de outros países possam trazer os produtos deles para seu país.
Os trabalhadores brasileiros estarão competindo com os do mundo
inteiro, e vice-versa. O terceiro fator importante é o país
se assegurar de que o mercado financeiro e as empresas terão leis
regulamentadoras que garantam negócios justos e o mais transparentes
possível. E é bom deixar claro que a maioria das empresas
não gosta nem de regulamentações nem de revelar a
performance que obtêm com seus negócios. Mas são essas
duas medidas que fazem com que as pessoas tenham confiança bastante
para investir em qualquer mercado.
Veja As chamadas economias emergentes, como o Brasil, são
bastante afetadas pelas cotações que seus títulos
ganham de agências internacionais, como a Moody's e a Standard &
Poor's. Mas às vezes os títulos brasileiros acabam sendo
rebaixados por insucessos de outros países, como a Argentina recentemente.
O senhor acha que essas agências fazem um bom trabalho?
Bloomberg
Veja
bem: essas agências são empresas independentes. Ninguém
é obrigado a ouvir o que elas dizem. Mas se alguém destrói
a independência delas estará eliminando a oportunidade daqueles
que recorrem a elas de ter uma opinião imparcial. Em meus 59 anos
de vida, a todo instante ouço as pessoas reclamando contra agências
independentes porque não gostam dos resultados e não porque
haja alguma coisa errada com as cotações em si.
Veja Que conselhos o senhor daria ao pequeno investidor brasileiro?
Bloomberg
Acho que ele deveria todo mês separar 8% de sua renda e aplicar
em ações através do mercado de fundos mútuos,
e ponto final. Ele tem simplesmente de se esquecer do resto e voltar a
se concentrar em seu trabalho. Não deve nem mesmo ver o sobe-e-desce
das ações no jornal, já que nunca poderá ganhar
o suficiente no mercado de ações para se aposentar de um
dia para o outro. Ele não é esperto o bastante e
tampouco eu para ganhar dinheiro com o pregão.
Veja Quer dizer que Michael Bloomberg não é
esperto o bastante para ganhar dinheiro na bolsa?
Bloomberg
Não
sou mesmo. E acho que quase ninguém sabe ao certo como ganhar dinheiro
com isso. Ora, é para isso mesmo que os fundos mútuos existem:
diversificar seu investimento e proporcionar-lhe uma gerência profissional.
Nunca entendi por que as pessoas perdem o tempo delas conferindo as cotações
de seus investimentos todos os dias. Isso é uma perda de tempo
enorme! Se fosse elas, eu me limitaria a trabalhar.
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