|
|
CIDADES
Com
o paciente acordado
Cirurgia
do coração sem anestesia geral.
Pois é, parece impossível, mas existe

Paula
Neiva
Antonio Amato
 |
| O
cirurgião Martinelli e o aposentado Badano: conversa durante
a implantação de marca-passo |
Há
alguns dias, o aposentado italiano Lorenzo Badano, de 77 anos, internou-se
num hospital da cidade de Gênova para receber um marca-passo.
Teria sido uma cirurgia cardíaca das mais prosaicas, não
fosse por um detalhe: o paciente não recebeu anestesia geral.
Lorenzo permaneceu acordado durante os 45 minutos da intervenção.
"Fiquei impressionado. Eu conversava com ele, enquanto o seu coração
pulsava em minhas mãos", diz o médico Luigi Martinelli,
responsável pela cirurgia. Foi um procedimento incomum, mas
não inédito. Desde o fim dos anos 90, alguns médicos
vêm recorrendo à anestesia peridural torácica,
que apenas bloqueia a dor na região do tórax, sem
alterar a consciência nem a capacidade respiratória
do paciente que será operado.
Cirurgias
semelhantes já foram realizadas nos Estados Unidos, na Turquia
e no Brasil. A substituição da anestesia geral pela
peridural apresenta grandes vantagens. A principal delas é
que a operação se torna menos invasiva. Como o doente
respira sozinho, ele não precisa ser entubado. Dessa forma,
os riscos de infecção caem drasticamente. Além
disso, a recuperação de um paciente operado sob anestesia
peridural é bem mais rápida. O paciente submetido
à anestesia geral leva, em média, oito horas para
acordar. Nesse período, deve ser mantido em um respirador
artificial. E, quando acorda, é inevitável que ainda
sinta dor. Para debelá-la, ele tem de tomar anestésicos
potentes, o que prolonga sua estadia no hospital. A ação
da peridural pode durar até 72 horas. Ou seja, quando seu
efeito passa, a dor pós-cirúrgica não incomoda
tanto.
O
uso da peridural para operar doentes cardíacos, no entanto,
não é recomendado em todos os casos. Vítimas
de problemas respiratórios, por exemplo, não podem
ir para a mesa de operação apenas com esse tipo de
anestesia. Isso porque a peridural impede que os médicos
mantenham a respiração do paciente num ritmo adequado,
como ocorre quando ele está sob anestesia geral. Há
também que levar em conta o aspecto psicológico. Acompanhar
uma equipe serrando a sua caixa torácica não é
exatamente agradável, mesmo que se tente minorar os aspectos
mais traumáticos da experiência. "Para que o paciente
não ouça o barulho da serra, costumamos colocar uma
música de fundo", diz o cirurgião Gladyston Luiz Souto,
de Itaperuna, no interior do Rio de Janeiro, pioneiro da técnica
no Brasil. É preciso gostar muito de música, convenhamos.
|