Climatologista americano
não vê motivos para temer
o aquecimento global e diz que é inútil tentar
reduzir
as emissões de gases do efeito estufa
Diogo Schelp
Gilberto Tadday
"Basta olhar pela janela
e comparar a realidade com a previsão do
tempo feita dias atrás. Se erros
são comuns no curto prazo,
imagine em períodos longos"
O
climatologista Patrick Michaels, da Universidade de Virgínia,
nos Estados Unidos, é o mais conhecido entre os chamados
céticos do aquecimento global. A qualificação
é paradoxal, pois ele colaborou com o Painel Intergovernamental
sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e não
contesta os princípios científicos que sustentam
a advertência, feita pela conferência da ONU, sobre
o aumento nas emissões de gases do efeito estufa. A diferença
é que, ao contrário do IPCC, ele não vê
nada de catastrófico nas mudanças climáticas.
Pesquisador do Instituto Cato, em Washington, Michaels dedica-se
a palestras e a escrever artigos contra o que considera uma
visão apocalíptica da climatologia. Ele argumenta
que o fato de suas pesquisas contarem com o apoio de indústrias
de energia reforça a credibilidade de seus artigos, pois
faz com que sejam examinados com maior rigor por seus críticos.
O cientista, que recentemente participou do seminário
internacional "Aquecimento global O dilema político
e econômico", promovido pelo Centro de Liderança
Pública (CLP) e pelo Ibmec, em São Paulo, concedeu
a seguinte entrevista a VEJA.
Veja Empresas
de energia ajudam a financiar seus estudos sobre o aquecimento
global. Isso não afeta a credibilidade de seu trabalho? Michaels Ao contrário,
reforça. Como a contribuição do setor energético
é de conhecimento público, os críticos
dedicam vigor especial à busca de erros em minhas pesquisas.
Todo artigo que publico é revisado minuciosamente por
especialistas. Para sobreviverem a tal escrutínio, meus
argumentos precisam ser bastante sólidos.
Veja O senhor
concorda com a afirmação de que a temperatura
global está aumentando? Michaels Sim.
Veja O senhor
concorda que isso ocorre devido à ação
humana? Michaels Sim,
é correta a tese de que a temperatura na superfície
terrestre aumenta devido à crescente emissão de
gás carbônico. Mudanças na concentração
desse gás fazem com que a temperatura fique mais alta
na superfície, enquanto a estratosfera esfria. Ocorreram
dois períodos recentes de aquecimento do ar na superfície
terrestre. O primeiro foi no início do século
XX, entre 1910 e 1945, e o último começou nos
anos 70 e dura até hoje. O aquecimento da primeira metade
do século passado provavelmente pouco teve a ver com
a eventual influência humana na composição
da atmosfera. Esteve muito mais relacionado ao aumento da temperatura
do Sol. Já o segundo período parece estar muito
mais vinculado ao fator humano e ao aumento do nível
de gás carbônico na atmosfera.
Veja Qual
desses períodos foi mais quente? Michaels As magnitudes
do primeiro e do segundo período de aquecimento global
mal podem ser diferenciadas estatisticamente, pois são
muito semelhantes. De qualquer forma, o atual período
é 0,8 grau mais quente que o anterior. Praticamente metade
desse aumento de temperatura tem como causa mudanças
nas concentrações de dióxido de carbono
no ar, que se elevaram muito no segundo período.
Veja Suas
opiniões parecem moderadas para quem é considerado
o mais influente cético em relação ao aquecimento
global. Afinal, em que pontos o senhor discorda das teses apresentadas
nos relatórios do IPCC? Michaels Não
há discordâncias relevantes entre minha opinião
e os dados do IPCC. Eu mesmo contribuí com análises
de pesquisas que foram utilizadas pelo IPCC. Considero, no entanto,
que algumas previsões são exageradas. Quando aplicamos
a taxa atual de elevação de temperatura em modelos
de computador, chegamos à conclusão de que o aquecimento
no século XXI não será maior do que a previsão
mais otimista do IPCC. Ou seja, por volta do ano 2100 a temperatura
global estará apenas 1,7 grau acima da atual. Digo isso
porque a taxa de aquecimento tem sido notavelmente constante.
