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Cinema A
longa noite do terror A esquerda sai condenada
do filme de Bellocchio sobre o seqüestro e assassinato de Aldo Moro
 Mario
Sabino Divulgação
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personagem Chiara, com o intelectual-terrorista que se crê "vanguarda revolucionária":
autômatos da ideologia |
A
agitação esquerdista que sacudiu a Europa Ocidental em 1968 teve
seu capítulo mais longo e dramático não na França,
onde se originou, mas na Itália. Entre os italianos, 1968 foi uma sombra
que se projetou até o início da década de 80. Das passeatas
com slogans românticos, uma parte dos estudantes e intelectuais que as protagonizavam
logo passaria a empreender ações terroristas, com o objetivo de
derrubar a "democracia burguesa" e implantar a excrescência marxista conhecida
como "ditadura do proletariado". Nas organizações que se formaram,
de operários, mesmo, havia bem poucos, é claro, visto que a maioria
deles andava muito satisfeita com o padrão de vida alcançado sob
o capitalismo. Mas na ótica distorcida dos terroristas, que se consideravam
vanguarda revolucionária, era só uma questão de tempo para
que os proletários se dessem conta de que todas aquelas conquistas materiais
obtidas depois da II Guerra eram ilusórias. De que cabia ao operariado
o papel de "classe redentora" a que colocaria um ponto final na história.
Para complicar ainda mais esse quadro, a extrema direita, a pretexto de contrapor-se
ao que julgava ser a bolchevização da Itália, também
gerou bandos que lançavam mão do terror. Divulgação
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Herlitzka, como Aldo Moro: a lógica banal desmontando os lugares-comuns esquerdistas
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Das dezenas de organizações
esquerdistas surgidas nesse contexto, a mais estruturada era a que levava o nome
de Brigadas Vermelhas. Criadas em 1969, com o objetivo de impor aos italianos
um regime baseado no que seria um leninismo depurado, as Brigadas Vermelhas perpetraram
um sem-número de atentados, dos quais o mais audacioso foi o seqüestro
e assassinato de Aldo Moro, presidente do então maior partido do país,
a Democracia Cristã, em 1978. Esse episódio sinistro é o
tema de Bom Dia, Noite (Buongiorno, Notte, 2003, Itália,
em cartaz em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília), do diretor Marco
Bellocchio. O filme é bom. Baseia-se no livro da única mulher a
participar do seqüestro, Anna Laura Braghetti. Em Bom Dia, Noite,
ela transforma-se na personagem Chiara, interpretada por Maya Sansa. No cativeiro,
Chiara entreouve com espanto e comiseração os diálogos de
Moro (Roberto Herlitzka) com seus algozes, em que o primeiro desmonta com uma
lógica banal os disparates ideológicos que lhe são despejados.
A percepção do absurdo da situação em que ela se meteu
é reforçada também pelas manifestações a que
assiste nos noticiários televisivos e pelas conversas mantidas com um jovem
e lúcido autor teatral, na biblioteca pública em que trabalha. Chiara
constata, enfim, que nem o proletariado italiano está às portas
da insurreição nem os estudantes e intelectuais brigadistas constituem
uma vanguarda revolucionária ou algo que o valha. São, simplesmente,
uns autômatos que se comprazem em repetir lugares-comuns marxistas para
justificar seus atos bárbaros.
O cinema político desenvolveu-se no regaço da esquerda. Primeiro,
como instrumento de propaganda. Depois, para denunciar a exploração
capitalista. Com delicadeza, Bellocchio inverteu essa mão em seu
filme, é a esquerda, incorporada no desvario marxista, que se vê
na condição de ré de um tribunal no qual o juiz é
o humanismo e o promotor, a sensatez. Talvez tenha faltado explicar que a verdadeira
intenção das Brigadas Vermelhas, ao seqüestrar Aldo Moro, era
frustrar o acordo que o presidente da Democracia Cristã firmaria com o
Partido Comunista (o "compromisso histórico"). Acordo esse que, ao pretender
dar à Itália um governo de coalizão, poderia soldar a fratura
entre direita e esquerda que paralisava a política italiana e que
proporcionou o surgimento de grupos como as Brigadas Vermelhas. Tanto que o corpo
de Moro, crivado por onze balas, foi deixado dentro de um carro na metade do caminho
entre a sede do Partido Comunista e a da Democracia Cristã, em Roma, como
recado e deboche. Mas essa lacuna de Bom Dia, Noite é recompensada
por suas qualidades. |