Edição 1806 . 11 de junho de 2003

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JUROS
O inferno são os outros


Maurício Lima

As críticas ao governo
NA INTERNET
Notícias diárias do governo Lula

Quando alguma coisa vai mal, as pessoas tendem a se perguntar o que está por trás da confusão. Era o que o Brasil se perguntava na semana passada. Ocupando o lugar de Luiz Inácio Lula da Silva, que viajara para a Europa, o vice-presidente José Alencar espinafrou a cúpula do Banco Central e voltou a distribuir críticas de oposicionista à elevada taxa de juros em vigor no país. "Isso (definir a taxa de juros) não é decisão para economista, é decisão para político, porque tecnicamente tem dado errado", disse Alencar. "Não tem como dar uma de surdo, cego e louco. Não dá para fingir que nada está acontecendo. Ajudar o governo não é só bater palma para tudo", desabafou o esquentado vice-presidente. Não foi o único. O ministro do Planejamento, Guido Mantega, disse que os juros cobrados pelos bancos "são proibitivos", "um disparate", "um assalto a mão armada". Seu colega Ciro Gomes, ministro da Integração Nacional, afirmou que os juros nas alturas prejudicam duplamente a região mais pobre do país, o Nordeste. Aliados do governo também se manifestaram. Com a habitual elegância, Leonel Brizola, do PDT, disse que o presidente é "frouxo", e o ex-presidenciável Anthony Garotinho, do PSB, usando de seu inefável senso de oportunidade, está organizando uma marcha de protesto com o seguinte lema: "Acorda Lula, antes que seja tarde". Para completar, o presidente, ao defender as reformas num congresso da CUT, particularmente a reforma da Previdência Social, recebeu sua primeira vaia desde que chegou ao Palácio do Planalto. Repita-se: o que está por trás disso tudo?

Numa semana em que o país respirou crise, a taxa de inflação registrou novo recuo pelo quarto mês consecutivo, ficando desta vez em 0,31%. O dólar, num sinal de que o mercado talvez tenha encontrado a cotação ideal para a moeda americana, manteve-se em torno de 2,90 reais. A balança comercial, apenas nestes primeiros meses do ano, apresentou saldo positivo de 8 bilhões de dólares, um feito sem precedentes na história. Quanto aos juros oficiais do Banco Central, estão em 26,5% agora, mas caem para 20% a 21% no começo do ano que vem, de acordo com a cotação do mercado futuro. Diante desse cenário, a agência Fitch, em comunicado a seus clientes, resolveu elevar a classificação do Brasil de "estável" para "positiva". No Congresso Nacional, a reforma previdenciária foi aprovada em sua primeira batalha parlamentar por 44 votos a 13, contando com o apoio, inclusive, de políticos da oposição. Para fechar o quadro, uma pesquisa indicou que a popularidade do presidente subiu de 74% para 78% no último mês. E Lula, depois de ouvir as vaias no congresso da CUT, disse que achava "vaias tão importantes quanto aplausos" e virou o jogo a seu favor. Terminou seu discurso ouvindo a platéia aplaudi-lo em pé. Diante disso, é o caso de indagar: que espécie de crise é essa?

O Brasil anda com os nervos à flor da pele. Tem seus motivos. Os juros, de fato, estão altíssimos. O PIB brasileiro, num dado evidente da paralisia econômica, diminuiu de tamanho no primeiro trimestre deste ano. A taxa de desemprego, seja qual for o instituto que a calcule, aponta para níveis jamais vistos, batendo recorde histórico na região metropolitana de São Paulo, termômetro industrial do país. São sinais preocupantes. A cúpula do governo se aflige com esses dados negativos tanto quanto José Alencar e a multidão de brasileiros que estão passando pela experiência de viver num país que não deslancha na rota do crescimento. Na semana passada, num encontro reservado com um grupo de intelectuais simpáticos ao PT, Lula passou por todos os assuntos críticos, mostrou desconforto com alguns aspectos da economia brasileira e, pedindo paciência aos que lhe cobravam resultados palpáveis, disse que "há o tempo de plantar e o tempo de colher".

