O surfista grunge chegou lá

A arrancada que colocou o catarinense Gustavo
Kuerten entre as maiores feras do tênis mundial

Maurício Cardoso

Na primeira vez em que o catarinense Gustavo Kuerten, o "Guga", esteve em Roland Garros, o templo sagrado do tênis em Paris, entrou como clandestino. Foi em 1992, quando tinha 15 anos e seu treinador, Larry Passos, o levou para assistir ao torneio que reúne os melhores tenistas do mundo. Como não conseguiu ingresso, entrava no estádio de madrugada e ficava escondido nas arquibancadas até que o público começasse a chegar. Na semana passada, Guga estava novamente como clandestino em Roland Garros -- só que, desta vez, classificado para disputar a final do torneio contra o espanhol Sergi Bruguera. Nunca o esporte nacional vira antes um azarão desse quilate. Guga chegou a Roland Garros há duas semanas como mais um entre as dezenas de tenistas anônimos que, todos os anos, se inscrevem para a competição. E, para espanto da imprensa especializada internacional, e dos brasileiros, que nunca tinham ouvido falar no seu nome até segunda-feira, foi abatendo de forma implacável as celebridades que se apresentaram na sua frente. Na sexta-feira, quando venceu o belga Filip Dewulf na semifinal, já computava entre suas vítimas o russo Yevgeni Kafelnikov e o austríaco Thomas Muster, respectivamente campeões do torneio em 1996 e 1995. O adversário seguinte, Bruguera, ganhou em 1993 e 1994.

Jogando flipperama antes da semifinal: um tenista anônimo conquista a França
Fotos: Antonio Ribeiro  

Roland Garros está para o tênis como o Maracanã para o futebol e Indianápolis para o automobilismo. Ali se disputa uma das quatro mais importantes competições mundiais da modalidade. As outras são o torneio de Wimbledon, na Inglaterra, e os abertos dos Estados Unidos e da Austrália, que juntos formam o chamado Grand Slam. Chegar a uma final em Roland Garros significa inscrever o nome entre os maiores atletas da modalidade. É também abrir a porta de um clube de milionários, como é o caso do americano Pete Sampras, o atual número 1 do ranking, dono de fortuna calculada em 25,5 milhões de dólares só em prêmios conquistados nas quadras. Aos 20 anos, Gustavo Kuerten entrou em Roland Garros pela porta dos fundos. Antes de chegar ao torneio, ocupava apenas a 66ª posição do ranking dos melhores tenistas do mundo e nunca havia vencido um torneio de primeira classe do circuito internacional. "Ainda não sei se sou uma estrela do tênis ou se continuo o mesmo", disse a VEJA um incrédulo Guga na quinta-feira enquanto brincava num flipperama ao lado do estádio.

"Surfista do saibro" -- Além da ascensão instantânea num torneio tão célebre, o que surpreende no tenista é a estranha figura que ele compõe na quadra. Magro, com 1,91 metro de altura e 76 quilos, Guga equilibra-se sobre um corpo desengonçado de adolescente -- que só parece adquirir harmonia quando, completado pela raquete, se põe em movimento. Cabelos longos e desalinhados e uma barba rala por fazer terminam de compor uma silhueta incomum. Isso fez com que, logo depois da vitória sobre o checo Slava Dosedel, na partida de estréia, os jornalistas internacionais passassem a chamá-lo de "surfista do saibro" -- numa referência ao jeitão à vontade do jogador e ao piso das quadras. Num esporte em que a tradição manda os atletas usar impecáveis roupas brancas, Guga apresentou-se com uniforme berrante, mais apropriado a um jogador de futebol: todo azul e amarelo, incluindo meias e sapatos. Surpresos, os organizadores do torneio procuraram os representantes do fabricante das roupas de Guga para pedir que moderassem na profusão de cores do uniforme. Não. Guga limitou-se a colocar na cabeça uma bandana com fundo branco, e manteve sua figura de surfista grunge. "Como pensavam que eu não iria longe no torneio, nem trataram do assunto diretamente comigo", conta o jogador.

