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JUROS
Um
monumento aos
juros
Os
brasileiros pagam os juros mais
caros do mundo uma situação que
só
vai mudar quando o governo deixar
de sugar 77% do crédito disponível
Armando Favaro/AE
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| Fila
de candidatos a um emprego: juros altos inibem investimentos
e reduzem as chances de uma vaga |
Estará
em apuros o empresário brasileiro que precisar de dinheiro
de banco para comprar estoque de mercadoria, ampliar sua loja ou
equipar sua fábrica com máquinas mais modernas. Em
média, os bancos vão cobrar dele cerca de 61% de juros
por ano caso sua empresa seja de algum porte e tenha ótimo
nome na praça. Pelo mesmo tipo de empréstimo, os empresários
de Cingapura pagam 5,5%, e os europeus, apenas 4,6%. Até
empresários argentinos, mexicanos e chilenos obtêm
crédito mais barato que o do Brasil. Se o brasileiro for
um pequeno empresário, recentemente estabelecido no mercado,
terá de pagar ainda mais, cerca de 80% ao ano de juros. Como
não existe negócio legal que propicie lucro tão
grande, o empreendedor simplesmente não terá como
pagar o empréstimo e, muito provavelmente, se não
falir, irá se enrolar em uma crise financeira permanente.
Esse
é o quadro da economia real brasileira. Não é
por acaso, portanto, que o Brasil figura nas estatísticas
como um dos países com o menor volume de crédito bancário
destinado ao setor privado. Segundo dados da semana passada, apenas
2,3 reais de cada 10 emprestados pelos bancos brasileiros vão
financiar alguma atividade produtiva. A resposta à pergunta
sobre onde vão parar os outros 7,7 reais é a chave
para entender boa parte da explosão dos juros brasileiros.
Quase 80% do crédito bancário disponível vai
para o governo, que, em troca, remunera os bancos com a famosa taxa
Selic de 26,5%. Essa taxa varia de acordo com a situação
macroeconômica do país ou, mais exatamente,
da avaliação que o mercado faz dessa situação.
Tal
equação conduz a uma segunda e vital pergunta para
entender o faroeste financeiro que impera no Brasil. Por que os
bancos emprestam quase todo seu dinheiro ao governo, que nada produz,
por 26,5% ao ano, ao invés de reservar uma parte maior de
crédito para os empresários, que produzem, e lhes
pagam 61% pelos empréstimos? A resposta está na razão
de viver dos bancos, desde que essa atividade começou na
famosa Casa di San Giorgio, fundada em Gênova em 1407. Os
bancos emprestam dinheiro ao governo a um custo muito menor que
aos empresários porque o governo é para eles o credor
perfeito. Eles têm certeza de que vão receber o que
emprestaram acrescido dos juros. Primeiro, porque é um evento
muito mais traumático e raro para um governo não honrar
suas dívidas do que para pessoas físicas ou jurídicas.
Além disso, o governo imprime dinheiro.
Mônica Zarattini
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| Henrique
Meirelles, presidente do BC: vitória da decisão técnica sobre
a política nos juros |
Ao
emprestarem para empresários e para pessoas físicas,
os bancos cobram taxas de risco, também tão antigas
quanto a Casa di San Giorgio. Para as pessoas físicas, consideradas
ainda menos confiáveis que os empresários, os bancos
brasileiros estão cobrando taxas estratosféricas de
180%, o juro médio do cheque especial na semana passada.
A Casa di San Giorgio também prosperou emprestando dinheiro
mais barato para os governos que para os nobres medievais. Desde
então, os bancos tiram seu lucro dos juros que embutem ao
avaliar os riscos dos empréstimos. Quanto mais arriscada
a operação do ponto de vista dos bancos, mais caro
sairá o empréstimo. Mesmo a enorme margem de lucro
de 36% que os bancos brasileiros embutem nos empréstimos
varia de acordo com a avaliação de risco que eles
fazem.
No
caso brasileiro atual, os fundamentos do problema são os
mesmos. As leis brasileiras protegem de tal forma os tomadores privados
de recursos que eles se tornam, sob a ótica dos bancos, um
risco em potencial. Nos Estados Unidos, a legislação
é mais liberal que a brasileira e foi feita com o objetivo
de manter a saúde do sistema financeiro, e não o apadrinhamento
do tomador de dinheiro. Por isso, para os bancos americanos é
mais fácil e barato reaver o dinheiro de empréstimos
ou mandar arrestar os bens dos maus pagadores. Praticamente não
existe nada que os bancos americanos não possam tomar na
Justiça para evitar o prejuízo de calotes. Como o
risco é baixo, as instituições americanas podem
cobrar juros baixos. Nos EUA, os empresários pagam hoje menos
de 5% ao ano de capital de giro. No Brasil é diferente. As
leis proíbem que se tomem prédios, maquinários
industriais ou estoques de quem não paga as dívidas.
Não se pode tocar naquilo que seja vital para a continuação
do funcionamento do negócio. Sem garantias legais, os bancos
preferem rolar os títulos do governo ou cobrar os olhos da
cara para emprestar para pessoas físicas e jurídicas.
Pelo ângulo do tomador, o sistema brasileiro é adequado
quanto à proteção de seu patrimônio.
Pelo lado dos custos, ele terá, no entanto, de arcar com
o preço dessa segurança na forma de juros altíssimos.
Uma
categoria de brasileiros consegue dinheiro dos bancos e financeiras
a um custo baixo porque as instituições correm riscos
menores nas operações com eles. São os compradores
de automóveis a crédito. Nos financiamentos para compra
de carros, as pessoas físicas pagavam em abril juros de 50,31%
ao ano, quase uma quarta parte do custo que os brasileiros pagam
quando estouram o limite do cheque especial e muito menos que a
taxa cobrada dos empresários. O juro do crédito para
comprar carros é baixo porque a lei brasileira permite aos
bancos e financeiras reaver o bem em bom português,
tomar o carro de volta em caso de não pagamento mesmo
que ele seja essencial para a sobrevivência do tomador. Uma
parte da solução do problema dos juros altos no Brasil,
portanto, é fazer leis que tornem menos arriscado para os
bancos emprestar. Não pelo medo da inadimplência
que no Brasil não é mais alta que em muitos países
industrializados , mas pela ausência de mecanismos legais
para garantir que não haverá prejuízo. Alguma
coisa tem de ser feita, porque nenhuma economia pode sobreviver
muito tempo submetida aos juros praticados no Brasil. Nenhum sistema
bancário do mundo cobra tão caro das pessoas e dos
empresários para lhes emprestar dinheiro. A alteração
da Lei de Falências, já em estudo pelo governo, é
um passo nessa direção. A idéia é facilitar
a recuperação da empresa, dando-lhe fôlego para
voltar a ficar de pé novamente e pagar seu empréstimo.
Outro
foco do problema é diminuir a necessidade do governo de tomar
dinheiro dos bancos privados. Isso só se faz com a diminuição
dos rombos do Tesouro, exatamente o efeito que se espera com as
reformas, especialmente a da Previdência. "Se o ajuste for
mantido nos próximos quatro anos, a relação
entre dívida interna e PIB pode cair dos atuais 64% para
45%, o que reduzirá a necessidade de financiamento do governo
e aumentará a oferta de crédito para o setor privado,
baixando os juros", diz o economista Carlos Langoni, diretor do
Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio
Vargas e ex-presidente do Banco Central. Fora algum imprevisto de
percurso, dadas as condições da economia brasileira
e do cenário mundial, os juros brasileiros a partir de agora
só têm um caminho, e ele aponta para baixo.
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