O aumento na temperatura é proporcional à concentração
de gás carbônico e ao impacto desse gás
no efeito estufa. Esses fatores indicam uma tendência
de aquecimento constante, mas não crescente. Outra ressalva
diz respeito à maneira como as previsões climáticas
são feitas. Apesar de serem baseadas nas análises
e nos métodos mais modernos que existem, é preciso
cautela. Basta olhar pela janela e comparar a realidade com
a previsão do tempo divulgada dias atrás. Se os
erros são tão freqüentes no curto prazo,
imagine quanto se pode errar em um período mais longo.
Veja O senhor
considera irrelevante o aumento de 1,7 grau na temperatura até
o fim do século? Michaels Há
grande chance de essa previsão nem sequer se concretizar.
A tecnologia que usaremos daqui a 100 anos nas indústrias,
nos automóveis e nas usinas geradoras de eletricidade
será provavelmente mais eficiente em termos de emissão
de gás carbônico do que a atual. Infelizmente,
não posso precisar como serão as novas tecnologias,
mas a história da evolução tecnológica
é um guia do avanço que pode ocorrer. Por essa
razão, nossa previsão sobre o aumento na emissão
de gás carbônico é bastante questionável.
Não há como saber se os índices atuais
de poluição serão mantidos no fim do século
XXI.
Veja Quais
seriam as conseqüências do aumento de 1,7 grau na
temperatura média global? Michaels Há
grande variedade de opiniões. Alguns economistas pensam
que um aquecimento modesto seria benéfico. As visões
apocalípticas da mudança climática estão
associadas à idéia, com pouco embasamento científico,
de que a Groenlândia está perdendo sua camada de
gelo. Muitos estudos comprovam que, entre as décadas
de 50 e 60, as temperaturas naquela região foram, em
média, mais altas do que na última década.
Veja Que
benefício pode existir no aquecimento global? Michaels O clima
não é apenas aquilo que se mede no termômetro,
mas uma combinação de temperatura e umidade. Em
locais com a devida umidade, quanto maior a temperatura da superfície,
maior é a quantidade de seres vivos. Os trópicos
são o exemplo. Essa é uma das vantagens do aquecimento.
Outra diz respeito às taxas de mortalidade, que são
mais altas no inverno do que no verão. Se, com o aquecimento,
tivermos invernos mais curtos, o número de mortes também
diminuirá. Quando a temperatura sobe de forma drástica,
como ocorreu durante as ondas de calor na Europa, algumas pessoas
morrem por não estar preparadas para mudanças
climáticas bruscas. O calor será menos nocivo
se a temperatura aumentar gradualmente.
Veja Uma
prova do perigo do aquecimento global citada com freqüência
são seus efeitos sobre os ursos-polares. Com a diminuição
da área congelada no Ártico, a espécie
enfrenta maior dificuldade para encontrar alimento. O número
de ursos-polares já está diminuindo... Michaels Pesquisas
do governo canadense revelam que, na realidade, o número
de ursos-polares é alto.
Veja Outra
conseqüência incontestada no meio científico
é a elevação do nível do mar. Isso
não é um problema? Michaels Devido
a fatores geológicos, não climáticos, nos
últimos 100 anos o nível do mar subiu quase 30
centímetros na costa leste dos Estados Unidos. Poucas
pessoas perceberam, pois os moradores da costa se adaptaram
perfeitamente ao novo nível.
Veja As
geleiras dos Andes estão diminuindo. Como ficariam as
populações andinas se elas desaparecessem? Michaels Quando
o gelo das montanhas se derrete, como está ocorrendo
nos Andes, pode-se tentar represá-lo. Dizem que, devido
ao risco de terremotos, é perigoso construir barragens
para captar a água do degelo nos Andes. Mas esse tipo
de represamento existe na Califórnia, que também
é uma região de atividade sísmica intensa.
Sugerir que os sul-americanos não conseguiriam se adaptar
a tal situação é falta de respeito para
com esses povos.
