Edição 1806 . 11 de junho de 2003

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CARTA AO LEITOR
Crise sem conteúdo

Muito alarde se fez na semana passada com o fato de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter sido recebido com vaias de uma minoria de sindicalistas presentes ao congresso da CUT, a central sindical irmã siamesa do PT. O episódio serviu para explicitar duas coisas. A primeira é que o presidente está na linha de frente pela aprovação das reformas da Previdência e do sistema tributário, cuja defesa ele fez diante de uma platéia hostil à idéia, mesmo tendo sido sua claque cativa durante anos. A segunda é que não tem substância a atmosfera de crise política que o Brasil vem respirando nos últimos dias, em torno das políticas econômicas do governo. Por sua leveza, a crise e as vaias serão esquecidas porque, no essencial, o país está indo na direção correta – mesmo que mais lentamente do que se poderia desejar. Numa ótica mais rigorosa, que leve em conta o contexto dos países vizinhos e o passado do Brasil, não se poderia sequer chamar de crise as turbulências da semana passada em torno das taxas de juros, uma questão alavancada pelo vice-presidente José Alencar, o novo Itamar Franco do Planalto.

O risco Brasil vem caindo, o dólar está com tendência de queda, a inflação está controlada. O desemprego, muito alto, é um problema que não foi inventado pelo governo atual. Mesmo quanto aos juros paralisantes da economia, o país já conheceu mais altos no passado recente. Crise é o que viveu a Argentina no fim de 2001, quando teve cinco presidentes da República num período de doze dias. Crises foram as que sacudiram de verdade o Brasil e que levaram um presidente, Getúlio Vargas, ao suicídio, em 1954, e outro, João Goulart, ao exílio, em 1964, para não falar da deposição de um terceiro, Fernando Collor, em 1992. Em uma única década, a de 80, o Brasil faliu duas vezes. O governo José Sarney decretou uma moratória que cortou e, mais tarde, encareceu de forma brutal o crédito externo ao Brasil, efeitos que são sentidos até hoje. Mesmo os oito anos de progresso institucional de Fernando Henrique Cardoso foram marcados pela estagnação econômica. À luz de uma história recente tão dura, só uma crise de oportunismo político justifica cobrar "crescimento já" do governo Lula.

 
 
 
 
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