Edição 1806 . 11 de junho de 2003

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BELEZA
O triunfo da vaidade masculina

Você acha que homem que é homem
não passa creminho?
Está na hora,
meu amigo,
de rever seus conceitos


Anna Paula Buchalla

J. Miranda
Zirh, La Prairie e Nivea: xampu, loção pós-barba e gel de limpeza facial. Alguns dos novos produtos para homens passam dos 100 dólares


Homem que é homem usa hidratante para as mãos (e para o corpo, e para os pés), creme anti-rugas e, de vez em quando, até faz limpeza de pele. Plástica para tirar o papo ou dar uma esticada no rosto? Não é impossível que ele faça um dia, caso seja realmente necessário. Pois é, meu amigo, parafraseando aquele comercial de televisão, está na hora de você rever seus conceitos. Uma pesquisa feita pela empresa de consultoria 2B Brasil Research, com 400 homens, mostra que vai longe o tempo em que desleixo era sinônimo de masculinidade. Eles estão, sim, mais vaidosos. Deixaram de contentar-se com dar uma roubadinha no creme da mulher ou da namorada. Querem um lugar na pia do banheiro para seus próprios frascos, potes e bisnagas. Alguns homens, diz a pesquisa, chegam a gastar até 15% de seu salário com tratamentos de beleza.

A prova de que vaidade masculina se tornou muito mais do que um assunto para preencher páginas de revistas é que gigantes da indústria de cosméticos lançaram recentemente linhas inteiras só para eles. A alemã Nivea colocou no mercado cinco novos produtos para homens. O pacote Nivea for Men inclui esfoliante facial, gel de limpeza, uma espuma para barba cerrada e outra para refrescar a pele, além de loção pós-barba para diferentes tipos de epiderme. A luxuosa marca suíça La Prairie vende agora uma espécie de calmante da pele para depois da barba, um hidratante com ação antioxidante (de 135 dólares), um gel para o contorno dos olhos (para combater rugas e olheiras), um gel bronzeador e uma loção para o corpo. A linha da americana Zirh tem até um corretor para disfarçar marcas no rosto e um fortificante para folículos capilares. Dá para imaginar hordas masculinas adentrando farmácias e perfumarias para comprar esses troços? Não? Pois os executivos da indústria de cosméticos reviram seus conceitos e contam com isso. Eles projetam um crescimento de 15% ao ano do mercado de cosméticos masculinos, contra apenas 3% do de produtos femininos.

Vaidade, é bom que se esclareça, nunca foi uma prerrogativa feminina. Mas os homens costumavam expressá-la de uma forma que excluía a preocupação cotidiana com a pele ou com os cabelos. Era um impulso que, delimitado por rígidos códigos sociais, os levava apenas a comprar uma gravata bonita, um terno bem cortado ou um relógio vistoso. Quando esses códigos se afrouxaram um pouco, eles puderam buscar também, sem que isso fosse motivo de vergonha, músculos mais bem delineados. A adesão à cosmética é a quebra do último tabu que restava à plena manifestação da vaidade masculina.

Foi um moralista francês elevado ao panteão da glória literária, Jean de La Fontaine, que escreveu que não se deve julgar os outros pelas aparências. Foi um homossexual irlandês que chafurdou na lama da condenação moralista, Oscar Wilde, que disse que só os tolos não julgam pelas aparências. O dado curioso é que o mundo do trabalho formal hoje pende mais para a ironia de Wilde do que para a máxima de La Fontaine. A aparência soma vários pontos a favor na hora de selecionar profissionais. O pressuposto é o de que o funcionário também compõe a imagem pública de uma empresa. Esse fato de ordem concretíssima colaborou bastante para que os homens deixassem de ter receio de usar produtos de beleza.

Existe, ainda, uma outra causa, esta de ordem eminentemente cultural: a disseminação da cultura gay. Por mais paradoxal que possa parecer, foram os gays que ensinaram o caminho das pedras aos homens heterossexuais. Eles foram os primeiros a lançar mão com regularidade de produtos cosméticos. Também foram eles os grandes impulsionadores da diversificação da moda masculina, que até pouco tempo atrás era um tanto monótona. Na essência do modo de vida gay está a preocupação com o belo, com a juventude (Oscar Wilde, Oscar Wilde...). Porque o preconceito em relação aos homossexuais diminuiu, é que se tornou possível a adoção de alguns hábitos e atitudes seus por parte de heterossexuais acima de qualquer suspeita. Por último, alguém poderia aventar a hipótese de que os homens atualmente se mostram mais vaidosos também para agradar às mulheres. É improvável, de acordo com os especialistas. Assim como ocorre com elas, eles se embelezam para agradar sobretudo a si próprios. Questão de auto-estima, pura e simplesmente.

Vamos lá, rapaz, seja homem e use um creminho.

 

 
 
 
 
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