Lula está entrando no sexto mês de governo. Começa a ouvir cobranças. Nenhum governante vive em eterna lua-de-mel com a opinião pública. Em alguns setores, florescem sinais de descontentamento de quem esperava mudanças imediatas – uma aspiração ingênua, mas nem por isso ilegítima. Em outros setores, particularmente na cúpula dos movimentos sociais historicamente ligados ao PT – como os sem-terra do MST, os sindicalistas da CUT e as entidades que representam os servidores públicos –, cresce a surpresa de quem está descobrindo que Lula não vai governar só para a base petista. Nesse quesito, o pronunciamento do presidente no encontro da CUT foi apenas uma reafirmação da nova ortodoxia do presidente da República. Ele renegou o esquerdismo revolucionário e infantil do antigo PT de antes das eleições. O que tem feito a cada semana é repetir a cartilha por ele adotada desde então. No encontro da CUT, diante de uma platéia hostil, ainda que formada por sindicalistas petistas, Lula fez questão de dizer que não pretende trair seu passado militante, mas enfatizou que irá em frente com as reformas, sem se deixar embaraçar por interesses corporativos.

Apesar de previsíveis, esses tremores vocalizados por Alencar, sindicalistas decepcionados e intelectuais que se imaginavam tutores do petismo só podem ser compreendidos quando colocados numa perspectiva histórica. Crise, crise para valer, política ou econômica, o Brasil já atravessou várias. Só no último meio século, os brasileiros passaram pelo suicídio de Getúlio Vargas, a renúncia de Jânio Quadros, a deposição de João Goulart, a ditadura militar, a hiperinflação e a moratória da dívida externa no governo José Sarney, o impeachment de Fernando Collor. A economia brasileira está patinando há duas décadas. A situação atual continua precária, mas o governo está se movendo para tentar recolocar o país nos trilhos do crescimento. Não será uma operação fácil nem será um empreendimento a curto prazo. Um dos problemas de Lula é a expectativa que ele gerou como candidato. Muitos de seus eleitores acreditavam numa falácia do discurso petista. Segundo diziam os caciques do PT (e talvez até acreditassem nisso), o desafio do Brasil era apenas criado pela falta de gestores bem-intencionados na máquina pública. É uma visão simplória. Quando esses eleitores se sentirem decepcionados com as realizações obrigatoriamente modestas do governo Lula, pode ser que o presidente colha uma temporada de críticas mais carregada do que se tem visto nos últimos dias.

Nas fileiras dos inconformados com o "conservadorismo" do Banco Central e do Ministério da Fazenda, destaca-se o vice-presidente da República, José Alencar, um bem-sucedido empresário mineiro, dono da Coteminas, campeã de produtividade no setor têxtil. Alencar é um homem preparado pela vida para saber o que juros altos significam para os negócios, para o crescimento nacional e para o conforto material de cada um de seus habitantes. Está coberto de razão quando diz que os juros, no nível em que se encontram, são um "despropósito", um "assalto". Ele poderia manifestar livremente essas impressões junto a empresários ou até em nome de empresários, desde que não fosse integrante do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Membros de governos não devem trabalhar publicamente contra as políticas adotadas oficialmente por esses governos. As políticas podem eventualmente estar equivocadas, mas um estado de anarquia é pior do que qualquer outra coisa. Quando o presidente diz uma coisa e o vice emenda com a coisa oposta, a impressão dos que estão fora do governo é que lá impera a desordem.


Roberto Castro/AE

José Dirceu, ministro da Casa Civil: aula de educação política e respeito à hierarquia


O comportamento do vice tem provocado constrangimento, mas ele não parece se incomodar com isso. "Querem passar a impressão de que sou um idiota e desequilibrado por falar abertamente sobre o assunto", defendeu-se Alencar (veja entrevista). O vice-presidente não está pregando no deserto, pois se enrolou numa bandeira que tem nada menos que a unanimidade nacional, mas parece enredado na forma que escolheu para travar sua batalha: as declarações públicas. Na semana passada, o esperneio do vice ficou mais deselegante pelo fato de estar no exercício da Presidência da República, na ausência de Lula. Indagado sobre as manifestações de Alencar, o ministro José Dirceu, o poderoso chefe da Casa Civil, forneceu uma deliciosa aula de educação política e respeito à hierarquia: "Como sou ministro dele, não vou comentar", falou Dirceu.

