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TELEVISÃO
Sangue,
lágrimas
e escândalo
Foi-se
o tempo em que a TV
exibia atrações leves do final
da tarde ao início da noite

Ricardo
Valladares
Claudio Rossi
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Hora
da Verdade
BANDEIRANTES
De segunda a sexta, das 16h às 17h50
Pior momento: três participantes de um quadro do programa
(veja foto abaixo, à dir.) afirmam que a história
que contaram no ar era falsa e havia sido armada pela produção.
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Claudio Rossi
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| Neide,
Anderson e Maria do Carmo: ele teria representado o papel de
impotente |
Até pouco tempo atrás, o fim da tarde e o começo
da noite na televisão eram marcados por uma programação
leve: filmes de adolescentes, desenhos animados e programas palatáveis
para donas-de-casa. Nos últimos três anos, a situação
mudou. Essa faixa de horário se converteu num bolsão
de mau gosto. Emboladas na disputa pelo segundo lugar de audiência,
as emissoras Record, Bandeirantes e Rede TV! são as principais
responsáveis pelo fenômeno. Elas preenchem a faixa
que se estende, grosso modo, das 16 horas às 19h30, com três
tipos de atração: jornalísticos sensacionalistas,
programas de pegadinhas e shows que dissecam, em público,
crises familiares, traumas sexuais e outros "dramas humanos". Na
última quarta-feira, no aniversário de dois anos do
programa Hora da Verdade, da Bandeirantes, uma irmã
contava à outra que a estava traindo com seu namorado. Na
mesma hora, o Repórter Cidadão, da Rede TV!,
exibia de maneira apelativa a imagem de uma criança de 8
anos que vendia seu próprio tênis num semáforo
"para levar comida para casa". Eventualmente, até a Rede
Globo contribui para o festival de mau gosto com seqüências
para lá de picantes na novela Kubanacan.
Há
uma explicação para esse quadro, embora ela esteja
longe de funcionar como justificativa moral. O custo da televisão
aumentou muito nos últimos anos tanto pelo investimento
em equipamentos quanto pelos altos salários de alguns apresentadores.
O mercado publicitário, por outro lado, manteve sua configuração:
quase 60% das verbas vão para a Globo, 15% ficam com o SBT
e o restante é disputado pelas demais emissoras. Estas últimas
vêem-se, assim, obrigadas a brigar pela porção
composta principalmente de anúncios baratos. Ou seja, o merchandising,
dentro dos programas, de ungüento para calos, creme para alisamento
de cabelos, serviços de financiamento de carros usados e
outras coisas que tais. As atrações do final da tarde
são os hospedeiros naturais para esse tipo de anúncio,
até pelo perfil do público que está diante
da TV no horário, formado sobretudo por espectadores das
classes C, D e E. Para atrair mais facilmente essas pessoas, as
emissoras lançam mão da mesma fórmula utilizada
pelas estações de rádio AM: a exploração
dos "dramas humanos" e equivalentes. Por último, garantir
uma audiência gorda entre o final da tarde e o início
da noite não é apenas bom em si: é bom também
porque, por efeito de inércia, serve para alavancar a audiência
noturna, horário em que estão os nacos mais gordos
de publicidade.
Claudio Rossi
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Repórter
Cidadão
REDE TV!
De segunda a sábado, das 16h20 às 17h50
Piores momentos: o jornal sensacionalista da Rede TV! mostrou
recentemente um bandido que ameaçava se matar com uma
arma encostada no pescoço. Explorou a história
de uma criança de 5 anos que cuidava sozinha da casa
porque a mãe era doente. Repetiu diversas vezes cenas
de um pit bull matando outro cão. |
Um
dos maiores problemas da baixaria entre as 16 horas e as 19h30 é
a alta probabilidade de que crianças acompanhem os programas
sem que nenhum adulto possa controlar o que estão vendo,
ao contrário do que acontece em outros horários que
também não primam pelo bom gosto como as tardes
de domingo, ou as noites do SBT com o famigerado Programa do
Ratinho, um precursor do estilo bagaceiro. Segundo dados do
Ibope, 15% da audiência nessa faixa de horário, na
Grande São Paulo, é formada por crianças. A
boa notícia é que alguns canais reconhecem ter passado
dos limites nos últimos tempos e prometem ao menos
prometem providenciar ajustes.
Ed Viggiani
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Cidade
Alerta
RECORD
De segunda a sábado, das 17h45 às 19h35
Pior momento: o programa cobriu o suicídio de um
policial militar e só congelou a imagem no instante em
que ele disparava contra a própria cabeça. |
Tanto
a direção de jornalismo da Rede Record quanto a da
Rede TV! resolveram pedir desculpas por cenas que exibiram recentemente
em seus respectivos programas policiais, o Cidade Alerta e
o Repórter Cidadão. O primeiro acompanhou,
há pouco mais de um mês, a tragédia de um policial
militar que se matou com um tiro. Só não mostrou o
disparo: a imagem foi congelada um segundo antes de ele acontecer.
"Aquelas imagens não deveriam nunca ter ido ao ar. Foi falha
de um editor do programa, mas eu também assumo responsabilidade
por ela", diz Luiz Gonzaga Mineiro, diretor de jornalismo da Record.
