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MEDICINA
Jovem dos 30 aos 60 anos
A
ciência já decifrou os mecanismos
básicos do processo de amadurecimento
do corpo humano e, pela primeira vez,
os médicos têm recomendações eficientes
para ajudar as pessoas a atrasar o ritmo
do relógio biológico e viver mais, melhor
e com intensidade
Montagem sobre foto de Paulo Vitale
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Receitas
da ciência para manter-se
jovem aos 30
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Depois
que desistiu de buscar a fonte da juventude, a ciência avançou
muito no estudo do processo de envelhecimento e de como retardá-lo.
Deram em nada ou em pouca coisa os tratamentos tidos como milagrosos
feitos à base de extratos de embrião de carneiro ou
as dietas inspiradas no cardápio de populações
longevas de aldeias perdidas no interior da Ucrânia. Continuam
estancadas as linhas de pesquisa que procuram um gene responsável
pelo envelhecimento ou a pílula salvadora, a "bala mágica",
como dizem os médicos, capaz de preservar a juventude. Substâncias
como a melatonina ou o DHEA tiveram essa fama nos anos 90. Hoje
são vistas apenas como coadjuvantes úteis em certos
tratamentos. Apesar disso, ou talvez exatamente por essa razão,
nunca como agora as pessoas tiveram tantas armas para combater as
condições adversas associadas à idade. O médico
americano Bruce Yanker, neurologista da Escola de Medicina de Harvard,
foi um dos primeiros especialistas a defender a tese de que a melhor
abordagem seria abandonar o sonho de que um dia a poção
da juventude sairia pronta do laboratório de algum gênio.
O
primeiro avanço foi entender que os processos normais de
amadurecimento do corpo humano teriam de ser estudados separadamente
das doenças comumente associadas à velhice. Diz Yanker:
"Livre de doenças, o cérebro e outros órgãos
podem se manter totalmente funcionais por décadas depois
dos 50 anos. Basta que eles sejam usados". O segundo e talvez mais
significativo passo foi dado pelo médico Michael Roizen,
um americano de 57 anos, que há quatro escreveu um livro
revolucionário, Idade Verdadeira, propondo que as
pessoas têm duas idades, e não apenas a que consta
dos documentos de identidade. Roizen colocou de pé, então,
o conceito de idade biológica. Ele mostrou cientificamente
o que muita gente já percebia de maneira empírica:
pessoas de mesma idade no calendário têm aparência
e saúde tão distintas que parecem ou muito mais jovens
ou muito mais velhas. Depois do sucesso do primeiro livro, Roizen
abandonou seu laboratório na Universidade de Chicago e criou
o Instituto da Idade Verdadeira. Ali, com a ajuda de uma dezena
de especialistas, passou à fase prática de suas pesquisas.
Ele prepara agora um livro sobre como conservar a juventude atrasando
o relógio biológico. "Se uma pessoa fizer tudo certo,
ela pode ter uma idade biológica mais de vinte anos menor
que sua idade no calendário", disse Roizen a VEJA na semana
passada.
No
novo livro, o médico desenvolverá o que chama de "doze
caminhos para diminuir sua idade biológica" (veja
gráfico). Com base num cálculo complexo
que leva em conta dados epidemiológicos e pesquisas de mortalidade,
Michael Roizen chegou a um fator de redução da idade
que lhe permite afirmar com alguma segurança quantos anos
se pode ganhar de saúde biológica com cada providência
em benefício da saúde. Ele escreveu, por exemplo,
que duas caminhadas diárias de vinte minutos podem atrasar
o tique-taque biológico em cinco anos. Por que não
seis ou sete? Segundo explica Roizen, o ganho pode ser de seis ou
sete anos dependendo da fisiologia de cada pessoa. Mas, para a média
dos adultos com mais de 40 anos, as caminhadas diárias trazem
certo tipo de benefício que levará seu sistema vascular
a funcionar como o de alguém cinco anos mais jovem. "Ninguém
discute mais que existe uma idade do calendário e uma biológica.
Algumas pessoas podem escolher estar à frente do calendário.
Outras, estar bem atrás", diz o médico Roizen.
Montagem sobre foto de Paulo Vitale
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Não
é de hoje que há consenso em que faz bem à
saúde seguir uma dieta saudável, não fumar
e evitar o stress. Muitos especialistas acham, no entanto, que Roizen
foi longe demais ao tentar medir os benefícios dos comportamentos
positivos em anos e até em meses. Pelo menos dois dos pontos
de sua receita para frear o relógio do corpo não são
aceitos por unanimidade pelos médicos. Um é o conselho
de tomar um comprimido de aspirina por dia. O outro diz respeito
às doses extras de vitaminas C e E que ele recomenda. "Roizen
manda tomar cápsulas com doses diárias dessas vitaminas,
mas não existem estudos definitivos sobre seus benefícios",
diz Fábio Nasri, geriatra e endocrinologista, coordenador
da Clínica de Memória do Hospital Israelita Albert
Einstein, em São Paulo.