Fora da quadra, mais surpresas. Enquanto a maioria dos jogadores do torneio se hospedava em hotéis caros e luxuosos de Paris, o brasileiro se escondia no modesto Mont Blanc, 70 dólares a diária. Foi nesse hotel que se hospedou quando esteve em Paris pela primeira vez, há cinco anos. Diz que foi bem tratado e não muda mais. Também costuma freqüentar a mesma pizzaria, a Victoria, e se divertir no mesmo flipperama, ao lado do estádio de Roland Garros. Embora não aparente, Guga é sempre assim, metódico e disciplinado. Até hoje, quando joga nos Estados Unidos, dispensa os hotéis reservados pelos organizadores e vai para a casa de tia Vicky, uma inglesa que o recebeu quando lá esteve pela primeira vez para disputar um torneio juvenil. "Ele é uma pessoa de hábitos conservadores", diz João Carlos Diniz, promotor de eventos e amigo da família do jogador em Florianópolis.

Os milionários
das quadras

Desde 1972, quando se começou a computar os prêmios ganhos pelos tenistas, 270 deles já ultrapassaram a barreira do milhão de dólares. Veja alguns exemplos (em milhões de dólares):

  • Pete Sampras: 25,5
  • Boris Becker: 23,8
  • Ivan Lendl: 21,2
  • Martina Navratilova: 20,3
  • Steffi Graf: 19,8

Apesar de ignorado pela torcida e pela imprensa esportiva, Guga era conhecido entre os tenistas profissionais antes de chegar a Paris. Em diferentes torneios, tinha vencido neste ano o americano Andre Agassi e o sul-africano Wayne Ferreira, ambos situados entre os dez melhores do mundo. Seu jogo sólido, com bolas colocadas nos limites da quadra e muita velocidade, mereceu elogios de especialistas gabaritados. "Fazia tempo não se via um novato com um jogo tão consistente", diz o ex-tenista americano Jimmy Arias, convertido agora em comentarista de televisão. "Ele tem talento e personalidade para ficar no topo", confirma o também americano John McEnroe, um dos maiores tenistas de todos os tempos. Guga tem ainda uma arma poderosa em sua mão direita: o saque. Segundo o último número do Jornal do Tênis, órgão oficial da Associação de Tênis Profissional, ATP, Guga tem o 17º saque mais veloz do mundo. A bolinha arremessada por sua raquete chega a alcançar 206 quilômetros por hora. É uma velocidade tão grande que o adversário não tem tempo de reagir. No tênis, ninguém faz carreira só com um bom saque. Mas, como se viu na semana passada, é a melhor forma de começar a construir uma vitória.

Medalhões abatidos -- Guga vem de uma família de classe média descendente de imigrantes alemães. O irmão mais velho, Rafael, formado em ciências da computação e professor de tênis, é quem cuida de seus negócios e de sua página na Internet. O mais novo, Guilherme, sofre de paralisia cerebral e, com 17 anos, vive sob os cuidados de uma babá. O pai, Aldo, era comerciante de esquadrias de alumínio e morreu de ataque cardíaco há onze anos, quando apitava uma partida de tênis em Curitiba. "Não tenho por que dedicar este momento a meu pai", disse Guga a VEJA em Paris, depois de comentar que vivia a semana mais feliz de sua vida. "A ele costumo dedicar cada momento de minha vida." A mãe, Alice, trabalha como assistente social na Telesc, a empresa telefônica de Santa Catarina, e também dirige a Fundação de Educação Especial, órgão do governo do Estado que se dedica a crianças excepcionais. Na quarta-feira, depois da surpreendente arrancada do filho rumo às finais de Roland Garros, viajou às pressas para Paris. "Foi um presente para ela e para mim", resumiu o tenista. Junto com Alice viajou a avó de Guga, dona Olga, a quem se atribui um importante papel na carreira do jogador, o de patrocinadora. As primeiras incursões de Guga pelo mundo do tênis foram bancadas pelas Indústrias Schlösser, uma tecelagem que a avó possui em Brusque.

