Edição 1904 . 11 de maio de 2005

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Livros
A jóia errante

Moacyr Scliar revisita um
mito fatalista sobre os judeus


Jerônimo Teixeira


Liane Neves
Scliar: humor e amargura na história do homem que vive com um diamante na barriga

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Trecho do livro

Moacyr Scliar, de 68 anos, firmou sua reputação literária como o escritor que colocou o universo judaico na literatura brasileira contemporânea. Seu novo romance, Na Noite do Ventre, o Diamante (Objetiva; 168 páginas; 29,90), revisita os temas básicos que acompanham muitos de seus personagens: a perseguição étnica, o exílio, a opressão familiar. Ironicamente, porém, a base dessa obra pode ser encontrada em um antigo mito de inequívoco colorido anti-semita: o Judeu Errante. Popularizada na Europa a partir do século XVII, a lenda fala de Ahasverus, um judeu que, por ter zombado de Jesus a caminho do Calvário, é condenado a andar pela Terra até o fim dos tempos. Scliar faz alterações substantivas no mito. A maldição não é mais pessoal, mas está associada a um objeto – um diamante que passa por sucessivos donos, em uma escalada de azar e infelicidade que culmina em Gregório, um judeu russo radicado no Brasil. Mesmo assim, é clara a conexão com Ahasverus: o diamante funciona como uma alegoria do estigma que por séculos foi associado à condição judaica.

O livro é o último lançamento da coleção Cinco Dedos de Prosa, na qual cinco autores foram convidados a escrever cada um sobre um dedo da mão. A Scliar coube o anular. A primeira cena do livro apresenta a mãe de Gregório, na Rússia do início do século XX, colocando um bonito anel com diamante no dedo. Em seguida, um flashback histórico de mais de cinqüenta páginas conduz às aventurescas origens do diamante no Brasil colonial e a seus caminhos tortuosos da América à Rússia, passando pela Holanda (onde um dos personagens é o filósofo Baruch Spinoza). De volta ao ponto de partida, a narrativa apresenta a família de Gregório em fuga depois da revolução de 1917. Para evitarem os saqueadores, os pais obrigam o menino a engolir o diamante, o único tesouro da família. Esperava-se que, uma vez passado o perigo, Gregório evacuasse a pedra. Mas não aconteceu assim: o diamante fica preso num divertículo, uma espécie de bolsa nas paredes do intestino. Já estabelecidos em São Paulo, os pais procuram um médico para extrair o pequeno tesouro da barriga do filho – mas Gregório foge da sala de cirurgia.

Adulto, Gregório percebe que tem uma condenação no ventre. Solitário, tristonho, apavorado pela perspectiva de que algum ladrão de jóias venha a estripá-lo para roubar o diamante, o rapaz não encontra lugar no mundo. Mas o romance não repete o fatalismo do mito de Ahasverus. Adaptada por Scliar, a lenda do Judeu Errante ganha seus lances cômicos – ainda que, como é característico das melhores anedotas judaicas, o humor carregue o seu travo de amargura.

 
 
 
 
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