Dias mais tarde, o Repórter Cidadão, da Rede
TV!, exibiu material semelhante: um assaltante que apontava um revólver
para o próprio pescoço e ameaçava matar-se
diante da polícia. A transmissão não foi ao
vivo. Ao comentar as imagens, o apresentador Marcelo Rezende bradava:
"Se o bandido tivesse puxado o gatilho, eu mostraria. Temos mais
é que acabar com essa hipocrisia". Segundo José Emílio
Ambrósio, diretor de jornalismo da Rede TV!, a emissora deveria
ter tratado o assunto de maneira menos sensacionalista. "O Rezende
também não poderia ter falado daquela maneira, e naquele
tom", diz ele.
Rede Record/divulgação
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Verdade
do Povo
RECORD
De segunda a sexta, das 16h às 17h45
Pior momento: no ar há duas semanas, o programa mostrou
um homem que trabalha vestido de empregada doméstica.
Esse personagem bizarro já havia sido apresentado no
Hora da Verdade. |
Se o sensacionalismo e a banalização da violência
são o problema dos programas jornalísticos, a exploração
da miséria alheia e a exibição de histórias
forjadas comprometem o Canal Aberto, de João Kleber,
na Rede TV!, e o Hora da Verdade, apresentado por Márcia
Goldschmidt na Bandeirantes. O Canal Aberto é um programa
de pegadinhas suscetível a críticas em duas frentes:
em primeiro lugar, por expor seus participantes a situações
vexatórias. Em segundo, por enganar o espectador sugerindo
que tudo o que ele está vendo é espontâneo,
e não parte de uma combinação. "Todo mundo
que aparece no vídeo sabe que está participando de
uma brincadeira, ainda que às vezes não saiba exatamente
o que vai acontecer. O problema é que nós nunca deixávamos
isso claro, o que podia induzir o espectador a um erro. Por isso
criamos legendas para não deixar nenhuma dúvida",
diz Mônica Pimentel, nova diretora de programação
da Rede TV!.
Um
tipo semelhante de ficção parece ter ocorrido no
Hora da Verdade, apesar de o lema do programa ser "Sem máscaras
e sem rodeios, a vida como ela é". Ao menos um dos casos
explorados por Márcia Goldschmidt seria armação,
de acordo com declarações de seus próprios
protagonistas. Há dois meses, a paulistana Neide (cujo nome
real é Ivaneide Fernandes de Lima) procurou a produção
de Márcia porque queria ajuda para reconciliar-se com a filha
de 16 anos, com quem havia brigado. A história não
interessou ao programa, mas seu nome foi anotado. Segundo a versão
de Neide, poucos dias depois ela fazia as unhas com a manicure Maria
do Carmo Pereira quando um produtor do Hora da Verdade entrou
em contato com ela. Queria saber se Neide aceitaria participar de
um quadro inventado e se conhecia algum rapaz com cerca de 20 anos
que topasse contracenar com ela, no papel de namorado impotente.
Sempre de acordo com Neide, ela aceitou a proposta do produtor e
sua amiga manicure convenceu o filho Anderson Lima de Araújo,
de 19 anos, a atuar no quadro. Salvo um pequeno tropeço
a certa altura, Neide chamou seu amado de "Emerson" , tudo
correu bem na apresentação. Os "namorados" haviam
ensaiado nos bastidores e bateram boca por vinte minutos. Essa versão
é apoiada por Anderson e Maria do Carmo, que também
apareceu no programa. O Hora da Verdade tem 6 pontos de audiência
em média. Com Neide e Anderson, conseguiu chegar a 10 pontos
de pico. O sucesso gerou uma continuação: dias depois,
o casal voltou ao ar para desmanchar a suposta relação.
Segundo a apresentadora Márcia, seu programa não compra
histórias forjadas. Apenas oferece a cada participante "um
dinheirinho como ajuda de custo". Na primeira participação,
Neide e Anderson receberam 50 reais. Na segunda, conseguiram aumentar
o valor para 70 reais. "Eu estou desempregado e preciso de dinheiro
para comprar fraldas para meu filho", diz Anderson, o suposto impotente.
Neide ainda foi chamada uma terceira vez. A direção
da Bandeirantes nega ter conhecimento de armações
no programa que veicula e afirma que todos os participantes do Hora
da Verdade assinam documentos atestando a veracidade das histórias
que vão ao ar. "Se ficar evidente que a Bandeirantes foi
vítima de uma fraude, tomaremos as providências legais
cabíveis", diz o vice-presidente da emissora, Marcelo Parada.
Rede Globo/divulgação
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| Kubanacan,
da Rede Globo: cenas picantes |
Na tentativa de concorrer com o programa de Márcia, a Record
retirou do limbo, na semana retrasada, o apresentador Wagner Montes
e o pôs para apresentar o Verdade do Povo. A fórmula
é a mesma da concorrência: muito choro e muita história
triste, com música de suspense ou de velório ao fundo.
Wagner Montes, para quem não lembra, foi um dos pioneiros
na exploração dos "dramas humanos". No começo
dos anos 80, ele trabalhava como repórter de O Povo na
TV, do SBT. O programa foi pivô de um escândalo
em 1982, ao exibir ao vivo a morte de um bebê de 9 meses ao
som da música Ave Maria, de Gounod. Em sua nova temporada
no ar, Wagner Montes já mostrou que não perdeu o fôlego.
Ele grita muito, especialmente ao repetir um de seus slogans: "Este
é um país de canalhas".
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