|
|
JUROS
O
inferno são os outros

Maurício
Lima
Quando
alguma coisa vai mal, as pessoas tendem a se perguntar o que está
por trás da confusão. Era o que o Brasil se perguntava
na semana passada. Ocupando o lugar de Luiz Inácio Lula da
Silva, que viajara para a Europa, o vice-presidente José
Alencar espinafrou a cúpula do Banco Central e voltou a distribuir
críticas de oposicionista à elevada taxa de juros
em vigor no país. "Isso (definir a taxa de juros) não
é decisão para economista, é decisão
para político, porque tecnicamente tem dado errado", disse
Alencar. "Não tem como dar uma de surdo, cego e louco. Não
dá para fingir que nada está acontecendo. Ajudar o
governo não é só bater palma para tudo", desabafou
o esquentado vice-presidente. Não foi o único. O ministro
do Planejamento, Guido Mantega, disse que os juros cobrados pelos
bancos "são proibitivos", "um disparate", "um assalto a mão
armada". Seu colega Ciro Gomes, ministro da Integração
Nacional, afirmou que os juros nas alturas prejudicam duplamente
a região mais pobre do país, o Nordeste. Aliados do
governo também se manifestaram. Com a habitual
elegância, Leonel Brizola, do PDT, disse que o presidente
é "frouxo", e o ex-presidenciável Anthony Garotinho,
do PSB, usando de seu inefável senso de oportunidade, está
organizando uma marcha de protesto com o seguinte lema: "Acorda
Lula, antes que seja tarde". Para completar, o presidente, ao defender
as reformas num congresso da CUT, particularmente a reforma da Previdência
Social, recebeu sua primeira vaia desde que chegou ao Palácio
do Planalto. Repita-se: o que está por trás disso
tudo?
Numa semana em que o país respirou crise, a taxa de inflação
registrou novo recuo pelo quarto mês consecutivo, ficando
desta vez em 0,31%. O dólar, num sinal de que o mercado talvez
tenha encontrado a cotação ideal para a moeda americana,
manteve-se em torno de 2,90 reais. A balança comercial, apenas
nestes primeiros meses do ano, apresentou saldo positivo de 8 bilhões
de dólares, um feito sem precedentes na história.
Quanto aos juros oficiais do Banco Central, estão em 26,5%
agora, mas caem para 20% a 21% no começo do ano que vem,
de acordo com a cotação do mercado futuro. Diante
desse cenário, a agência Fitch, em comunicado a seus
clientes, resolveu elevar a classificação do Brasil
de "estável" para "positiva". No Congresso Nacional, a reforma
previdenciária foi aprovada em sua primeira batalha parlamentar
por 44 votos a 13, contando com o apoio, inclusive, de políticos
da oposição. Para fechar o quadro, uma pesquisa indicou
que a popularidade do presidente subiu de 74% para 78% no último
mês. E Lula, depois de ouvir as vaias no congresso da CUT,
disse que achava "vaias tão importantes quanto aplausos"
e virou o jogo a seu favor. Terminou seu discurso ouvindo a platéia
aplaudi-lo em pé. Diante disso, é o caso de indagar:
que espécie de crise é essa?
O Brasil anda com os nervos à flor da pele. Tem seus motivos.
Os juros, de fato, estão altíssimos. O PIB brasileiro,
num dado evidente da paralisia econômica, diminuiu de tamanho
no primeiro trimestre deste ano. A taxa de desemprego, seja qual
for o instituto que a calcule, aponta para níveis jamais
vistos, batendo recorde histórico na região metropolitana
de São Paulo, termômetro industrial do país.
São sinais preocupantes. A cúpula do governo se aflige
com esses dados negativos tanto quanto José Alencar e a multidão
de brasileiros que estão passando pela experiência
de viver num país que não deslancha na rota do crescimento.
Na semana passada, num encontro reservado com um grupo de intelectuais
simpáticos ao PT, Lula passou por todos os assuntos críticos,
mostrou desconforto com alguns aspectos da economia brasileira e,
pedindo paciência aos que lhe cobravam resultados palpáveis,
disse que "há o tempo de plantar e o tempo de colher".
