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Edição 1 708 - 11 de julho de 2001
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Sérgio Abranches

Armadilha de expectativas

"O melhor que o governo pode fazer é
evitar que a pressão cambial se transforme
em pressão inflacionária"




Ilustração Ale Setti

O Brasil está vivendo um clima de tensões, que atua negativamente sobre as expectativas do mercado e dos consumidores. O câmbio, pressionado por incertezas internas e externas, aumenta os temores de inflação. A elevação da inflação sanciona essas apreensões e aumenta o desconforto. Esse clima mais adverso derruba a popularidade do presidente e alimenta intenções de voto para a oposição. A chance de vitória de um candidato que leve à ruptura do modelo econômico gera insegurança nos agentes econômicos, que buscam mais defesa para seus ativos, incrementando a desvalorização da moeda, e o prêmio de risco, que eleva a taxa de juros no financiamento externo do país. O resultado é um sistema tipo "bola-de-neve" de causação circular, que requer muito equilíbrio e sensatez para ser rompido.

Mesmo a atuação precisa e serena do Banco Central e do governo não garante que essa lógica seja interrompida sem alteração nas variáveis que criam esse ambiente de incerteza. Várias delas escapam ao controle de qualquer agente. É o caso da crise argentina. O mercado, prevendo o colapso cambial do vizinho, projeta suas conseqüências para o Brasil, apostando em mais desvalorização futura do real e elevação da taxa de juros. O resultado imaginado pode ser um surto inicial de inflação e a desaceleração posterior da economia. Como já haverá desaquecimento por causa do racionamento de energia e o real já está desvalorizado, as apostas sobre o futuro são mais drásticas.

Na hipótese de um "efeito tango" forte, aumenta o pessimismo sobre o resultado eleitoral de 2002. O efeito combinado disso tudo é maior pressão cambial aqui e agora. O Banco Central vira um gerenciador de reações defensivas, que alteram para pior a equação macroeconômica da qual dependem as metas de inflação e as necessidades de financiamento do país. Como esse quadro pode ter impacto real na economia, o BC tem de defender suas metas, e ao fazê-lo cria novos temores.

Desde 1999 o câmbio passou a ser a variável de ajuste da economia política brasileira. Antes, era a taxa de juros. Não existe a possibilidade de escapar das pressões cambiais, porque o país é dependente de recursos externos. Como o Banco Central precisa adotar uma política ativa, que minimize aquele efeito negativo em suas metas de inflação, sempre haverá aqueles que vêem em sua ação sinal de mudança de política cambial. Até porque intervenções desse tipo nunca são totalmente transparentes, nem seus objetivos declarados têm plena credibilidade. Essa hipótese detona novos comportamentos antecipatórios para defesa no presente contra desvalorizações futuras. Uma parte do mercado passa a testar o Banco Central.

Espero que já tenham percebido que não estou tratando de economia, mas da sociologia da economia. Muitas das hipóteses – econômicas e políticas – que determinam comportamentos dos agentes econômicos podem não fazer sentido. Mas isso tem pouca importância. Elas têm conseqüências concretas na economia e na política econômica. O "efeito tango" pode não ser tão forte ou a Argentina pode não entrar em colapso. Mas a idéia de risco é essa mesma. Se não acontecer, é lucro. Se acontecer, evitaram o prejuízo. Quem quer que seja eleito em 2002, muito provavelmente não terá condições políticas de fazer o que lhe der na telha. As ameaças de ruptura, hoje, não passam de bravatas. Mas quem tem medo da ruptura se defende dela hoje.

O governo não tem controle sobre o destino da Argentina nem sobre as urnacute;ia de risco é essa mesma. Se não acontecer, é lucro. Se acontecer, evitaram o prejuízo. Quem quer que seja eleito em 2002, muito provavelmente não terá condições políticas de fazer o que lhe der na telha. As ameaças de ruptura, hoje, não passam de bravatas. Mas quem tem medo da ruptura se defende dela hoje.

O governo não tem controle sobre o destino da Argentina nem sobre as urnas de 2002. O melhor que pode fazer é evitar que a pressão cambial se transforme em pressão inflacionária. Deve defender a meta de inflação e evitar o prolongamento do racionamento de energia. E procurar reduzir o quanto puder as restrições ao crescimento sadio da economia, no menor prazo possível. Dessa forma, reduzirá o desconforto econômico futuro, exercendo efeito positivo sobre as expectativas. Pode até mesmo recuperar parte da popularidade perdida. Criaria, também, condições para ter um candidato mais competitivo, reduzindo parte dos temores em relação ao "fantasma" de 2002. Hoje, o maior risco que o país enfrenta é a pressão sobre o câmbio, que aumenta o risco, que aumenta o câmbio...

 

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)


 
 
   
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