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Cinema Chá,
simpatia e aborto Imelda Staunton brilha
como uma dona-de-casa que, no pós-guerra, só quer ajudar
 Isabela
Boscov
Divulgação
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como Vera, tem seu segredo revelado: uma desolação sem atenuantes |
Com
o cabelo grisalho, os sapatos pesados e a voz quase infantil com tanta solicitude,
a magnífica atriz Imelda Staunton é, em O Segredo de Vera
Drake (Vera Drake, Inglaterra/França/Nova Zelândia, 2004),
o estereótipo da inglesa de classe trabalhadora na Londres empobrecida
do pós-guerra. E não por acaso: como em seu filme mais famoso, Segredos
e Mentiras, o que o diretor Mike Leigh pretende no drama que estréia
nesta sexta-feira no país é mostrar que, sob a superfície
de seus personagens, existem subterrâneos imprevisíveis. Vera trabalha
como faxineira, embala lâmpadas numa fábrica e cuida do marido e
dos filhos, mas sempre tem tempo para quem mais precise dela, conhecido ou não.
Vera é vista, no início do filme, preparando incontáveis
xícaras de chá e subindo e descendo escadas, com energia inesgotável,
a fim de distribuir sua atenção. Para ela, realizar abortos em mulheres
que não podem pagar a uma clínica clandestina o aborto só
seria regularizado na Inglaterra em 1967 é uma ramificação
natural do ato de estender a caridade a quem necessita dela. Vera não aceita
dinheiro (embora a amiga que cuida da sua agenda explore as meninas), é
discreta e é rápida. Ninguém sabe seu nome e ela não
sabe o nome de ninguém até que uma das suas "pacientes" quase
morre e o sigilo é quebrado.
O método empregado pela protagonista, de inundar o útero com água
e sabão, é um desses horrores que respondem pelos óbitos
associados a abortos clandestinos, e Mike Leigh certamente não usa seu
filme para fazer a defesa desse tipo de prática. O assunto de Vera Drake
é, na verdade, o vácuo entre o que se faz e o que se pode
admitir, entre a lei e a realidade, e também entre a inocência e
a culpa. Quando a polícia bate à porta de Vera, ela desaba sob o
peso da vergonha de seus familiares (que, como os atores que os interpretam, até
ali não sabiam do segredo da personagem) e da desilusão de saber
que o que julgava ser bondade quase resultou em assassinato.
Leigh divide seu filme em duas metades distintas, separadas por essa cena. Na
primeira, tem-se uma crônica minuciosa da vida de escassez material e emocional
na Inglaterra de 1950, silenciosamente ocupada em se recobrar do trauma da II
Guerra e na qual a solidariedade, representada por Vera, é crucial.
A segunda metade é de uma desolação atroz e sem atenuantes:
privada de sua missão, a protagonista atravessa uma morte simbólica
da qual provavelmente só sairá quando vier a outra, a real. E, privados
de Vera, os que a cercam perdem o único elo palpável entre o mundo
duro no qual vivem e aquele outro, melhor, ao qual esperavam chegar. |