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EM
FOCO: Gustavo Franco
Existe
almoço grátis?
"Os
debates públicos entre membro do
governo sobre juros e câmbio costumam
gerar decisões inconsistentes e crises
desnecessárias"
A máxima segundo a qual inexiste "almoço grátis"
fornece uma síntese intuitiva e poderosa do que as faculdades
de economia ensinam aos profissionais que formam. Como não
é possível ficar com o almoço e com o dinheiro
simultaneamente, o sujeito precisa escolher, os recursos são
limitados e a fome é sempre muito grande. Vista desse ângulo,
a economia é assunto muito simples.
Não obstante, os economistas são mesmo diferentes
dos outros seres: quando enxergam notas de 100 dólares no
chão, recusam-se a pegar sob a alegação de
que, se fossem verdadeiras, alguém já as teria levado.
Geralmente não acreditam em curas milagrosas nem em discos
voadores, e não costumam contar com muita popularidade em
geral, e entre os políticos em particular, e especialmente
entre vice-presidentes (Marco Maciel à parte).
Ilustração Ale Setti
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Nessa momentosa controvérsia recente, entre o senhor vice-presidente
e a turma da área econômica, o leitor pode ver-se instado
a indagar o que é mais relevante para o progresso do Brasil:
os economistas ou os vice-presidentes. Estes, na medida em que dispõem
de moradia (no Palácio do Jaburu), comida e roupa lavada
por conta do contribuinte, podem desenvolver uma tendência
a discordar dos economistas no quesito refeições gratuitas.
O fato é que aos economistas cabe a ingrata tarefa de informar
os políticos sobre o que eles não podem fazer, coisas
como almoçar e não pagar a conta, entre outras piores.
São incontáveis os economistas no governo que eram
conhecidos como "O Satânico Dr. No".
No mérito, é preciso dizer que os economistas não
fazem por mal, não mantêm os juros elevados por vilania
ou sadismo. Diversas pessoas de bom coração já
passaram pelo BC e os juros estão altos há muitos
anos. Existem razões práticas e condições
objetivas que não nos deixam alternativa: baixar os juros
não é um ato de vontade de um político audaz.
Os que tentaram fracassaram e foram para casa tendo prejudicado
as pessoas às quais gostariam de agradar.
Alguns séculos de estudo dessa ingrata disciplina nos ensinaram
que existe uma relação positiva entre crescimento
e inflação, que os juros altos reduzem o crescimento,
mas também a inflação, e que a desvalorização
cambial melhora o superávit comercial, mas simultaneamente
reduz o poder de compra dos salários e provoca inflação.
O leitor que, como eu, gostaria de ver uma fórmula simples
de câmbio e juros que produzisse crescimento sem inflação,
com aumento de salário, melhoria na distribuição
de renda e megassuperávits comerciais, tudo ao mesmo tempo,
pode perfeitamente entender, diante das premissas restritivas acima,
as razões pelas quais os profissionais desses assuntos dizem
que não é possível almoçar sem pagar.
Mais recentemente falharam as tentativas de glamorizar um suposto
debate no âmbito do qual haveria teorias e fórmulas
"alternativas", conhecidas dos economistas do PT, para romper esses
dilemas, sendo que os governos "neoliberais" estariam "interditando
o debate" e impondo um "pensamento único" e errado. Mais
ou menos como o governo americano, que supostamente esconde evidências
de vida extraterrestre.
Hoje o PT é governo, e onde estão as idéias
alternativas? E os discos voadores escondidos? Tudo o que se vê
é uma reafirmação bem-comportada de que não
existe refeição gratuita e de que as escolhas são
mesmo difíceis.
Interessante agora é notar que o ataque às leis econômicas
se despiu de qualquer disfarce ideológico: o senhor vice-presidente
não tem um programa macroeconômico alternativo, e o
que contesta é o julgamento de profissionais que estudaram
o assunto por muitos anos e estão na área econômica
a exercer a profissão para a qual foram treinados a vida
inteira nas melhores escolas. Em princípio, todos estão
bem-intencionados e querem o bem do Brasil, mas a experiência
mostra que os debates públicos entre membros do governo sobre
juros e câmbio costumam gerar decisões inconsistentes
e crises desnecessárias.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ
e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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