Lula está entrando no sexto mês de governo. Começa
a ouvir cobranças. Nenhum governante vive em eterna lua-de-mel
com a opinião pública. Em alguns setores, florescem
sinais de descontentamento de quem esperava mudanças imediatas
uma aspiração ingênua, mas nem por isso
ilegítima. Em outros setores, particularmente na cúpula
dos movimentos sociais historicamente ligados ao PT como
os sem-terra do MST, os sindicalistas da CUT e as entidades que
representam os servidores públicos , cresce a surpresa
de quem está descobrindo que Lula não vai governar
só para a base petista. Nesse quesito, o pronunciamento do
presidente no encontro da CUT foi apenas uma reafirmação
da nova ortodoxia do presidente da República. Ele renegou
o esquerdismo revolucionário e infantil do antigo PT de antes
das eleições. O que tem feito a cada semana é
repetir a cartilha por ele adotada desde então. No encontro
da CUT, diante de uma platéia hostil, ainda que formada por
sindicalistas petistas, Lula fez questão de dizer que não
pretende trair seu passado militante, mas enfatizou que irá
em frente com as reformas, sem se deixar embaraçar por interesses
corporativos.
Apesar de previsíveis, esses tremores vocalizados por Alencar,
sindicalistas decepcionados e intelectuais que se imaginavam tutores
do petismo só podem ser compreendidos quando colocados numa
perspectiva histórica. Crise, crise para valer, política
ou econômica, o Brasil já atravessou várias.
Só no último meio século, os brasileiros passaram
pelo suicídio de Getúlio Vargas, a renúncia
de Jânio Quadros, a deposição de João
Goulart, a ditadura militar, a hiperinflação e a moratória
da dívida externa no governo José Sarney, o impeachment
de Fernando Collor. A economia brasileira está patinando
há duas décadas. A situação atual continua
precária, mas o governo está se movendo para tentar
recolocar o país nos trilhos do crescimento. Não será
uma operação fácil nem será um empreendimento
a curto prazo. Um dos problemas de Lula é a expectativa que
ele gerou como candidato. Muitos de seus eleitores acreditavam numa
falácia do discurso petista. Segundo diziam os caciques do
PT (e talvez até acreditassem nisso), o desafio do Brasil
era apenas criado pela falta de gestores bem-intencionados na máquina
pública. É uma visão simplória. Quando
esses eleitores se sentirem decepcionados com as realizações
obrigatoriamente modestas do governo Lula, pode ser que o presidente
colha uma temporada de críticas mais carregada do que se
tem visto nos últimos dias.
Nas fileiras dos inconformados com o "conservadorismo" do Banco
Central e do Ministério da Fazenda, destaca-se o vice-presidente
da República, José Alencar, um bem-sucedido empresário
mineiro, dono da Coteminas, campeã de produtividade no setor
têxtil. Alencar é um homem preparado pela vida para
saber o que juros altos significam para os negócios, para
o crescimento nacional e para o conforto material de cada um de
seus habitantes. Está coberto de razão quando diz
que os juros, no nível em que se encontram, são um
"despropósito", um "assalto". Ele poderia manifestar livremente
essas impressões junto a empresários ou até
em nome de empresários, desde que não fosse integrante
do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Membros de governos
não devem trabalhar publicamente contra as políticas
adotadas oficialmente por esses governos. As políticas podem
eventualmente estar equivocadas, mas um estado de anarquia é
pior do que qualquer outra coisa. Quando o presidente diz uma coisa
e o vice emenda com a coisa oposta, a impressão dos que estão
fora do governo é que lá impera a desordem.
Roberto Castro/AE
 |
|
José
Dirceu, ministro da Casa Civil: aula de educação
política e respeito à hierarquia
|
O comportamento do vice tem provocado constrangimento, mas ele não
parece se incomodar com isso. "Querem passar a impressão
de que sou um idiota e desequilibrado por falar abertamente sobre
o assunto", defendeu-se Alencar (veja
entrevista). O vice-presidente não
está pregando no deserto, pois se enrolou numa bandeira que
tem nada menos que a unanimidade nacional, mas parece enredado na
forma que escolheu para travar sua batalha: as declarações
públicas. Na semana passada, o esperneio do vice ficou mais
deselegante pelo fato de estar no exercício da Presidência
da República, na ausência de Lula. Indagado sobre as
manifestações de Alencar, o ministro José Dirceu,
o poderoso chefe da Casa Civil, forneceu uma deliciosa aula de educação
política e respeito à hierarquia: "Como sou ministro
dele, não vou comentar", falou Dirceu.
Lula ficou irritado mas por pouco tempo. Chegou da viagem
à Europa na segunda-feira e, no dia seguinte, recebeu um
telefonema do vice. Demonstrando arrependimento pela confusão,
Alencar disse que suas declarações foram amplificadas
em excesso pela imprensa e explicou que só repetira o que
dissera antes. Lula ouviu-o pacientemente. No início, o presidente
estava seco, mas, ao final do telefonema, já estava relaxado.
