Edição 1806 . 11 de junho de 2003

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CINEMA
Tudo original

O Homem que Copiava, do gaúcho
Jorge Furtado,
é um filme que não
se parece com nenhum outro


Isabela Boscov

 
Fotos divulgação

Lázaro Ramos, como André: dinheiro para queimar, mas não para gastar


Trailer do filme
Galeria de imagens

Todo dia é tudo sempre igual: stop e start para fazer a fotocopiadora funcionar, encher a bandeja de papel, soltar bem o papel antes para que ele não grude. De noite, desenhar no quarto enquanto a mãe vê televisão, esperar ela arrastar os chinelos até o quarto. Espiar a vizinha do apartamento em frente. Salário de 310 reais por mês, ou 290 depois dos descontos. É disso, em resumo, que consiste a rotina de André, o protagonista do fabuloso O Homem que Copiava (Brasil, 2003), que estréia nesta sexta-feira no país. O problema dos resumos é que eles deixam de fora o melhor – por exemplo, a imensa vida interior de André (Lázaro Ramos, de Madame Satã). Ou tudo que há de informação e surpresa nas duas cenas que abrem o filme: na primeira, André tenta fazer compras no supermercado com os 11,50 reais que tem no bolso. Na seguinte, ainda carregando as compras, ele acende uma fogueira – de dinheiro. Se há uma coisa que o diretor gaúcho Jorge Furtado sabe fazer é ganhar a atenção da platéia. E o faz com um cinema sem truques nem vícios, apoiado na substância de sua história e na forma inovadora como ele a pensa e conta.

André tem 19 anos, tira xerox numa papelaria de Porto Alegre e ama Silvia (Leandra Leal), a vizinha da frente, que trabalha numa loja de roupas e mora com o pai. Pelo binóculo, André montou um panorama do quarto de Silvia – na verdade, uma colagem mental, feita com base nas imagens que vê no espelho da menina. Tudo na vida de André segue esse princípio. Enquanto trabalha, ele lê fragmentos dos textos que está copiando e monta essas informações em sua cabeça das formas mais inusitadas. Cada situação que vive se repete, mas num outro contexto. E cada uma das poucas frases que diz é acompanhada, na sua narração, de uma torrente de pensamentos. Furtado extrai muito humor desses descompassos, como na cena em que André, para se aproximar de Silvia, finge escolher um robe para sua mãe. O preço da roupa – 38 reais, que ele não tem – vai se tornar um motor na vida do rapaz e dos outros três personagens: além de Silvia, Marinês (Luana Piovani), que trabalha na papelaria com André, e Cardoso (Pedro Cardoso), que está doido para faturar Marinês.

 

Cardoso, com Luana: louco para ganhá-la. E quem não estaria?

A cada cena, essa história se complica. E, a cada passo, Furtado aumenta o escopo de seu filme. Aqui, aquela noção surrada de que as pessoas vivem uma vida que não é vida ganha um mundo de significado, e personagens que a ficção costuma tratar como fachadas se tornam imensos. O diretor tem a seu favor uma felicíssima escolha de elenco, a começar por Ramos e Leandra, ambos excelentes. Mas o fator essencial na qualidade do filme não é outro que não o próprio Furtado. Aos 44 anos, ele é um documentarista premiado e tem uma longa carreira na televisão, para a qual roteirizou programas como Agosto, A Comédia da Vida Privada, Brava Gente e Cidade dos Homens. Ele faz parte, assim, de uma corrente que já não sem tempo se consolida no país, a dos cineastas que conhecem a importância absolutamente central do roteiro. Furtado trabalhou em O Homem que Copiava durante cerca de cinco anos. No primeiro deles, diz, não fez mais do que escrever a narração que guia o filme, inspirada na de clássicos modernos como O Apanhador no Campo de Centeio, Complexo de Portnoy e Matadouro 5. O diretor não tem nenhum pudor em desfiar essas e dezenas de outras referências deliberadamente incluídas na história. Nem deveria. Ele parte de uma colagem, mas chega a um original: um filme que não se parece em nada com nenhum outro.

 
 
 
 
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