Edição 1806 . 11 de junho de 2003

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TELEVISÃO
Sangue, lágrimas
e escândalo

Foi-se o tempo em que a TV
exibia atrações leves do final
da tarde ao início da noite


Ricardo Valladares


Claudio Rossi
Hora da Verdade
BANDEIRANTES
De segunda a sexta, das 16h às 17h50
Pior momento:
três participantes de um quadro do programa (veja foto abaixo, à dir.) afirmam que a história que contaram no ar era falsa e havia sido armada pela produção.


Claudio Rossi
Neide, Anderson e Maria do Carmo: ele teria representado o papel de impotente


Até pouco tempo atrás, o fim da tarde e o começo da noite na televisão eram marcados por uma programação leve: filmes de adolescentes, desenhos animados e programas palatáveis para donas-de-casa. Nos últimos três anos, a situação mudou. Essa faixa de horário se converteu num bolsão de mau gosto. Emboladas na disputa pelo segundo lugar de audiência, as emissoras Record, Bandeirantes e Rede TV! são as principais responsáveis pelo fenômeno. Elas preenchem a faixa que se estende, grosso modo, das 16 horas às 19h30, com três tipos de atração: jornalísticos sensacionalistas, programas de pegadinhas e shows que dissecam, em público, crises familiares, traumas sexuais e outros "dramas humanos". Na última quarta-feira, no aniversário de dois anos do programa Hora da Verdade, da Bandeirantes, uma irmã contava à outra que a estava traindo com seu namorado. Na mesma hora, o Repórter Cidadão, da Rede TV!, exibia de maneira apelativa a imagem de uma criança de 8 anos que vendia seu próprio tênis num semáforo "para levar comida para casa". Eventualmente, até a Rede Globo contribui para o festival de mau gosto com seqüências para lá de picantes na novela Kubanacan.

Há uma explicação para esse quadro, embora ela esteja longe de funcionar como justificativa moral. O custo da televisão aumentou muito nos últimos anos – tanto pelo investimento em equipamentos quanto pelos altos salários de alguns apresentadores. O mercado publicitário, por outro lado, manteve sua configuração: quase 60% das verbas vão para a Globo, 15% ficam com o SBT e o restante é disputado pelas demais emissoras. Estas últimas vêem-se, assim, obrigadas a brigar pela porção composta principalmente de anúncios baratos. Ou seja, o merchandising, dentro dos programas, de ungüento para calos, creme para alisamento de cabelos, serviços de financiamento de carros usados e outras coisas que tais. As atrações do final da tarde são os hospedeiros naturais para esse tipo de anúncio, até pelo perfil do público que está diante da TV no horário, formado sobretudo por espectadores das classes C, D e E. Para atrair mais facilmente essas pessoas, as emissoras lançam mão da mesma fórmula utilizada pelas estações de rádio AM: a exploração dos "dramas humanos" e equivalentes. Por último, garantir uma audiência gorda entre o final da tarde e o início da noite não é apenas bom em si: é bom também porque, por efeito de inércia, serve para alavancar a audiência noturna, horário em que estão os nacos mais gordos de publicidade.


Claudio Rossi
Repórter Cidadão
REDE TV!

De segunda a sábado, das 16h20 às 17h50
Piores momentos:
o jornal sensacionalista da Rede TV! mostrou recentemente um bandido que ameaçava se matar com uma arma encostada no pescoço. Explorou a história de uma criança de 5 anos que cuidava sozinha da casa porque a mãe era doente. Repetiu diversas vezes cenas de um pit bull matando outro cão.

Um dos maiores problemas da baixaria entre as 16 horas e as 19h30 é a alta probabilidade de que crianças acompanhem os programas sem que nenhum adulto possa controlar o que estão vendo, ao contrário do que acontece em outros horários que também não primam pelo bom gosto – como as tardes de domingo, ou as noites do SBT com o famigerado Programa do Ratinho, um precursor do estilo bagaceiro. Segundo dados do Ibope, 15% da audiência nessa faixa de horário, na Grande São Paulo, é formada por crianças. A boa notícia é que alguns canais reconhecem ter passado dos limites nos últimos tempos e prometem – ao menos prometem – providenciar ajustes.


Ed Viggiani
Cidade Alerta
RECORD

De segunda a sábado, das 17h45 às 19h35
Pior momento:
o programa cobriu o suicídio de um policial militar e só congelou a imagem no instante em que ele disparava contra a própria cabeça.

Tanto a direção de jornalismo da Rede Record quanto a da Rede TV! resolveram pedir desculpas por cenas que exibiram recentemente em seus respectivos programas policiais, o Cidade Alerta e o Repórter Cidadão. O primeiro acompanhou, há pouco mais de um mês, a tragédia de um policial militar que se matou com um tiro. Só não mostrou o disparo: a imagem foi congelada um segundo antes de ele acontecer. "Aquelas imagens não deveriam nunca ter ido ao ar. Foi falha de um editor do programa, mas eu também assumo responsabilidade por ela", diz Luiz Gonzaga Mineiro, diretor de jornalismo da Record. Dias mais tarde, o Repórter Cidadão, da Rede TV!, exibiu material semelhante: um assaltante que apontava um revólver para o próprio pescoço e ameaçava matar-se diante da polícia. A transmissão não foi ao vivo. Ao comentar as imagens, o apresentador Marcelo Rezende bradava: "Se o bandido tivesse puxado o gatilho, eu mostraria. Temos mais é que acabar com essa hipocrisia". Segundo José Emílio Ambrósio, diretor de jornalismo da Rede TV!, a emissora deveria ter tratado o assunto de maneira menos sensacionalista. "O Rezende também não poderia ter falado daquela maneira, e naquele tom", diz ele.