Veja Se
o senhor estiver correto e o aquecimento global não for
uma ameaça para a humanidade, isso significa que é
desnecessário reduzir as emissões de dióxido
de carbono e de outros gases do efeito estufa? Michaels É
extremamente imprudente gastar dinheiro para tentar reduzir
as emissões de gás carbônico. O custo para
chegar a isso seria muito alto. Esse capital poderia ser mais
bem investido em pesquisa e desenvolvimento de novas fontes
de energia. Um exemplo: a resposta política do governo
americano ao aquecimento global foi uma lei, aprovada em 2005,
que exige a substituição de certa quantidade de
gasolina por etanol. Nos Estados Unidos, existe apenas uma matéria-prima
capaz de produzir grande quantidade desse combustível,
que é o milho. A demanda foi tamanha que, no ano passado,
os Estados Unidos dedicaram a esse fim 33% da colheita de milho.
A colheita americana representa 54% da produção
mundial. Em outras palavras, 15% de todo o milho do planeta
foi desviado para a produção de combustível.
Como conseqüência, o preço do milho, da soja
e do trigo subiu dramaticamente. Hoje se vêem em vários
países protestos contra o preço abusivo dos alimentos.
O caso do etanol americano foi o resultado de uma intervenção
política irracional.
Veja Outras
tentativas de reduzir as emissões também devem
ser abandonadas? Michaels É
impossível reduzir drasticamente as emissões e
ainda dispor de recursos para investir em novas fontes de energia.
Não existe uma alternativa que seja ao mesmo tempo tecnológica
e politicamente viável. O fracasso do Protocolo de Kioto
é um exemplo dessa incapacidade. Se todos os países
fizessem o que prometeram ao assinar esse documento, a temperatura
deixaria de subir 0,7 grau em cinqüenta anos. O primeiro
problema é que se trata de uma variação
pequena demais para ser medida. O segundo é que o custo
para chegar a isso seria muito alto e provavelmente ineficaz.
Um exemplo: nos Estados Unidos, a gasolina atualmente custa
cerca de 1 dólar o litro. Pensava-se, há alguns
anos, que a elevação do preço em 25 centavos
seria suficiente para atingir o objetivo do Protocolo de Kioto
no que diz respeito às emissões automotivas. O
preço está onde está devido à alta
do barril de petróleo e o consumo de combustível
praticamente não mudou. A questão é saber
até que ponto é preciso encarecer a energia para
que as emissões caiam pela metade. Muito melhor seria
investir em tecnologia agora para que, daqui a 100 anos, estejamos
em um patamar tão avançado que torne possível
encontrar uma solução técnica para o aquecimento.
Difícil será incentivar as pesquisas tecnológicas
se a economia for arruinada pelas tentativas de tentar frear
agora o aquecimento global. Essa saída é contraprodutiva.
Veja Grande
parte da pressão para que o Brasil barre a destruição
da Amazônia está ligada ao temor de que o desmatamento
contribua para o aquecimento global. Em sua opinião,
essa é a razão correta para proteger a floresta? Michaels Não.
A verdadeira razão, nesse caso, é o valor intrínseco
da floresta. Os números mostram que o desmatamento não
é o grande culpado pelo aumento do aquecimento global,
se comparado com a queima de combustíveis fósseis.
Tentar justificar a preservação com o argumento
do aquecimento global é uma mentira. Acredito que a preservação
das áreas silvestres é uma decisão social
e econômica que as pessoas nos países em desenvolvimento
precisam tomar.
Veja Os
países emergentes argumentam que não é
justo terem de reduzir suas emissões de poluentes porque
os países ricos, para chegar ao patamar em que estão,
poluíram muito mais. O senhor concorda? Michaels É
um argumento falso. Os países pobres podem até
afirmar que sua emissão de poluentes per capita é
bem menor que a dos países ricos. Se o cálculo
for feito em proporção ao PIB de cada país,
no entanto, chegaremos à conclusão de que poluem
muito. Essa é a maneira correta de analisar o assunto.
Veja Por
que tantos cientistas respeitados corroboram a idéia
de que é preciso reduzir as emissões de gases
do efeito estufa quanto antes? Michaels Não
acredito que muitos cientistas defendam essa posição.
Veja Como
o senhor vê as posições sobre o aquecimento
dos dois candidatos à Presidência dos Estados Unidos? Michaels Os discursos
de Barack Obama e John McCain são indistinguíveis.
Tudo indica que, se o atual presidente dificilmente vai aprovar
qualquer lei que restrinja as emissões de dióxido
de carbono, é quase certo que o próximo vai fazê-lo.
Infelizmente.