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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Dois mestres
da sexologia
As diferenças e os pontos comuns
entre
Severino Cavalcanti e Sue Johanson
Imaginem-se Severino Cavalcanti e Sue Johanson
reunidos, por algum capricho do acaso, na mesma mesa de bar, em
poltronas vizinhas do avião ou no mesmo banco de praça.
Quem os visse poderia julgar que formavam um casal. Os dois têm
mais ou menos a mesma idade, a mesma aparência de bondosos
vovós e o mesmo gosto conservador para se vestir. Se eles
permanecessem calados, de modo a não se trair pelo idioma
diferente, e suficientemente perto um do outro, para dar a impressão
de que estavam juntos, quem não os conhecesse apostaria com
segurança sim, trata-se de um casal, um harmonioso
e simpático casal de setentões. Na verdade, como se
sabe, eles não têm nada a ver um com o outro. Mas algo
os une: ambos gostam de dar aulas sobre sexo.
Sue Johanson, para quem não está
lembrado ou não tem freqüentado os canais a cabo da
TV, é a senhora canadense que, com a naturalidade de quem
expõe as variedades da banana e a singularidade da jabuticaba,
e o ar de Dona Benta a contar histórias a Pedrinho e Narizinho,
discorre, em seu prestigiado programa, levado ao ar em vários
países, sobre temas como masturbação, ponto
G, sodomia e felação. Ela dispõe, numa gaveta
ao lado, de instrumentos, alguns imitando órgãos genitais,
dos quais às vezes saca para ilustrar graficamente as lições.
Severino não chega a tanto. É de outra índole,
outro ambiente, outra formação e, como se tudo isso
não bastasse, falta-lhe erudição na matéria.
Mas também arrisca suas aulinhas. Na semana passada, durante
uma sabatina promovida pelo jornal Folha de S.Paulo, ensinou
que a mulher deve chegar ao casamento "virgem, pura". E o homem?
"O homem, às vezes, quer aprender como fazer o serviço."
Deixemos claras as coisas, para evitar mal-entendidos.
Sue Johanson e Severino Cavalcanti são freqüentemente
instados a falar sobre sexo (ou falam em sexo mesmo sem ser instados),
mas partem de pontos de vista opostos. Johanson é produto,
e porta-voz, de uma tendência que força as portas da
libertação sexual até os limites últimos.
Severino milita no time adversário. Sua causa não
é a abertura, mas a fechadura. Johanson é, pelo menos
em teoria, uma gourmet do sexo. Ela o aborda em toda a sua diversidade
e o quer assíduo e variado. Já Severino defende um
sexo estrito na forma e limitado ao mínimo necessário
no uso. Diante das lições de Johanson, o presidente
da Câmara não apenas enrubesceria, mas simplesmente,
muitas vezes, não saberia do que ela está falando.
Os dois não podiam ser mais diferentes,
mas se encontram num ponto a capacidade de chocar. Sue Johanson
choca não só pelos temas, mas pelo jeito espontâneo
e de coisa-como-outra-qualquer com que os aborda. Severino choca
não só por sua rústica filosofia sexual, mas
pela desenvoltura com que a apregoa. Quando ele defendeu que o homem
tem de aprender a "fazer o serviço", Danuza Leão,
uma das entrevistadoras do evento da Folha, foi ao ponto,
inteligente como sempre: "Se a mulher tem de ser virgem, o homem
vai fazer com quem?". Severino respondeu: "Com quem estiver disposta
a ser professora". (Já se vê que a equação
não fecha. Ou bem a tese do presidente da Câmara é
um incentivo à prostituição, ao adultério
e à bandalheira, ou bem supõe a criação
de um corpo de reais professoras que, com seriedade e profissionalismo,
se incumbam do mister. Nesta última hipótese, seria
essa uma atividade reconhecida e regulamentada pelo Estado? Um órgão
público se encarregaria de supervisioná-la? E os diretores
desse órgão seriam indicados por parlamentares? Huumm...
Mais uma oportunidade de indicar diretores... Vai ver, a equação
fecha, sim.)
Questionado, no mesmo evento, se ele próprio
tinha casado virgem, Severino abateu a virgindade, em seu caso pessoal,
pela metade. "Mais ou menos", disse. A resposta abre mais campo
para a lúbrica curiosidade do que se ele alegasse uma virgindade
por inteiro. Esse negócio de fazer pela metade... Sue Johanson
teria muito a especular sobre o assunto. Em outro momento, Severino
recusou-se a responder se era contra o uso da camisinha. "Você
está sendo muito indiscreto", disse ao autor da pergunta,
o jornalista Fernando Rodrigues. E seguiu com um comentário
desconcertante: "Com 74 anos, não posso ser testemunha em
nenhum desses casos". Testemunha? Que casos? E que têm os
74 anos com isso? Insondáveis são os mistérios
da mente do presidente da Câmara.
Não é de hoje que Severino gosta
de enveredar por assuntos sexuais. Ficou famosa a pergunta que,
ainda simples deputado, fez uma vez a um militante gay: "O senhor
é homossexual ativo ou passivo?". Se a questão da
atividade/passividade fosse apresentada a Sue Johanson, resultaria
numa rica resposta, e Severino, se é sincero seu interesse
no assunto, teria muito a aprender. Pensando bem, é uma pena
que os dois nunca tenham dividido a mesma mesa de bar. Melhor ainda
se fossem reunidos na mesma sabatina da Folha ou no mesmo
programa de televisão. Ia render um diálogo inesquecível.
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