A mãe, Alice, e a avó, Olga, na frente do hotel em Paris: viagem às pressas

Roland Garros foi pródigo em surpresas neste ano. Quase todos os medalhões do tênis foram abatidos por novatos, como Guga, logo nas primeiras fases do torneio. Quando começaram as quartas-de-final, restava apenas um cabeça-de-chave, como são conhecidos os jogadores que, por estar mais bem situados no ranking, encabeçam a formação das tabelas da competição. Era exatamente o espanhol Sergi Bruguera, considerado um especialista em quadras de saibro e contra quem Guga jogaria a final do domingo. Entre os que ficaram pelo caminho estava o americano Pete Sampras, o grande favorito no início do torneio. Sampras foi derrotado pelo sueco Magnus Norman, que ocupava apenas uma posição acima de Guga no ranking mundial e também acabou desclassificado.

Os entendidos não chegam a se surpreender com as zebras que campearam em Roland Garros. Nos últimos anos, o tênis tornou-se um esporte tão técnico e competitivo que já não existem grandes diferenças entre o primeiro e o 100º colocado no ranking. "Para ficar entre os 100 melhores do mundo, o jogador tem de ser muito bom", diz o paulista Marcelo Meyer, ex-tenista e hoje técnico de tênis. Além disso, ocupar a 66ª posição do ranking, caso de Guga antes de Roland Garros, não é para qualquer um. Afinal, só nos Estados Unidos há 20 milhões de americanos que se aventuram a empunhar uma raquete. No Brasil, são 400.000. O ranking da ATP, a entidade que administra o tênis mundial, registra a existência de 1.500 jogadores que fizeram pelo menos 1 ponto em algum de seus inúmeros torneios oficiais no mundo inteiro nos últimos doze meses.

Para somar os 727 pontos que o colocaram em 66º lugar antes de Roland Garros, Guga precisou de muito trabalho e determinação, jogando em torneios menores que não dão grandes prêmios em dinheiro mas contam pontos para o ranking. Agora tudo muda. Com os pontos obtidos em Roland Garros, ele poderá ficar entre os 24 melhores do mundo, ou até mais que isso. É a melhor posição já ocupada por um brasileiro em toda a história do tênis. Outra grande diferença aparece na sua conta bancária. Em toda sua carreira como profissional, iniciada em 1994, Guga havia faturado cerca de 280.000 dólares em prêmios. Em Roland Garros, assegurou um cheque de 350.000 dólares só para chegar à final. Ganhando de Bruguera, levaria o dobro disso. "Hoje o Guga já não paga para jogar", declara Paulo Cleto, técnico da seleção brasileira que disputa a Copa Davis. "Mas nem sempre foi assim."


Fotos: Lemir Martins

Maria Esther Bueno, tricampeã em Wimbledon, e Thomas Koch, semifinalista da Copa Davis: duas estrelas na história do
tênis brasileiro

Boa vida -- Até despontar para o mundo do tênis, Guga levava uma boa vida freqüentando uma das 42 praias de Florianópolis. Para não ficar longe da família, nem das praias, recusou inúmeros convites de universidades americanas e de clubes alemães que o queriam para reforçar suas equipes. O mar e o surfe sempre foram duas grandes paixões fora das quadras. Outra foi o futebol, do qual se afastou a conselho de seu primeiro treinador de tênis, Carlos Alves. "Você escolhe: ou vai jogar futebol no interior do Estado, ou tênis nas quadras do mundo." Hoje sua relação com o futebol resume-se à de torcedor fervoroso do Avaí, de Florianópolis. Desde criança costumava desferir suas raquetadas no clube da Associação dos Funcionários da Telesc e, aos 13 anos, começou o que seria sua carreira de tenista profissional. Já freqüentava o circuito internacional de tênis quando completou o 2º grau. "Toda vez que viajava para jogar ele levava os livros de escola", conta o amigo João Carlos Diniz.

