Edição 1904 . 11 de maio de 2005

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Livros
Histórias sem fim

A primeira tradução brasileira do Livro
das Mil e Uma Noites
feita diretamente
a partir dos originais árabes


Carlos Graieb

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

Na metade dos anos 80, o livro de contos orientais As Mil e Uma Noites foi, por um breve período, banido no Egito. Sob a pressão de fundamentalistas, apreenderam-se edições com o pretexto de que as histórias, repletas de passagens licenciosas, ameaçavam "o tecido moral da nação". Uma queima de livros em lugar público chegou a ser programada, mas nunca ocorreu – antes disso, a Justiça reverteu a decisão. Para quem só conhece das Noites o gênio da lâmpada, a caverna de Ali Babá ou o marujo Simbad, esse episódio de censura deve ser uma surpresa. E aqui é preciso fazer uma pausa. Afirmar que o livro representa uma "ameaça moral" é um produto da estupidez, da paranóia religiosa e do fanatismo. Constatar que as Noites contêm páginas licenciosas e até obscenas, contudo, é a mais pura verdade. E uma verdade útil, pois desmonta a idéia de que o livro é tão-somente um repertório de narrativas infantis. Embora o fantástico e o maravilhoso sejam sua matéria-prima essencial, a coletânea abrange muito mais que isso: inclui sagas heróicas, literatura sapiencial, fantasias cosmológicas, piadas escatológicas, pornografia, parábolas devocionais, crônicas da vida cotidiana no Islã medieval, debates retóricos, poemas. Confira. Pela primeira vez, essa obra extraordinária chega ao português na íntegra, numa tradução feita a partir dos originais pelo arabista brasileiro Mamede Mustafa Jarouche, de 42 anos. O primeiro volume do Livro das Mil e Uma Noites já está nas prateleiras (editora Globo; 422 páginas; 55 reais). Mais quatro devem sair até 2007.

Há indícios de que uma versão do Livro das Mil e Uma Noites já existia no século IX. O mais antigo manuscrito conhecido, porém, data do século XIV e contém 282 noites – uma prova de que "mil e uma" é uma fórmula lingüística que remete ao infinito: segundo um ditado árabe, é impossível ler a obra até o fim, e aquele que o fizer estará morto. Com o passar do tempo, e sobretudo no século XVIII, copistas acrescentaram narrativas ao núcleo original, de maneira que o número de noites se aproximou daquele do título, ou até o superou. Foi nesse mesmo século que a tradução pioneira para uma língua ocidental ocorreu, dando início a uma história que é também imensamente curiosa, e cujo tema central é a infidelidade.

As traduções ditas clássicas são quatro, a primeira e a última francesas, as outras inglesas. Pela ordem cronológica, elas são de Antoine Galland (1704), Edward Lane (1838), Richard Burton (1885) e Joseph Mardrus (1899). Galland e Lane purgaram as Noites de seus excessos carnais e de seus barbarismos, enquanto Burton e Mardrus foram na direção contrária e ressaltaram o colorido exótico do livro. Um exemplo, envolvendo as duas versões mais populares, pode ser tirado das páginas que falam de como o príncipe Shazaman, ao voltar inopinadamente para casa, descobriu que sua mulher o traía. Galland escreve que a princesa "recebera em seu leito um dos empregados mais humildes do palácio". Já Burton traduz assim: "em seus braços ela aninhava um cozinheiro negro de feições vulgares, sujo de gordura e de fuligem da cozinha". Costuma-se brincar que a tradução de Galland é para o jardim-de-infância, e a de Burton, para a alcova. Sem pudor ou exagero, a tradução de Jarouche combina a busca da exatidão de um acadêmico contemporâneo com o esforço (bem-sucedido) para compor um texto fluente e prazeroso. A passagem acima fica assim: "Encontrou-a dormindo ao lado de um sujeito, um dos rapazes da cozinha: estavam abraçados". Uma nota acrescenta que algumas edições árabes identificam o "rapaz" como um "escravo negro".

Mapear cabalmente a maneira pela qual as Noites influenciaram a cultura do Ocidente e do Oriente é impossível. Como diz o arabista inglês Robert Irwin, que se arriscou nessa tarefa, seria muito mais fácil apontar os raros artistas que escaparam da influência. Nos países do Oriente Médio submetidos hoje em dia a regimes repressores, o livro e sua narradora, Sherazade, que cativa um rei com histórias e assim impede que ele cumpra o juramento de matar uma mulher por noite, são ícones para feministas e intelectuais liberais. O egípcio Naguib Mahfuz, prêmio Nobel de literatura de 1988, batizou de Noites das Mil e Uma Noites um de seus romances mais célebres – um questionamento do fundamentalismo religioso e do autoritarismo político. Para a iraniana Farzaneh Milani, hoje residente nos Estados Unidos, professora da Universidade de Virginia e autora de um estudo importante sobre mulheres escritoras dos países islâmicos, Sherazade é um símbolo da resistência inteligente. "Ela vence sua luta sem recorrer à violência", disse Farzaneh a VEJA. Até mesmo o tradutor Jarouche, que viveu na Arábia Saudita na adolescência, ressalta o elemento transgressor das Noites. "Eu encontro ali uma língua árabe livre, que desmente o moralismo sórdido dos fundamentalistas", diz ele.

No Ocidente, as leituras puramente estéticas do clássico superam, de longe, qualquer uso político que se tenha querido fazer dele. De Machado de Assis a Salman Rushdie, de Voltaire a Pier Paolo Pasolini, de Jan Potocki a Marcel Proust, é possível traçar a influência do livro. Conhecê-lo é, portanto, conhecer um dos textos basilares da arte de vários séculos. Mas esse não é o único argumento – tampouco o melhor – para incentivar a leitura das Noites. Mais do que qualquer outro, esse é um livro que celebra o prazer, o encanto e o valor de narrar e de ouvir narrativas. São comuns, na coletânea, episódios em que contar uma história salva a pele de uma personagem. A primeira delas é a própria Sherazade. Raramente as histórias salvam por ter um conteúdo edificante. As mais poderosas são aquelas recebidas com palavras como "espantosa" ou "admirável". Apaixonado por ele, e possivelmente o seu melhor advogado, o escritor argentino Jorge Luis Borges é preciso ao descrever o contato com o livro: "Temos vontade de perder-nos nas Mil e Uma Noites; sabemos que ao entrar nelas podemos esquecer o nosso pobre destino humano".

 
 
 
 
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