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DIOGO
MAINARDI
Menos deus, por favor
"O
Brasil tem deus demais. Tem deus
no futebol, nos vidros dos carros, na
TV,
no rádio, nos hospitais, nas salas de aula,
na reforma agrária, na política.
Em nome
de deus, qualquer um pode enfiar a mão
no bolso dos outros"
Atletas
de Cristo. Eu torço contra. Deveria ser proibido comemorar
um gol mostrando camisetas com mensagens evangélicas. Os
alemães concordam comigo e não permitem o proselitismo
religioso nos campos de futebol. Quem desobedece é punido.
Uma camiseta com um simples "Deus é fiel", ou "Jesus vive
e me ama", ou "100% Jesus", rende uma suspensão equivalente
à de uma cotovelada no septo nasal do adversário.
O atacante brasileiro Cacau, do time do Nuremberg, burlou as regras
do campeonato alemão inscrevendo em sua camiseta um alusivo
"J...". É o mesmo estratagema adotado por fabricantes de
cigarros para anunciar em corridas de Fórmula 1. Cacau equiparou
Deus a um maço de Marlboro. Passei a torcer contra ele. Para
minha felicidade, seu time acaba de ser rebaixado para a segunda
divisão.
Kaká,
como Cacau, também usa todos os meios para difundir sua fé.
Tem uma pulseira com o nome de "Jesus". Sua secretária eletrônica
se despede com um "Deus te abençoa". Seu autógrafo
vem acompanhado pela frase "Deus é fiel". Em sua chuteira
está escrito, novamente, "Deus é fiel", só
um pouquinho menor que o logotipo da Adidas. Quando marca um gol,
ele ergue os braços para o céu e proclama "Deus é
fiel". Kaká é o homem-sanduíche de Deus. Ou
melhor, o homem-sanduíche da Igreja Renascer em Cristo. Algum
tempo atrás, ele bateu a coluna ao mergulhar numa piscina.
Deus, por intermédio da Igreja Renascer, livrou-o de ficar
paraplégico. A Igreja Renascer pertence ao compositor gospel
Estevam Hernandes, autor dos memoráveis versos apocalípticos
"Extra Extra / O mundo acabará / Amanhã de manhã".
Estevam Hernandes, que se definia como bispo, elevou-se humildemente
à condição de apóstolo. Um dia ele ainda
vira santo. Fernando Henrique Cardoso concedeu-lhe catorze rádios
FM e dois canais de TV, mas nas últimas eleições
ele pediu votos para Lula. Até o ano passado respondia a
mais de cinqüenta processos na Justiça, juntamente com
sua mulher, a bispa Sonia. Torço contra Kaká. Vejo
com satisfação que seu futebol piora a cada dia que
passa.
Os
alemães implicam com os Atletas de Cristo porque acreditam
que a ostentação de um deus pode ofender aqueles que
cultuam outros deuses e aqueles que não cultuam deus algum.
A legislação alemã é muito restritiva
em relação às religiões mais agressivas
na arregimentação de fiéis. A distância
que separa conversão e coerção, para eles,
é mínima. A Bélgica é ainda mais severa.
Os grupos religiosos incluídos na categoria de seitas sofrem
uma série de limitações, dos adventistas do
sétimo dia aos mórmons, da Opus Dei à Associação
Cristã de Moços. O país mais rigoroso no tratamento
reservado aos cultos religiosos, porém, é a França.
É o contrário do Brasil. O Brasil tem deus demais.
Tem deus no futebol, nos vidros dos carros, na TV, no rádio,
nos hospitais, nas salas de aula, na reforma agrária, na
política. Qualquer um pode atribuir-se milagres em nome de
deus. E, em nome de deus, qualquer um pode enfiar a mão no
bolso dos outros. Precisamos de menos deus.
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