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Sérgio
Abranches
Armadilha de expectativas
"O
melhor que o governo pode fazer é
evitar que a pressão cambial se transforme
em pressão inflacionária"
Ilustração Ale Setti
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O Brasil
está vivendo um clima de tensões, que atua negativamente
sobre as expectativas do mercado e dos consumidores. O câmbio, pressionado
por incertezas internas e externas, aumenta os temores de inflação.
A elevação da inflação sanciona essas apreensões
e aumenta o desconforto. Esse clima mais adverso derruba a popularidade
do presidente e alimenta intenções de voto para a oposição.
A chance de vitória de um candidato que leve à ruptura do
modelo econômico gera insegurança nos agentes econômicos,
que buscam mais defesa para seus ativos, incrementando a desvalorização
da moeda, e o prêmio de risco, que eleva a taxa de juros no financiamento
externo do país. O resultado é um sistema tipo "bola-de-neve"
de causação circular, que requer muito equilíbrio
e sensatez para ser rompido.
Mesmo a
atuação precisa e serena do Banco Central e do governo não
garante que essa lógica seja interrompida sem alteração
nas variáveis que criam esse ambiente de incerteza. Várias
delas escapam ao controle de qualquer agente. É o caso da crise
argentina. O mercado, prevendo o colapso cambial do vizinho, projeta suas
conseqüências para o Brasil, apostando em mais desvalorização
futura do real e elevação da taxa de juros. O resultado
imaginado pode ser um surto inicial de inflação e a desaceleração
posterior da economia. Como já haverá desaquecimento por
causa do racionamento de energia e o real já está desvalorizado,
as apostas sobre o futuro são mais drásticas.
Na hipótese
de um "efeito tango" forte, aumenta o pessimismo sobre o resultado eleitoral
de 2002. O efeito combinado disso tudo é maior pressão cambial
aqui e agora. O Banco Central vira um gerenciador de reações
defensivas, que alteram para pior a equação macroeconômica
da qual dependem as metas de inflação e as necessidades
de financiamento do país. Como esse quadro pode ter impacto real
na economia, o BC tem de defender suas metas, e ao fazê-lo cria
novos temores.
Desde 1999
o câmbio passou a ser a variável de ajuste da economia política
brasileira. Antes, era a taxa de juros. Não existe a possibilidade
de escapar das pressões cambiais, porque o país é
dependente de recursos externos. Como o Banco Central precisa adotar uma
política ativa, que minimize aquele efeito negativo em suas metas
de inflação, sempre haverá aqueles que vêem
em sua ação sinal de mudança de política cambial.
Até porque intervenções desse tipo nunca são
totalmente transparentes, nem seus objetivos declarados têm plena
credibilidade. Essa hipótese detona novos comportamentos antecipatórios
para defesa no presente contra desvalorizações futuras.
Uma parte do mercado passa a testar o Banco Central.
Espero que
já tenham percebido que não estou tratando de economia,
mas da sociologia da economia. Muitas das hipóteses econômicas
e políticas que determinam comportamentos dos agentes econômicos
podem não fazer sentido. Mas isso tem pouca importância.
Elas têm conseqüências concretas na economia e na política
econômica. O "efeito tango" pode não ser tão forte
ou a Argentina pode não entrar em colapso. Mas a idéia de
risco é essa mesma. Se não acontecer, é lucro. Se
acontecer, evitaram o prejuízo. Quem quer que seja eleito em 2002,
muito provavelmente não terá condições políticas
de fazer o que lhe der na telha. As ameaças de ruptura, hoje, não
passam de bravatas. Mas quem tem medo da ruptura se defende dela hoje.
O governo
não tem controle sobre o destino da Argentina nem sobre as urnacute;ia de
risco é essa mesma. Se não acontecer, é lucro. Se
acontecer, evitaram o prejuízo. Quem quer que seja eleito em 2002,
muito provavelmente não terá condições políticas
de fazer o que lhe der na telha. As ameaças de ruptura, hoje, não
passam de bravatas. Mas quem tem medo da ruptura se defende dela hoje.
O governo
não tem controle sobre o destino da Argentina nem sobre as urnas
de 2002. O melhor que pode fazer é evitar que a pressão
cambial se transforme em pressão inflacionária. Deve defender
a meta de inflação e evitar o prolongamento do racionamento
de energia. E procurar reduzir o quanto puder as restrições
ao crescimento sadio da economia, no menor prazo possível. Dessa
forma, reduzirá o desconforto econômico futuro, exercendo
efeito positivo sobre as expectativas. Pode até mesmo recuperar
parte da popularidade perdida. Criaria, também, condições
para ter um candidato mais competitivo, reduzindo parte dos temores em
relação ao "fantasma" de 2002. Hoje, o maior risco que o
país enfrenta é a pressão sobre o câmbio, que
aumenta o risco, que aumenta o câmbio...
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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