Edição 1904 . 11 de maio de 2005

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Cinema
A longa noite do terror

A esquerda sai condenada do filme
de Bellocchio sobre o seqüestro
e assassinato de Aldo Moro


Mario Sabino

 

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A personagem Chiara, com o intelectual-terrorista que se crê "vanguarda revolucionária": autômatos da ideologia

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A agitação esquerdista que sacudiu a Europa Ocidental em 1968 teve seu capítulo mais longo e dramático não na França, onde se originou, mas na Itália. Entre os italianos, 1968 foi uma sombra que se projetou até o início da década de 80. Das passeatas com slogans românticos, uma parte dos estudantes e intelectuais que as protagonizavam logo passaria a empreender ações terroristas, com o objetivo de derrubar a "democracia burguesa" e implantar a excrescência marxista conhecida como "ditadura do proletariado". Nas organizações que se formaram, de operários, mesmo, havia bem poucos, é claro, visto que a maioria deles andava muito satisfeita com o padrão de vida alcançado sob o capitalismo. Mas na ótica distorcida dos terroristas, que se consideravam vanguarda revolucionária, era só uma questão de tempo para que os proletários se dessem conta de que todas aquelas conquistas materiais obtidas depois da II Guerra eram ilusórias. De que cabia ao operariado o papel de "classe redentora" – a que colocaria um ponto final na história. Para complicar ainda mais esse quadro, a extrema direita, a pretexto de contrapor-se ao que julgava ser a bolchevização da Itália, também gerou bandos que lançavam mão do terror.

 

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Roberto Herlitzka, como Aldo Moro: a lógica banal desmontando os lugares-comuns esquerdistas

Das dezenas de organizações esquerdistas surgidas nesse contexto, a mais estruturada era a que levava o nome de Brigadas Vermelhas. Criadas em 1969, com o objetivo de impor aos italianos um regime baseado no que seria um leninismo depurado, as Brigadas Vermelhas perpetraram um sem-número de atentados, dos quais o mais audacioso foi o seqüestro e assassinato de Aldo Moro, presidente do então maior partido do país, a Democracia Cristã, em 1978. Esse episódio sinistro é o tema de Bom Dia, Noite (Buongiorno, Notte, 2003, Itália, em cartaz em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília), do diretor Marco Bellocchio. O filme é bom. Baseia-se no livro da única mulher a participar do seqüestro, Anna Laura Braghetti. Em Bom Dia, Noite, ela transforma-se na personagem Chiara, interpretada por Maya Sansa. No cativeiro, Chiara entreouve com espanto e comiseração os diálogos de Moro (Roberto Herlitzka) com seus algozes, em que o primeiro desmonta com uma lógica banal os disparates ideológicos que lhe são despejados. A percepção do absurdo da situação em que ela se meteu é reforçada também pelas manifestações a que assiste nos noticiários televisivos e pelas conversas mantidas com um jovem e lúcido autor teatral, na biblioteca pública em que trabalha. Chiara constata, enfim, que nem o proletariado italiano está às portas da insurreição nem os estudantes e intelectuais brigadistas constituem uma vanguarda revolucionária ou algo que o valha. São, simplesmente, uns autômatos que se comprazem em repetir lugares-comuns marxistas para justificar seus atos bárbaros.

O cinema político desenvolveu-se no regaço da esquerda. Primeiro, como instrumento de propaganda. Depois, para denunciar a exploração capitalista. Com delicadeza, Bellocchio inverteu essa mão – em seu filme, é a esquerda, incorporada no desvario marxista, que se vê na condição de ré de um tribunal no qual o juiz é o humanismo e o promotor, a sensatez. Talvez tenha faltado explicar que a verdadeira intenção das Brigadas Vermelhas, ao seqüestrar Aldo Moro, era frustrar o acordo que o presidente da Democracia Cristã firmaria com o Partido Comunista (o "compromisso histórico"). Acordo esse que, ao pretender dar à Itália um governo de coalizão, poderia soldar a fratura entre direita e esquerda que paralisava a política italiana – e que proporcionou o surgimento de grupos como as Brigadas Vermelhas. Tanto que o corpo de Moro, crivado por onze balas, foi deixado dentro de um carro na metade do caminho entre a sede do Partido Comunista e a da Democracia Cristã, em Roma, como recado e deboche. Mas essa lacuna de Bom Dia, Noite é recompensada por suas qualidades.

 
 
 
 
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