Edição 1904 . 11 de maio de 2005

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Cinema
Chá, simpatia e aborto

Imelda Staunton brilha como uma
dona-de-casa que, no pós-guerra,
só quer ajudar


Isabela Boscov

 

Divulgação
Imelda, como Vera, tem seu segredo revelado: uma desolação sem atenuantes

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Com o cabelo grisalho, os sapatos pesados e a voz quase infantil com tanta solicitude, a magnífica atriz Imelda Staunton é, em O Segredo de Vera Drake (Vera Drake, Inglaterra/França/Nova Zelândia, 2004), o estereótipo da inglesa de classe trabalhadora na Londres empobrecida do pós-guerra. E não por acaso: como em seu filme mais famoso, Segredos e Mentiras, o que o diretor Mike Leigh pretende no drama que estréia nesta sexta-feira no país é mostrar que, sob a superfície de seus personagens, existem subterrâneos imprevisíveis. Vera trabalha como faxineira, embala lâmpadas numa fábrica e cuida do marido e dos filhos, mas sempre tem tempo para quem mais precise dela, conhecido ou não. Vera é vista, no início do filme, preparando incontáveis xícaras de chá e subindo e descendo escadas, com energia inesgotável, a fim de distribuir sua atenção. Para ela, realizar abortos em mulheres que não podem pagar a uma clínica clandestina – o aborto só seria regularizado na Inglaterra em 1967 – é uma ramificação natural do ato de estender a caridade a quem necessita dela. Vera não aceita dinheiro (embora a amiga que cuida da sua agenda explore as meninas), é discreta e é rápida. Ninguém sabe seu nome e ela não sabe o nome de ninguém – até que uma das suas "pacientes" quase morre e o sigilo é quebrado.

O método empregado pela protagonista, de inundar o útero com água e sabão, é um desses horrores que respondem pelos óbitos associados a abortos clandestinos, e Mike Leigh certamente não usa seu filme para fazer a defesa desse tipo de prática. O assunto de Vera Drake é, na verdade, o vácuo – entre o que se faz e o que se pode admitir, entre a lei e a realidade, e também entre a inocência e a culpa. Quando a polícia bate à porta de Vera, ela desaba sob o peso da vergonha de seus familiares (que, como os atores que os interpretam, até ali não sabiam do segredo da personagem) e da desilusão de saber que o que julgava ser bondade quase resultou em assassinato.

Leigh divide seu filme em duas metades distintas, separadas por essa cena. Na primeira, tem-se uma crônica minuciosa da vida de escassez material e emocional na Inglaterra de 1950, silenciosamente ocupada em se recobrar do trauma da II Guerra – e na qual a solidariedade, representada por Vera, é crucial. A segunda metade é de uma desolação atroz e sem atenuantes: privada de sua missão, a protagonista atravessa uma morte simbólica da qual provavelmente só sairá quando vier a outra, a real. E, privados de Vera, os que a cercam perdem o único elo palpável entre o mundo duro no qual vivem e aquele outro, melhor, ao qual esperavam chegar.

 
 
 
 
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