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CINEMA
Tudo original
O
Homem que Copiava, do gaúcho
Jorge Furtado, é
um filme que não
se parece com nenhum outro

Isabela
Boscov
Fotos divulgação
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Lázaro
Ramos, como André: dinheiro para queimar, mas não
para gastar
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Todo
dia é tudo sempre igual: stop e start para fazer a fotocopiadora
funcionar, encher a bandeja de papel, soltar bem o papel antes para
que ele não grude. De noite, desenhar no quarto enquanto
a mãe vê televisão, esperar ela arrastar os
chinelos até o quarto. Espiar a vizinha do apartamento em
frente. Salário de 310 reais por mês, ou 290 depois
dos descontos. É disso, em resumo, que consiste a rotina
de André, o protagonista do fabuloso O Homem que Copiava
(Brasil, 2003), que estréia nesta sexta-feira no país.
O problema dos resumos é que eles deixam de fora o melhor
por exemplo, a imensa vida interior de André (Lázaro
Ramos, de Madame Satã). Ou tudo que há de informação
e surpresa nas duas cenas que abrem o filme: na primeira, André
tenta fazer compras no supermercado com os 11,50 reais que tem no
bolso. Na seguinte, ainda carregando as compras, ele acende uma
fogueira de dinheiro. Se há uma coisa que o diretor
gaúcho Jorge Furtado sabe fazer é ganhar a atenção
da platéia. E o faz com um cinema sem truques nem vícios,
apoiado na substância de sua história e na forma inovadora
como ele a pensa e conta.
André
tem 19 anos, tira xerox numa papelaria de Porto Alegre e ama Silvia
(Leandra Leal), a vizinha da frente, que trabalha numa loja de roupas
e mora com o pai. Pelo binóculo, André montou um panorama
do quarto de Silvia na verdade, uma colagem mental, feita
com base nas imagens que vê no espelho da menina. Tudo na
vida de André segue esse princípio. Enquanto trabalha,
ele lê fragmentos dos textos que está copiando e monta
essas informações em sua cabeça das formas
mais inusitadas. Cada situação que vive se repete,
mas num outro contexto. E cada uma das poucas frases que diz é
acompanhada, na sua narração, de uma torrente de pensamentos.
Furtado extrai muito humor desses descompassos, como na cena em
que André, para se aproximar de Silvia, finge escolher um
robe para sua mãe. O preço da roupa 38 reais,
que ele não tem vai se tornar um motor na vida do
rapaz e dos outros três personagens: além de Silvia,
Marinês (Luana Piovani), que trabalha na papelaria com André,
e Cardoso (Pedro Cardoso), que está doido para faturar Marinês.
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Cardoso,
com Luana: louco para ganhá-la. E quem não estaria?
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A cada
cena, essa história se complica. E, a cada passo, Furtado
aumenta o escopo de seu filme. Aqui, aquela noção
surrada de que as pessoas vivem uma vida que não é
vida ganha um mundo de significado, e personagens que a ficção
costuma tratar como fachadas se tornam imensos. O diretor tem a
seu favor uma felicíssima escolha de elenco, a começar
por Ramos e Leandra, ambos excelentes. Mas o fator essencial na
qualidade do filme não é outro que não o próprio
Furtado. Aos 44 anos, ele é um documentarista premiado e
tem uma longa carreira na televisão, para a qual roteirizou
programas como Agosto, A Comédia da Vida Privada, Brava
Gente e Cidade dos Homens. Ele faz parte, assim, de uma
corrente que já não sem tempo se consolida no país,
a dos cineastas que conhecem a importância absolutamente central
do roteiro. Furtado trabalhou em O Homem que Copiava durante
cerca de cinco anos. No primeiro deles, diz, não fez mais
do que escrever a narração que guia o filme, inspirada
na de clássicos modernos como O Apanhador no Campo de
Centeio, Complexo de Portnoy e Matadouro 5. O diretor
não tem nenhum pudor em desfiar essas e dezenas de outras
referências deliberadamente incluídas na história.
Nem deveria. Ele parte de uma colagem, mas chega a um original:
um filme que não se parece em nada com nenhum outro.
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