Edição 1904 . 11 de maio de 2005

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Cinema
Existe atriz infalível?

Como – e por que – a mística da "grande
dama" da interpretação se formou em
torno de Fernanda Montenegro


Isabela Boscov


Divulgação
Fernanda em Casa de Areia: sem humor – e sem roteiro

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A grande dama, o monstro sagrado, a melhor de todas: seja qual for a ocasião, pelo menos uma dessas alcunhas vem sempre anexada ao nome de Fernanda Montenegro, como se fizesse parte dele. Mas pode existir uma atriz infalível? Na sexta-feira, a atriz volta ao cartaz nos cinemas com Casa de Areia (Brasil, 2005). Dirigido pelo genro de Fernanda, Andrucha Waddington, o filme traz a atriz e sua filha, Fernanda Torres, como sucessivas gerações de mãe e filha isoladas nos areais dos Lençóis Maranhenses entre as décadas de 10 e 70 – e demonstra que mesmo intérpretes de talento não estão livres de tatear quando lhes falta um roteiro de substância. A ausência mais sentida nos vários papéis que Fernanda desempenha em Casa de Areia é a do seu humor. Além de ser um traço marcante de sua personalidade civil, ele é quase sempre usado pela atriz como uma espécie de fiel da balança – um dado dissonante que ora acentua a dramaticidade de suas personagens, ora abate a solenidade delas, quando não as duas coisas ao mesmo tempo. É esse humor que separa interpretações superiores, como as de Central do Brasil, O Outro Lado da Rua e Redentor (este, a estréia na direção de longas do filho da atriz, Claudio Torres), de trabalhos menores, como o de Casa de Areia. E Fernanda, como toda atriz – de qualquer gradação –, responde com mais potência a materiais que a desafiem a se superar ou se renovar.

Fazer ressalvas a Fernanda é quase um tabu. Não que ela estimule abertamente o culto a sua pessoa. Ao contrário: a questão, justamente, é que Fernanda se tornou uma das reservas artísticas e morais do país – e elas, como se sabe, não são numerosas. Fernanda é, por exemplo, a recordista em prêmios nacionais e estrangeiros – entre os quais evidentemente se destaca a indicação ao Oscar de atriz, a única conquistada pelo Brasil na categoria nos mais de setenta anos da cerimônia. Numa cultura cheia de complexos quanto a sua própria validade, esse aval adquire um peso esmagador. E talvez conte mais ainda por Fernanda cultivar a modéstia num país que valoriza (do seu jeito, bem entendido) esse traço de caráter. "Já errei muito. Mas, como não morri por causa disso, nem me lembro de que erros foram esses. Toco em frente", diz Fernanda.

Por coincidência ou senso de oportunidade, Fernanda sempre teve o momento a seu favor. Desde sua estréia, no início dos anos 50, foi capaz de se destacar em meio a uma geração excepcional, que incluía Ítalo Rossi, Paulo Autran, Leonardo Villar, Bibi Ferreira e Raul Cortez. Quando Cacilda Becker morreu, em 1969, ela era a candidata natural a sucedê-la, na imaginação do público e da crítica, como a grande dama do teatro brasileiro. "Esse título, o de 'grande dama', é como um cetro que vai sendo passado de geração a geração", teoriza o crítico teatral Sábato Magaldi. O crítico enumera entre os créditos de Fernanda para esse cetro sua folha corrida no teatro, rádio, televisão e cinema, e a escolha de papéis que a valorizem – "Ela nunca tentou bancar a mocinha ingênua". Segundo Magaldi, no palco a atriz leva um papel às últimas conseqüências – uma das razões, por exemplo, para o sucesso da montagem de As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, que no início da década de 80 atraiu mais de meio milhão de interessados em ver Fernanda como uma empresária implacável que desmorona ao viver uma paixão homossexual.

Fernanda foi a atriz certa no lugar certo quando, em princípio de carreira, arrumou emprego no rádio, então um dos pilares da dramaturgia nacional. Voltou a sê-lo no teatro, que até os anos 70 viveu um período de grande fermentação e popularidade. Nos anos 80, quando as novelas é que viraram exemplo de vigor dramatúrgico, lá estava a atriz novamente. Nos seus termos: Fernanda até hoje negocia seus trabalhos (e cachês, o que leva seus companheiros a sussurrar que ela ama a arte, mas não só ela) caso a caso, e diretamente com a cúpula da emissora, um status a que ela chegou por meio da resistência – rejeitou oferta atrás de oferta, até que elas viessem na configuração que julgava ideal. É sintomático, também, que Central do Brasil, o filme que devolveu a auto-estima ao cinema nacional, seja protagonizado por Fernanda, que hoje se dedica mais à tela que ao palco. "Não sei se tive muita sorte ou se trabalhei muito. Ambas as coisas, provavelmente", diz ela.

A atriz tem sorte e tem competência, e tem algo mais: filhos que se aventuraram de forma bem-sucedida pelas mesmas áreas que ela e o marido, Fernando Torres. Nada intimida mais do que um monstro sagrado. Mas um monstro sagrado que é também mãe de uma amiga ou namorada é um monstro potencialmente acessível, e muito atraente. Fernanda diz que nunca chegou a refletir sobre o papel que os filhos desempenharam nas novas vidas de sua carreira. Mas as evidências a favor deles não são desprezíveis, dada a quantidade de jovens cineastas, diretores teatrais, atores e autores com que Fernanda trabalhou desde o momento em que ela própria chegou à meia-idade e os filhos começaram seus vôos-solo.

Na opinião da atriz, os superlativos que costumam acompanhá-la são, além de uma bobagem, um exercício de imaginação. "Fernanda é um encosto, que eu recebo lá na hora, e é a mulher que tira fotos e dá entrevistas. Eu sou a Arlette Pinheiro Monteiro Torres", disse ela a VEJA, referindo-se ao nome que consta de sua identidade. "Tenho vida pessoal e tenho também muita dor de barriga quando aceito um novo papel. Isso de 'grande dama' é coisa do século XIX, de atriz sozinha no meio do palco, com uma luz divina batendo nela", afirma. Verdadeiro ou artificial, o posto é de Fernanda Montenegro – e continua sem sucessora aparente.

 
 
 
 
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