O aparecimento da exótica figura multicolorida como uma pilha Rayovac em Roland Garros foi saudado como uma brisa de renovação num esporte em crise. Hoje, há centenas de torneios realizados no mundo a cada ano, rios de dinheiro correndo para os bolsos dos tenistas, mas a década de 90 é considerada uma das piores para o tênis mundial. O número de simpatizantes e praticantes caiu de forma tão acentuada no começo da década que, em 1994, os fabricantes de equipamentos esportivos acusaram uma queda de 20% na venda de raquetes e de 40% na de bolinhas. Um estudo realizado na época mostrou que havia dois problemas com o tênis, ambos até hoje mal resolvidos. O primeiro eram as regras complicadas. Como pode ser atraente e popular um esporte que, em vez de contar seus pontos na escala decimal, usa um código indecifrável de 15, 30 e 40? Outra razão era a falta de carisma dos grandes campeões, um sério obstáculo para atrair os jovens para as quadras. Pete Sampras, que há cinco anos defende a primeira posição do ranking mundial, é quase um robô -- uma eficiente máquina de dar raquetadas, e nada além disso. Guga é o mais completo anti-Sampras. Se mostrar nas quadras eficiência similar à do campeão, o tênis só tem a ganhar.

O tênis brasileiro, em particular, recebe Guga carregado de saudade e esperança. O Brasil já foi berço de um dos maiores talentos da história do tênis mundial -- a paulista Maria Esther Bueno. Três vezes campeã em Wimbledon, quatro vezes no Aberto dos Estados Unidos. Entre torneios de simples e duplas, ganhou dezessete títulos de Grand Slam, os campeonatos mais cobiçados do tênis mundial. Vencedora de mais de 500 torneios em sua carreira nos anos 60, Maria Esther é definida no anuário da Federação Internacional de Tênis como a "mais elegante e artística campeã do pós-guerra". Entre os homens, o Brasil também teve bons talentos. O gaúcho Thomas Koch reinou nos anos 70. Ao lado de Edison Mandarino, outro gaúcho, levou o Brasil a duas semifinais da Copa Davis, a grande competição em sua época. Koch chegou ao 24º lugar no ranking mundial, a melhor colocação de um brasileiro antes de Guga. Maria Esther Bueno e Thomas Koch reinaram numa época em que o tênis era muito menos conhecido no Brasil e não distribuía prêmios milionários ao redor do mundo como hoje. Com Guga, a expectativa é diferente. A aposta é que Roland Garros seja apenas o começo de uma nova geração de campeões nas quadras brasileiras.

Com reportagens de Fernando Valeika de Barros, de
Paris, e
Vitor Hugo Louzado, de Florianópolis

Arrebentando o jogo

O recorde de velocidade no tênis pertence ao australiano Mark Philippoussis. No início deste ano, ele desferiu um petardo que lançou a bolinha a 220 quilômetros por hora. A viagem da bola entre sua raquete e o ponto em que estava o adversário demorou quatro décimos de segundo. No tênis, um ponto de saque feito nessas circunstâncias é chamado de ace -- a bola passa tão rápido que o adversário não consegue tocá-la. "Para mandar a bola a 220 quilômetros por hora, o jogador tem de imprimir uma velocidade de 100 quilômetros por hora na raquete", calcula Giorgio Moscatti, professor de física da Universidade de São Paulo. Isso significa que, se em vez de bater na bola o tenista atirasse a raquete para o alto, teria impulso suficiente para lançá-la a 40 metros de distância.

Velocidades tão altas no saque têm garantido muitas vitórias, mas tornam o tênis mais enfadonho. A troca de bolas entre os jogadores durante a partida é cada vez menor. Na final de Wimbledon em 1991, entre os alemães Michael Stich e Boris Becker, houve apenas dez minutos de bola em jogo numa partida que durou duas horas e 31 minutos. Com jogadas tão velozes e tantos intervalos é quase impossível acompanhar um jogo pela televisão -- o que se torna um obstáculo adicional à popularização do esporte. Há vinte anos era diferente. O saque do americano Roscoe Tanner, famoso nos anos 70 por sua força, atingia meros 130 quilômetros por hora. Em compensação, havia mais jogo e emoção.

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