Lula ficou irritado – mas por pouco tempo. Chegou da viagem à Europa na segunda-feira e, no dia seguinte, recebeu um telefonema do vice. Demonstrando arrependimento pela confusão, Alencar disse que suas declarações foram amplificadas em excesso pela imprensa e explicou que só repetira o que dissera antes. Lula ouviu-o pacientemente. No início, o presidente estava seco, mas, ao final do telefonema, já estava relaxado. Mais tarde, a um interlocutor, o presidente resumiu sua impressão, com o uso de diminutivos: "Usaram o veinho e ele caiu direitinho". Na quarta-feira passada, quando presidente e vice ficaram frente a frente, num encontro na Base Aérea de Brasília, deu-se uma conversa de quarenta minutos. Foi um diálogo afetuoso. De acordo com o relato de assessores do presidente, Lula pediu ao vice que evitasse indiscrições durante a interinidade, mas autorizou-o a continuar falando de juros para platéias de empresários, com a ressalva de que aliviasse a equipe econômica. Como Alencar tem se queixado de que não o ouvem no governo, Lula encarregou-o de coordenar o projeto de construção da Ferrovia Transnordestina. Em visita a Salvador na última semana, Alencar criticou os juros altos, mas também fez elogios ao desempenho do ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Num ambiente assim, fica mais fácil derrubar a taxa de juros.

 
Foto Celso Junior/AE
 Lula, ao discursar no congresso da CUT: no fim, aplausos de pé

 

"Não sou idiota, nem desequilibrado"

Na semana passada, o vice-presidente José Alencar falou a VEJA sobre as críticas que fez à equipe econômica. Eis alguns trechos da entrevista:

Veja – O que o senhor escutou do presidente a respeito de suas declarações quando foi esperá-lo na Base Aérea de Brasília para retransmitir o cargo?
Alencar – Nada. Quem tocou no assunto fui eu. Peguei no braço de Lula e contei que havia dado algumas declarações. Sabe qual foi a reação dele? Disse para mim: "Que é isso, Alencar, e eu não te conheço?"

Veja – Em vez de criticar o governo em público, por que o senhor não falou direta e reservadamente com o presidente, e só com ele?
Alencar – Querem passar a impressão de que eu sou um idiota e desequilibrado por falar abertamente sobre o assunto. Não sou idiota, nem desequilibrado. Sou um homem de bem, que paga os impostos em dia e não tem um só centavo ou alfinete no exterior. Eu trouxe para o governo a cultura de uma vida dedicada à empresa. Aprendi a reagir imediatamente quando um investimento pode dar prejuízo. Encaro o Brasil como um bem público que deve ser preservado. Em função dos juros elevados, o país está encabrestado, não cresce. Nunca houve tamanha transferência de renda das pessoas que vivem da produção em direção ao sistema financeiro nacional e internacional. É por isso que fico indignado.

Veja – O que o senhor faria se em sua empresa, a Coteminas, um diretor saísse por aí criticando outro diretor?
Alencar – Não podemos tratar de forma particular questões que são de interesse nacional. Tudo o que diz respeito ao bem público deve ser transparente. Só assim, com essa minha pregação, podemos gerar um debate aceso. Minha causa é o Brasil, ela é boa, reconheça. Sou irmão fraterno do Lula. Quanto ao Palocci (Antonio Palocci, ministro da Fazenda), precisamos aplaudir todas as medidas dele. Mas há uma pequena divergência em relação ao momento de baixar os juros. Meu receio é que se agrave a recessão e que o país atravesse um período complicado de dificuldades. Precisamos fazer contas. Aprendi isso cedo. Meu filho Josué aprendeu a ler balanço de empresa quando tinha 8 anos de idade. Só fui presenteá-lo com uma calculadora quando ele entrou no científico, que hoje se chama...

Veja – ...ensino médio.
Alencar – Isso mesmo. Não há economia capaz de resistir quando um cidadão precisa pagar 3% ao mês para descontar duplicata, o que dá mais de 40% ao ano. E o crédito ao consumidor, então, que é de 150% a 180% ao ano? Outro dia, li numa reportagem que 30% da renda das pessoas de classe média baixa é gasta com pagamento de juros. Temos um povo bom, ordeiro e pacato, mas fico amargurado quando vejo que ele enfrenta entraves como esse custo de capital. Temos de instruir as pessoas incautas e interferir na questão dos juros.

Veja – Interferir de que forma?
Alencar – Quando há oligopólio o governo não deve interferir? Que bem mais valioso há que o dinheiro? O retorno de um bom negócio, como a Coteminas, é de 10% a 12%. Quando os bancos recebem 26,5%, isso significa que recebem 100% do capital em três anos. Não é possível manter esse cenário. Eu sou um homem experiente, as pessoas têm de me ouvir.

 

 

 
 
 
 
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