|
Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
A outra reforma
universitária
"A grande reforma do ensino
superior é a
reforma do ensino fundamental e do
médio"
Ilustração Ale Setti
 |
Os jornais denunciam que o Brasil se atrasou no seu ensino superior
e que tal ou qual país está à nossa frente.
As estatísticas mostram aqui uma porcentagem de matrículas
no ensino superior de 9%, em contraste com taxas acima de 30% para
o Chile, Peru e Argentina, sem falar nos Estados Unidos, com 80%.
No mesmo fôlego, fala-se também de trinta candidatos
por vaga, sugerindo uma oferta estrangulada. Mas é preciso
entender o mundo, antes de querer reformá-lo. Raramente receitaremos
os remédios certos se o diagnóstico estiver errado.
Os 9% de matrícula no ensino superior
só mostram a metade dos alunos, pois correspondem à
taxa líquida, isto é, aos alunos que estão
cursando o superior na idade esperada. Falta contar os alunos mais
velhos que voltaram a estudar. Com eles, a taxa (bruta) salta para
20% (baixa, mas já próxima da de alguns países
semelhantes ao nosso).
Tampouco a relação candidato/vaga
no ensino público demonstra a falta de vagas, pois está
inflada pelos alunos que fazem várias vezes o mesmo vestibular
nos cursos mais cobiçados. Igualmente, um aluno que faz cinco
vestibulares entra nas estatísticas como cinco candidatos.
E, mesmo nas universidades públicas, há cursos com
mais vagas do que candidatos. As particulares pedem mais vagas do
que precisam, com medo de ver negados os pedidos e para não
ter de voltar ao MEC. Daí a sobra aparente. Na verdade, o
que sobra não são vagas, mas licenças para
crescer, pois não há nem professores nem espaços
ociosos. Em conclusão, o número total de vagas não
mede nada.
O que interessa é a transição
entre o ensino médio e o superior, isto é, a proporção
de graduados do ensino médio absorvidos pelo superior. Seria
correta a acusação de atrofia no ensino superior se
houvesse um estreitamento brusco nessa transição,
mostrando muitos alunos potenciais sendo barrados pelo gargalo do
ensino superior.
Mas não é assim. No início
da década de 90, havia cerca de oito alunos entrando no ensino
superior para cada dez formados no ensino médio. Era uma
taxa de transição mais alta do que a dos Estados Unidos.
Somente com a explosão do ensino médio quase
triplicado a partir de 1995 é que chegamos a uma situação
em que de cada dois formados um entra no ensino superior. Essa é
a taxa usual nos países industrializados.
Historicamente, o entupimento do ensino fundamental
fez empacar o ensino médio. Sem "matéria-prima", o
ensino superior não podia crescer. Quando o ensino fundamental
se expandiu, o médio teve mais alunos e passou a alimentar
o crescimento do superior.
Ou seja, o ensino superior só poderá
crescer mais e ter o porte que apresenta em outros países
mais avançados se for abastecido por mais alunos se formando
no ensino médio. Para tanto, o ensino médio precisa
de mais alunos se formando no fundamental. Não é possível
inventar alunos para entrar no superior. Seu crescimento é
bloqueado pelos níveis inferiores.
O mesmo raciocínio é válido
com relação à qualidade. Sabemos pelas pesquisas
de valor adicionado (realizadas em Minas Gerais) que 80% das pontuações
no Provão são explicadas pelo que os alunos sabiam
ao entrar no ensino superior. Ou seja, dos resultados explicados
estatisticamente, somente 20% se devem à excelência
da faculdade cursada. Se quisermos qualidade no ensino superior,
80% das mudanças devem focalizar os níveis que vêm
antes. Por conseqüência, as políticas de eqüidade
no vestíbulo do superior são tardias e quase inócuas.
A devastação dos mais pobres já foi feita,
pela má qualidade das escolas. Nem os ricos escapam. Provas
internacionais (Pisa) nos mostram que nossa elite entende menos
o que lê do que filhos de operários americanos.
Portanto, os que reclamam da matrícula
reduzida e da falta de qualidade do ensino superior deveriam se
preocupar com os níveis que vêm antes. No fim das contas,
grande parte dos problemas do ensino superior em particular
seu pequeno porte e a sua fraca qualidade se explica pelas
deficiências dos níveis que o abastecem de alunos.
A grande reforma no ensino superior é
a melhoria do fundamental e do médio. "Tudo começa
com uma boa base. O edifício logo terá rachaduras
se os alicerces não forem sólidos" (Nizan Ganjevi,
Azerbaijão, século XII).
Claudio de Moura Castro
é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
|