"A
geração atual é a primeira a ter a sua disposição
armas e conhecimento para controlar o processo de amadurecimento
do corpo e do cérebro", resume Roizen. Outros especialistas
ouvidos por VEJA no Brasil e nos Estados Unidos concordam com a
idéia de que esta geração é mesmo privilegiada
no que diz respeito à capacidade de espantar os males da
velhice. Concordam também com outro conceito fundamental
da teoria de Roizen, o de que, como nas aposentadorias bem-sucedidas
do ponto de vista financeiro, ter saúde na idade madura exige
que se comece a prepará-la cedo. Em alguns casos, antes dos
30 anos. As estatísticas e a realidade dos consultórios
refletem as vitórias da ciência médica contra
os fantasmas tradicionais que chegam com a idade.
Oito em cada dez doenças associadas à idade avançada
podem ser diagnosticadas e prevenidas antes de atacarem o organismo.
Entre elas estão males que infernizaram a vida dos pais e
avós da atual geração de adultos, como diabetes,
hipertensão, artrite, depressão, demência, impotência
e inapetência sexual, perda de apetite e insônia. "Os
pequenos lapsos de memória são normais em qualquer
idade, mas na velhice são encarados como sinais de que o
cérebro começou a morrer. Além de causar pavor,
essa sensação falsa faz com que muitas pessoas pensem
que chegou a hora de desacelerar. Esse é o erro mais comum",
afirma o neurologista Yanker.
Vive-se mais e melhor. Um brasileiro nascido em 1900 tinha expectativa
de vida de cerca de 34 anos. Um bebê que nasceu em 2000 pode
esperar viver 70 anos ou mais. É o dobro. Para o americano
Roizen, esse salto, dado em um século, é indicador
de que a expectativa de vida deve chegar a 98 anos em algumas décadas
devido aos avanços da ciência médica e da instrução
cada vez maior das pessoas sobre questões de saúde.
Diz Roizen: "A cada cinco anos, o número de pessoas maduras
com problemas de saúde cai 1%. Parece pouco, mas é
muito quando se lembra que a maioria das pessoas ainda se alimenta
mal, fuma e não faz exercícios".
Nas áreas mais sensíveis e agradáveis da vida
humana, a aparência e o sexo, os avanços recentes são
ainda mais notáveis. "Hoje em dia apenas com os recursos
estéticos dos cremes e dos tratamentos externos de ativação
do metabolismo das células é possível adiar
as cirurgias plásticas e rejuvenescer um rosto em até
dez anos", diz a dermatologista paulista Ana Claudia Schor. Os efeitos
nocivos da exposição solar, o grande fator de envelhecimento
precoce da pele, já podem ser evitados com filtros capazes
de reduzir os raios danosos em 90%. Os dermatologistas calculam
que o tempo que uma adolescente, hoje em dia, se expõe ao
sol desprotegida não chega a 4% do tempo que sua mãe
passava na praia, nos anos 70 e 80, sem proteção solar.
Remédios como Viagra, Levitra e Cialis resolvem 90% de todos
os casos de impotência masculina. Os antidepressivos são
usados com sucesso no tratamento de outra disfunção
masculina, a ejaculação precoce. "Somando a esses
remédios a adoção de hábitos saudáveis
de vida, a prevenção e o controle do diabetes e da
hipertensão, o homem terá assegurada uma vida sexual
ativa por muito mais tempo do que seus pais e avós sonharam
ser possível", diz a psiquiatra e sexóloga Carmita
Abdo, de São Paulo. E as mulheres? Os médicos são
unânimes em reconhecer que, para elas, as coisas estão
ainda melhor. As terapias para manter o desejo sexual da mulher
e o aspecto atraente de sua pele existem há mais tempo do
que as destinadas aos homens. O mesmo se aplica à saúde
dos órgãos sexuais e de reprodução da
mulher. Uma pesquisa recente da revista americana Esquire mostrou
que 40% das americanas entrevistadas responderam "sim" quando lhe
perguntaram se estavam fazendo sexo satisfatório depois da
menopausa. Elas apontaram como fatores de prazer a aparência
jovem proporcionada pelos novos tratamentos estéticos e médicos
e o fato de não ter de se preocupar mais com uma gravidez
indesejada. "Elas descrevem o sexo maduro como uma experiência
prazerosa completamente diferente de tudo o que experimentaram na
juventude", escreveu a revista.
Montagem sobre foto de Paulo Vitale
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A nova
abordagem sobre o envelhecimento produziu excelentes resultados
práticos. Está fora do horizonte o dia em que os grandes
males como o câncer e os ataques cardíacos poderão
ser eliminados. Mas mesmo essas moléstias matam muito menos
atualmente que há cinco ou dez anos. Os médicos já
conhecem todos os fatores de risco para 80% dos tipos de câncer.
