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Livros A
jóia errante Moacyr Scliar revisita um
mito fatalista sobre os judeus 
Jerônimo Teixeira
Liane Neves  |
| Scliar: humor e amargura na história do homem que vive
com um diamante na barriga |
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Moacyr Scliar, de 68 anos, firmou
sua reputação literária como o escritor que colocou o universo
judaico na literatura brasileira contemporânea. Seu novo romance, Na
Noite do Ventre, o Diamante (Objetiva; 168 páginas; 29,90), revisita
os temas básicos que acompanham muitos de seus personagens: a perseguição
étnica, o exílio, a opressão familiar. Ironicamente, porém,
a base dessa obra pode ser encontrada em um antigo mito de inequívoco colorido
anti-semita: o Judeu Errante. Popularizada na Europa a partir do século
XVII, a lenda fala de Ahasverus, um judeu que, por ter zombado de Jesus a caminho
do Calvário, é condenado a andar pela Terra até o fim dos
tempos. Scliar faz alterações substantivas no mito. A maldição
não é mais pessoal, mas está associada a um objeto
um diamante que passa por sucessivos donos, em uma escalada de azar e infelicidade
que culmina em Gregório, um judeu russo radicado no Brasil. Mesmo assim,
é clara a conexão com Ahasverus: o diamante funciona como uma alegoria
do estigma que por séculos foi associado à condição
judaica. O livro é o último lançamento
da coleção Cinco Dedos de Prosa, na qual cinco autores foram convidados
a escrever cada um sobre um dedo da mão. A Scliar coube o anular. A primeira
cena do livro apresenta a mãe de Gregório, na Rússia do início
do século XX, colocando um bonito anel com diamante no dedo. Em seguida,
um flashback histórico de mais de cinqüenta páginas conduz
às aventurescas origens do diamante no Brasil colonial e a seus caminhos
tortuosos da América à Rússia, passando pela Holanda (onde
um dos personagens é o filósofo Baruch Spinoza). De volta ao ponto
de partida, a narrativa apresenta a família de Gregório em fuga
depois da revolução de 1917. Para evitarem os saqueadores, os pais
obrigam o menino a engolir o diamante, o único tesouro da família.
Esperava-se que, uma vez passado o perigo, Gregório evacuasse a pedra.
Mas não aconteceu assim: o diamante fica preso num divertículo,
uma espécie de bolsa nas paredes do intestino. Já estabelecidos
em São Paulo, os pais procuram um médico para extrair o pequeno
tesouro da barriga do filho mas Gregório foge da sala de cirurgia.
Adulto, Gregório percebe que tem uma condenação
no ventre. Solitário, tristonho, apavorado pela perspectiva de que algum
ladrão de jóias venha a estripá-lo para roubar o diamante,
o rapaz não encontra lugar no mundo. Mas o romance não repete o
fatalismo do mito de Ahasverus. Adaptada por Scliar, a lenda do Judeu Errante
ganha seus lances cômicos ainda que, como é característico
das melhores anedotas judaicas, o humor carregue o seu travo de amargura.
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