Mais tarde, a um interlocutor, o presidente resumiu sua impressão,
com o uso de diminutivos: "Usaram o veinho e ele caiu direitinho".
Na quarta-feira passada, quando presidente e vice ficaram frente
a frente, num encontro na Base Aérea de Brasília,
deu-se uma conversa de quarenta minutos. Foi um diálogo afetuoso.
De acordo com o relato de assessores do presidente, Lula pediu ao
vice que evitasse indiscrições durante a interinidade,
mas autorizou-o a continuar falando de juros para platéias
de empresários, com a ressalva de que aliviasse a equipe
econômica. Como Alencar tem se queixado de que não
o ouvem no governo, Lula encarregou-o de coordenar o projeto de
construção da Ferrovia Transnordestina. Em visita
a Salvador na última semana, Alencar criticou os juros altos,
mas também fez elogios ao desempenho do ministro da Fazenda,
Antonio Palocci. Num ambiente assim, fica mais fácil derrubar
a taxa de juros.
Foto Celso Junior/AE
 |
 |
 |
| Lula,
ao discursar no congresso da CUT: no fim, aplausos de pé |
|
"Não
sou idiota, nem desequilibrado"
Na
semana passada, o vice-presidente José Alencar
falou a VEJA sobre as críticas que fez à
equipe econômica. Eis alguns trechos da entrevista:
Veja O que o senhor escutou do presidente
a respeito de suas declarações quando
foi esperá-lo na Base Aérea de Brasília
para retransmitir o cargo?
Alencar Nada. Quem tocou no assunto
fui eu. Peguei no braço de Lula e contei que
havia dado algumas declarações. Sabe qual
foi a reação dele? Disse para mim: "Que
é isso, Alencar, e eu não te conheço?"
Veja
Em vez de criticar o governo em público,
por que o senhor não falou direta e reservadamente
com o presidente, e só com ele?
Alencar Querem passar a impressão
de que eu sou um idiota e desequilibrado por falar abertamente
sobre o assunto. Não sou idiota, nem desequilibrado.
Sou um homem de bem, que paga os impostos em dia e não
tem um só centavo ou alfinete no exterior. Eu
trouxe para o governo a cultura de uma vida dedicada
à empresa. Aprendi a reagir imediatamente quando
um investimento pode dar prejuízo. Encaro o Brasil
como um bem público que deve ser preservado.
Em função dos juros elevados, o país
está encabrestado, não cresce. Nunca houve
tamanha transferência de renda das pessoas que
vivem da produção em direção
ao sistema financeiro nacional e internacional. É
por isso que fico indignado.
Veja O que o senhor faria se em sua
empresa, a Coteminas, um diretor saísse por aí
criticando outro diretor?
Alencar Não podemos tratar de forma
particular questões que são de interesse
nacional. Tudo o que diz respeito ao bem público
deve ser transparente. Só assim, com essa minha
pregação, podemos gerar um debate aceso.
Minha causa é o Brasil, ela é boa, reconheça.
Sou irmão fraterno do Lula. Quanto ao Palocci
(Antonio Palocci, ministro da Fazenda), precisamos
aplaudir todas as medidas dele. Mas há uma pequena
divergência em relação ao momento
de baixar os juros. Meu receio é que se agrave
a recessão e que o país atravesse um período
complicado de dificuldades. Precisamos fazer contas.
Aprendi isso cedo. Meu filho Josué aprendeu a
ler balanço de empresa quando tinha 8 anos de
idade. Só fui presenteá-lo com uma calculadora
quando ele entrou no científico, que hoje se
chama...
Veja
...ensino médio.
Alencar Isso mesmo. Não há
economia capaz de resistir quando um cidadão
precisa pagar 3% ao mês para descontar duplicata,
o que dá mais de 40% ao ano. E o crédito
ao consumidor, então, que é de 150% a
180% ao ano? Outro dia, li numa reportagem que 30% da
renda das pessoas de classe média baixa é
gasta com pagamento de juros. Temos um povo bom, ordeiro
e pacato, mas fico amargurado quando vejo que ele enfrenta
entraves como esse custo de capital. Temos de instruir
as pessoas incautas e interferir na questão dos
juros.
Veja
Interferir de que forma?
Alencar Quando há oligopólio
o governo não deve interferir? Que bem mais valioso
há que o dinheiro? O retorno de um bom negócio,
como a Coteminas, é de 10% a 12%. Quando os bancos
recebem 26,5%, isso significa que recebem 100% do capital
em três anos. Não é possível
manter esse cenário. Eu sou um homem experiente,
as pessoas têm de me ouvir.
|
|
|