Eles conseguiram mapear as principais causas e sabem como evitar
a maioria das doenças cardíacas provocadas pelo endurecimento
e pelo entupimento das artérias. As cirurgias cardíacas
tornam-se a cada ano mais eficientes e indolores. Em outra frente
de combate às doenças, o conhecimento do histórico
familiar alerta homens e mulheres para as doenças que os
pais e avós sofreram. Isso permite abortar suas causas antes
mesmo que o mal se instale no organismo. "Os check-ups anuais e
a visita constante ao médico estão revolucionando
o combate ao câncer e aos males cardíacos", diz Roizen.
São
inúmeras ainda as evidências de que há um longo
caminho a ser percorrido no entendimento do metabolismo humano e
do desgaste das células, dos órgãos e dos tecidos.
Uma das mais singelas é o fato de que não se encontrou
explicação satisfatória para os cabelos ficarem
brancos com a idade. Também não se sabe exatamente
por que a capacidade auditiva diminui. São conhecidas as
razões pelas quais até mesmo os olhos sadios precisam
da ajuda de lentes corretivas a partir de determinada idade. Não
existe, porém, nenhuma abordagem preventiva ou tratamento
não cirúrgico para evitar vista cansada.
"Temos
de encarar o envelhecimento como uma rampa. Ela sempre nos levará
à mesma direção, que é a morte natural.
A grande novidade é que as pessoas hoje podem suavizar muito
a inclinação da rampa", diz Luiz Roberto Ramos, geriatra
e coordenador do Centro de Estudos do Envelhecimento da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp). Existem divergências
sobre o uso de complementos vitamínicos e se as pessoas devem
tomar mesmo um comprimido diário de aspirina para evitar
inflamação das artérias, recomendações
feitas pelo americano Michael Roizen. A própria teoria geral
do envelhecimento é motivo de debate. Existem duas correntes
principais. Um dos lados sustenta que a decadência das células
é um processo organizado, orquestrado pelo organismo e comandado
por uma dezena de genes programados para entrar em ação
depois de determinada idade. Outro lado acredita que as pessoas
envelhecem justamente porque os genes perdem o controle dos processos
vitais, metendo o organismo numa tempestade bioquímica de
substâncias ácidas que acabam por liquidar as células.
Ambas
as correntes concordam, porém, que basicamente o envelhecimento
começa quando certas proteínas com a função
de ajudar as células a se duplicar sem erros começam
a falhar. A cada cinco anos, todos os 100 trilhões de células
renováveis do corpo humano fabricam células substitutas.
"O grande avanço da medicina moderna foi descobrir como fazer
com que esse processo produza o menor número possível
de cópias imperfeitas", resume Roizen. Também não
há acordo que coloque para dormir o dilema das mulheres maduras
sobre se devem ou não fazer reposição hormonal
talvez a arma médica mais poderosa para adiar a velhice.
Pesquisas recentes feitas nos Estados Unidos e na Europa mostraram
aumento na incidência de tumores e ataques cardíacos
em mulheres que se submeteram às terapias de reposição
hormonal. A questão ainda está em aberto. Como certos
benefícios da reposição são indiscutíveis,
a maior parte dos médicos acha mais prudente discutir caso
a caso com suas pacientes.
Montagem sobre foto de Paulo Vitale
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Nos
últimos anos, pesquisadores de todas as orientações
chegaram a diversos consensos sobre o que a maioria das pessoas
deveriam fazer para tornar a rampa do amadurecimento menos inclinada
e menos perigosa. Entre as recomendações básicas
e universais, obviamente, está parar de fumar, evitar ser
fumante involuntário ou seja, respirar a fumaça
dos outros , exercitar-se com regularidade, mesmo que sejam
caminhadas diárias leves de vinte minutos. Todos concordam
também que as visitas ao médico e os check-ups específicos
para o sexo e a idade devem ser feitos com maior freqüência
a cada década. São regras eficientes, relativamente
fáceis de ser seguidas, que fazem enorme diferença.
Há
anos os cientistas tentam entender por que as mulheres em todos
os países industrializados vivem, em média, seis anos
a mais que os homens. Muitas teorias foram postas de pé.
Alguns cientistas sugeriram que a causa principal estaria nas diferenças
genéticas impressas na própria receita para fabricar
bebês do sexo masculino, o chamado "cromossomo Y". Sendo menor
que sua contraparte feminina, o "X", esse componente do bolo que
produz machos seria mais vulnerável a mutações
e desgastes. Recentemente, essa tese foi abandonada. Agora, os médicos
estão tendendo a aceitar que a razão principal da
longevidade feminina tem causas sociais. "As mulheres correm menos
riscos, fumam menos, bebem menos e tendem a se alimentar melhor
que os homens. Além disso, elas fazem exames médicos
periódicos com freqüência muito maior do que os
homens", diz Roizen. "O que temos a fazer é imitá-las."
Com
reportagem de Ana Maria Leopoldo
e Tania Menai, de Nova York
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