Edição 1806 . 11 de junho de 2003

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Com o paciente acordado

Cirurgia do coração sem anestesia geral.
Pois é, parece impossível, mas existe


Paula Neiva


Antonio Amato
O cirurgião Martinelli e o aposentado Badano: conversa durante a implantação de marca-passo

Há alguns dias, o aposentado italiano Lorenzo Badano, de 77 anos, internou-se num hospital da cidade de Gênova para receber um marca-passo. Teria sido uma cirurgia cardíaca das mais prosaicas, não fosse por um detalhe: o paciente não recebeu anestesia geral. Lorenzo permaneceu acordado durante os 45 minutos da intervenção. "Fiquei impressionado. Eu conversava com ele, enquanto o seu coração pulsava em minhas mãos", diz o médico Luigi Martinelli, responsável pela cirurgia. Foi um procedimento incomum, mas não inédito. Desde o fim dos anos 90, alguns médicos vêm recorrendo à anestesia peridural torácica, que apenas bloqueia a dor na região do tórax, sem alterar a consciência nem a capacidade respiratória do paciente que será operado.

Cirurgias semelhantes já foram realizadas nos Estados Unidos, na Turquia e no Brasil. A substituição da anestesia geral pela peridural apresenta grandes vantagens. A principal delas é que a operação se torna menos invasiva. Como o doente respira sozinho, ele não precisa ser entubado. Dessa forma, os riscos de infecção caem drasticamente. Além disso, a recuperação de um paciente operado sob anestesia peridural é bem mais rápida. O paciente submetido à anestesia geral leva, em média, oito horas para acordar. Nesse período, deve ser mantido em um respirador artificial. E, quando acorda, é inevitável que ainda sinta dor. Para debelá-la, ele tem de tomar anestésicos potentes, o que prolonga sua estadia no hospital. A ação da peridural pode durar até 72 horas. Ou seja, quando seu efeito passa, a dor pós-cirúrgica não incomoda tanto.

O uso da peridural para operar doentes cardíacos, no entanto, não é recomendado em todos os casos. Vítimas de problemas respiratórios, por exemplo, não podem ir para a mesa de operação apenas com esse tipo de anestesia. Isso porque a peridural impede que os médicos mantenham a respiração do paciente num ritmo adequado, como ocorre quando ele está sob anestesia geral. Há também que levar em conta o aspecto psicológico. Acompanhar uma equipe serrando a sua caixa torácica não é exatamente agradável, mesmo que se tente minorar os aspectos mais traumáticos da experiência. "Para que o paciente não ouça o barulho da serra, costumamos colocar uma música de fundo", diz o cirurgião Gladyston Luiz Souto, de Itaperuna, no interior do Rio de Janeiro, pioneiro da técnica no Brasil. É preciso gostar muito de música, convenhamos.

 
 
 
 
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