Edição 1806 . 11 de junho de 2003

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PONTO DE VISTA: Luiz Felipe de Alencastro
O antiimperialismo americano

"No fim do século XIX, quando emergiu o
imperialismo americano, Estado e religião
estavam separados e o espírito crítico se
expandia na liberdade constitucional de
pensamento. Assim, irromperam as críticas
antiimperialistas dos pacifistas americanos"

Um dos trunfos – talvez o mais decisivo – da cultura ocidental é a prática do espírito crítico. Desde os descobrimentos ibéricos, no contexto da doutrina cristã que servia de esteio ao morticínio dos "infiéis" (os muçulmanos) e ao cativeiro dos "pagãos" (todos os outros), expressavam-se cristãos que viam o colonialismo como uma negação do próprio cristianismo. O dominicano espanhol Las Casas denunciou os crimes contra os índios, e o português Fernão Mendes Pinto escreveu Peregrinação (1578). No contrapé de Os Lusíadas (1572), Peregrinação descreve o lado patético das conquistas portuguesas na Ásia. Machado de Assis brindava os leitores de suas crônicas cariocas com simulações de um novo capítulo de Peregrinação, e Gilberto Freyre escreveu um fino ensaio sobre Fernão Mendes Pinto. Mas o autor, um dos mais notáveis da Europa, continua quase desconhecido nas nossas universidades, por artes de um ensino provinciano que restringe a literatura e a história portuguesa ao destino e ao território brasileiro.

No fim do século XIX, quando emergiu o imperialismo americano, Estado e religião estavam separados e o espírito crítico se expandia na liberdade constitucional de pensamento. Assim, irromperam as críticas antiimperialistas dos pacifistas americanos. Na Biblioteca do Congresso, em Washington, o primeiro impresso intitulado American Imperialism está datado de 1899. Trata-se de uma denúncia do expansionismo ianque redigida pelo pastor protestante George Herron Davis. O alvo de Davis era a ocupação americana nas Filipinas, também criticada pelo escritor Mark Twain, dirigente da Anti-Imperialist League, criada em protesto à anexação das ex-colônias espanholas pelos Estados Unidos após a guerra hispano-americana (1898). A matriz desse pensamento antiimperialista sustenta que a guerra colonial gera mais violência: o colonialismo corrompe os colonizados e os colonizadores. Idéia embutida num romance célebre de Joseph Conrad, O Coração das Trevas (1902), sobre os belgas no Congo, e retomada nos EUA pelo movimento contra a guerra no Vietnã. Não é à toa que o livro de Conrad serve de base para o filme de Francis Ford Coppola Apocalypse Now. Obviamente, os antiimperialistas não se opuseram, nem se opõem no presente, às guerras em que os EUA se engajaram em resposta a uma agressão externa. Essa também é a norma do direito internacional e, depois do 11 de setembro, houve apoio unânime do Conselho de Segurança da ONU à intervenção militar no Afeganistão. O ponto crítico da invasão do Iraque resulta de que a guerra foi declarada à revelia da ONU, sob o argumento da presença, e do uso iminente, de armas de destruição maciça (ADMs). Passadas várias semanas de ocupação militar americana e inglesa, ainda não apareceram provas convincentes da existência de ADMs, e Washington começa a minimizar os fatos. Num tom duro, um editorial do jornal francês Le Monde (29 de maio) afirma: "Trata-se, sem dúvida, da maior mentira de Estado destes últimos anos. De uma campanha de manipulação conduzida provavelmente em pleno conhecimento de causa, em todo caso, contra todas as indicações contrárias, para fazer a opinião pública mundial acreditar que o Iraque detinha e fabricava armas de destruição maciça". Na Inglaterra, aumenta o número de parlamentares que pedem a abertura de um inquérito para apurar a "mentira de Estado". O ministro trabalhista Robin Cook, que pediu demissão em protesto contra a guerra, é categórico sobre a inexatidão das afirmações de Tony Blair: "Ele disse que havia armas [de destruição maciça] que poderiam ser usadas em 45 minutos. Não há tais armas". Num outro contexto, Mark Twain, uma das mais altas figuras do antiimperialismo americano, escreveu: "A verdadeira cidadania consiste em proteger a bandeira da desonra, consiste em fazer dela o emblema de uma nação que é conhecida perante todas as outras nações como verdadeira, honesta e honrada. E nós deveríamos esquecer para sempre a velha frase 'Certo ou errado, é o meu país!'".


Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris ­ Sorbonne (abomey@uol.com.br)

 
 
 
 
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