Rede Record/divulgação
Verdade do Povo
RECORD
De segunda a sexta, das 16h às 17h45
Pior momento:
no ar há duas semanas, o programa mostrou um homem que trabalha vestido de empregada doméstica. Esse personagem bizarro já havia sido apresentado no Hora da Verdade.


Se o sensacionalismo e a banalização da violência são o problema dos programas jornalísticos, a exploração da miséria alheia e a exibição de histórias forjadas comprometem o Canal Aberto, de João Kleber, na Rede TV!, e o Hora da Verdade, apresentado por Márcia Goldschmidt na Bandeirantes. O Canal Aberto é um programa de pegadinhas suscetível a críticas em duas frentes: em primeiro lugar, por expor seus participantes a situações vexatórias. Em segundo, por enganar o espectador sugerindo que tudo o que ele está vendo é espontâneo, e não parte de uma combinação. "Todo mundo que aparece no vídeo sabe que está participando de uma brincadeira, ainda que às vezes não saiba exatamente o que vai acontecer. O problema é que nós nunca deixávamos isso claro, o que podia induzir o espectador a um erro. Por isso criamos legendas para não deixar nenhuma dúvida", diz Mônica Pimentel, nova diretora de programação da Rede TV!.

Um tipo semelhante de ficção parece ter ocorrido no Hora da Verdade, apesar de o lema do programa ser "Sem máscaras e sem rodeios, a vida como ela é". Ao menos um dos casos explorados por Márcia Goldschmidt seria armação, de acordo com declarações de seus próprios protagonistas. Há dois meses, a paulistana Neide (cujo nome real é Ivaneide Fernandes de Lima) procurou a produção de Márcia porque queria ajuda para reconciliar-se com a filha de 16 anos, com quem havia brigado. A história não interessou ao programa, mas seu nome foi anotado. Segundo a versão de Neide, poucos dias depois ela fazia as unhas com a manicure Maria do Carmo Pereira quando um produtor do Hora da Verdade entrou em contato com ela. Queria saber se Neide aceitaria participar de um quadro inventado e se conhecia algum rapaz com cerca de 20 anos que topasse contracenar com ela, no papel de namorado impotente. Sempre de acordo com Neide, ela aceitou a proposta do produtor e sua amiga manicure convenceu o filho Anderson Lima de Araújo, de 19 anos, a atuar no quadro. Salvo um pequeno tropeço – a certa altura, Neide chamou seu amado de "Emerson" –, tudo correu bem na apresentação. Os "namorados" haviam ensaiado nos bastidores e bateram boca por vinte minutos. Essa versão é apoiada por Anderson e Maria do Carmo, que também apareceu no programa. O Hora da Verdade tem 6 pontos de audiência em média. Com Neide e Anderson, conseguiu chegar a 10 pontos de pico. O sucesso gerou uma continuação: dias depois, o casal voltou ao ar para desmanchar a suposta relação. Segundo a apresentadora Márcia, seu programa não compra histórias forjadas. Apenas oferece a cada participante "um dinheirinho como ajuda de custo". Na primeira participação, Neide e Anderson receberam 50 reais. Na segunda, conseguiram aumentar o valor para 70 reais. "Eu estou desempregado e preciso de dinheiro para comprar fraldas para meu filho", diz Anderson, o suposto impotente. Neide ainda foi chamada uma terceira vez. A direção da Bandeirantes nega ter conhecimento de armações no programa que veicula e afirma que todos os participantes do Hora da Verdade assinam documentos atestando a veracidade das histórias que vão ao ar. "Se ficar evidente que a Bandeirantes foi vítima de uma fraude, tomaremos as providências legais cabíveis", diz o vice-presidente da emissora, Marcelo Parada.

Rede Globo/divulgação
Kubanacan, da Rede Globo: cenas picantes


Na tentativa de concorrer com o programa de Márcia, a Record retirou do limbo, na semana retrasada, o apresentador Wagner Montes e o pôs para apresentar o Verdade do Povo. A fórmula é a mesma da concorrência: muito choro e muita história triste, com música de suspense ou de velório ao fundo. Wagner Montes, para quem não lembra, foi um dos pioneiros na exploração dos "dramas humanos". No começo dos anos 80, ele trabalhava como repórter de O Povo na TV, do SBT. O programa foi pivô de um escândalo em 1982, ao exibir ao vivo a morte de um bebê de 9 meses ao som da música Ave Maria, de Gounod. Em sua nova temporada no ar, Wagner Montes já mostrou que não perdeu o fôlego. Ele grita muito, especialmente ao repetir um de seus slogans: "Este é um país de canalhas".

 
 
 
 
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