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Cinema Existe
atriz infalível? Como e por que
a mística da "grande dama" da interpretação se formou
em torno de Fernanda Montenegro 
Isabela Boscov
Divulgação  |
| Fernanda em Casa de Areia: sem humor e
sem roteiro |
A grande
dama, o monstro sagrado, a melhor de todas: seja qual for a ocasião, pelo
menos uma dessas alcunhas vem sempre anexada ao nome de Fernanda Montenegro, como
se fizesse parte dele. Mas pode existir uma atriz infalível? Na sexta-feira,
a atriz volta ao cartaz nos cinemas com Casa de Areia (Brasil, 2005).
Dirigido pelo genro de Fernanda, Andrucha Waddington, o filme traz a atriz e sua
filha, Fernanda Torres, como sucessivas gerações de mãe e
filha isoladas nos areais dos Lençóis Maranhenses entre as décadas
de 10 e 70 e demonstra que mesmo intérpretes de talento não
estão livres de tatear quando lhes falta um roteiro de substância.
A ausência mais sentida nos vários papéis que Fernanda desempenha
em Casa de Areia é a do seu humor. Além de ser um traço
marcante de sua personalidade civil, ele é quase sempre usado pela atriz
como uma espécie de fiel da balança um dado dissonante que
ora acentua a dramaticidade de suas personagens, ora abate a solenidade delas,
quando não as duas coisas ao mesmo tempo. É esse humor que separa
interpretações superiores, como as de Central do Brasil, O Outro
Lado da Rua e Redentor (este, a estréia na direção
de longas do filho da atriz, Claudio Torres), de trabalhos menores, como o de
Casa de Areia. E Fernanda, como toda atriz de qualquer gradação
, responde com mais potência a materiais que a desafiem a se superar
ou se renovar. Fazer ressalvas a Fernanda é
quase um tabu. Não que ela estimule abertamente o culto a sua pessoa. Ao
contrário: a questão, justamente, é que Fernanda se tornou
uma das reservas artísticas e morais do país e elas, como
se sabe, não são numerosas. Fernanda é, por exemplo, a recordista
em prêmios nacionais e estrangeiros entre os quais evidentemente
se destaca a indicação ao Oscar de atriz, a única conquistada
pelo Brasil na categoria nos mais de setenta anos da cerimônia. Numa cultura
cheia de complexos quanto a sua própria validade, esse aval adquire um
peso esmagador. E talvez conte mais ainda por Fernanda cultivar a modéstia
num país que valoriza (do seu jeito, bem entendido) esse traço de
caráter. "Já errei muito. Mas, como não morri por causa disso,
nem me lembro de que erros foram esses. Toco em frente", diz Fernanda.
Por coincidência ou senso de oportunidade, Fernanda
sempre teve o momento a seu favor. Desde sua estréia, no início
dos anos 50, foi capaz de se destacar em meio a uma geração excepcional,
que incluía Ítalo Rossi, Paulo Autran, Leonardo Villar, Bibi Ferreira
e Raul Cortez. Quando Cacilda Becker morreu, em 1969, ela era a candidata natural
a sucedê-la, na imaginação do público e da crítica,
como a grande dama do teatro brasileiro. "Esse título, o de 'grande dama',
é como um cetro que vai sendo passado de geração a geração",
teoriza o crítico teatral Sábato Magaldi. O crítico enumera
entre os créditos de Fernanda para esse cetro sua folha corrida no teatro,
rádio, televisão e cinema, e a escolha de papéis que a valorizem
"Ela nunca tentou bancar a mocinha ingênua". Segundo Magaldi, no
palco a atriz leva um papel às últimas conseqüências
uma das razões, por exemplo, para o sucesso da montagem de As
Lágrimas Amargas de Petra von Kant, que no início da década
de 80 atraiu mais de meio milhão de interessados em ver Fernanda como uma
empresária implacável que desmorona ao viver uma paixão homossexual.
Fernanda foi a atriz certa no lugar certo quando,
em princípio de carreira, arrumou emprego no rádio, então
um dos pilares da dramaturgia nacional. Voltou a sê-lo no teatro, que até
os anos 70 viveu um período de grande fermentação e popularidade.
Nos anos 80, quando as novelas é que viraram exemplo de vigor dramatúrgico,
lá estava a atriz novamente. Nos seus termos: Fernanda até hoje
negocia seus trabalhos (e cachês, o que leva seus companheiros a sussurrar
que ela ama a arte, mas não só ela) caso a caso, e diretamente com
a cúpula da emissora, um status a que ela chegou por meio da resistência
rejeitou oferta atrás de oferta, até que elas viessem na
configuração que julgava ideal. É sintomático, também,
que Central do Brasil, o filme que devolveu a auto-estima ao cinema nacional,
seja protagonizado por Fernanda, que hoje se dedica mais à tela que ao
palco. "Não sei se tive muita sorte ou se trabalhei muito. Ambas as coisas,
provavelmente", diz ela. A atriz tem sorte e tem
competência, e tem algo mais: filhos que se aventuraram de forma bem-sucedida
pelas mesmas áreas que ela e o marido, Fernando Torres. Nada intimida mais
do que um monstro sagrado. Mas um monstro sagrado que é também mãe
de uma amiga ou namorada é um monstro potencialmente acessível,
e muito atraente. Fernanda diz que nunca chegou a refletir sobre o papel que os
filhos desempenharam nas novas vidas de sua carreira. Mas as evidências
a favor deles não são desprezíveis, dada a quantidade de
jovens cineastas, diretores teatrais, atores e autores com que Fernanda trabalhou
desde o momento em que ela própria chegou à meia-idade e os filhos
começaram seus vôos-solo. Na opinião
da atriz, os superlativos que costumam acompanhá-la são, além
de uma bobagem, um exercício de imaginação. "Fernanda é
um encosto, que eu recebo lá na hora, e é a mulher que tira fotos
e dá entrevistas. Eu sou a Arlette Pinheiro Monteiro Torres", disse ela
a VEJA, referindo-se ao nome que consta de sua identidade. "Tenho vida pessoal
e tenho também muita dor de barriga quando aceito um novo papel. Isso de
'grande dama' é coisa do século XIX, de atriz sozinha no meio do
palco, com uma luz divina batendo nela", afirma. Verdadeiro ou artificial, o posto
é de Fernanda Montenegro e continua sem sucessora aparente.
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