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Livros Histórias
sem fim A primeira tradução brasileira
do Livro das Mil e Uma Noites feita diretamente a partir dos originais
árabes  Carlos
Graieb
Na metade dos anos 80, o livro de contos orientais
As Mil e Uma Noites foi, por um breve período, banido no Egito.
Sob a pressão de fundamentalistas, apreenderam-se edições
com o pretexto de que as histórias, repletas de passagens licenciosas,
ameaçavam "o tecido moral da nação". Uma queima de livros
em lugar público chegou a ser programada, mas nunca ocorreu antes
disso, a Justiça reverteu a decisão. Para quem só conhece
das Noites o gênio da lâmpada, a caverna de Ali Babá
ou o marujo Simbad, esse episódio de censura deve ser uma surpresa. E aqui
é preciso fazer uma pausa. Afirmar que o livro representa uma "ameaça
moral" é um produto da estupidez, da paranóia religiosa e do fanatismo.
Constatar que as Noites contêm páginas licenciosas e até
obscenas, contudo, é a mais pura verdade. E uma verdade útil, pois
desmonta a idéia de que o livro é tão-somente um repertório
de narrativas infantis. Embora o fantástico e o maravilhoso sejam sua matéria-prima
essencial, a coletânea abrange muito mais que isso: inclui sagas heróicas,
literatura sapiencial, fantasias cosmológicas, piadas escatológicas,
pornografia, parábolas devocionais, crônicas da vida cotidiana no
Islã medieval, debates retóricos, poemas. Confira. Pela primeira
vez, essa obra extraordinária chega ao português na íntegra,
numa tradução feita a partir dos originais pelo arabista brasileiro
Mamede Mustafa Jarouche, de 42 anos. O primeiro volume do Livro das Mil
e Uma Noites já está nas prateleiras (editora Globo; 422
páginas; 55 reais). Mais quatro devem sair até 2007.
Há indícios de que uma versão do Livro das Mil e Uma Noites
já existia no século IX. O mais antigo manuscrito conhecido,
porém, data do século XIV e contém 282 noites uma
prova de que "mil e uma" é uma fórmula lingüística que
remete ao infinito: segundo um ditado árabe, é impossível
ler a obra até o fim, e aquele que o fizer estará morto. Com o passar
do tempo, e sobretudo no século XVIII, copistas acrescentaram narrativas
ao núcleo original, de maneira que o número de noites se aproximou
daquele do título, ou até o superou. Foi nesse mesmo século
que a tradução pioneira para uma língua ocidental ocorreu,
dando início a uma história que é também imensamente
curiosa, e cujo tema central é a infidelidade.
As traduções ditas clássicas são quatro, a primeira
e a última francesas, as outras inglesas. Pela ordem cronológica,
elas são de Antoine Galland (1704), Edward Lane (1838), Richard Burton
(1885) e Joseph Mardrus (1899). Galland e Lane purgaram as Noites de seus
excessos carnais e de seus barbarismos, enquanto Burton e Mardrus foram na direção
contrária e ressaltaram o colorido exótico do livro. Um exemplo,
envolvendo as duas versões mais populares, pode ser tirado das páginas
que falam de como o príncipe Shazaman, ao voltar inopinadamente para casa,
descobriu que sua mulher o traía. Galland escreve que a princesa "recebera
em seu leito um dos empregados mais humildes do palácio". Já Burton
traduz assim: "em seus braços ela aninhava um cozinheiro negro de feições
vulgares, sujo de gordura e de fuligem da cozinha". Costuma-se brincar que a tradução
de Galland é para o jardim-de-infância, e a de Burton, para a alcova.
Sem pudor ou exagero, a tradução de Jarouche combina a busca da
exatidão de um acadêmico contemporâneo com o esforço
(bem-sucedido) para compor um texto fluente e prazeroso. A passagem acima fica
assim: "Encontrou-a dormindo ao lado de um sujeito, um dos rapazes da cozinha:
estavam abraçados". Uma nota acrescenta que algumas edições
árabes identificam o "rapaz" como um "escravo negro".
Mapear cabalmente a maneira pela qual as Noites influenciaram a cultura
do Ocidente e do Oriente é impossível. Como diz o arabista inglês
Robert Irwin, que se arriscou nessa tarefa, seria muito mais fácil apontar
os raros artistas que escaparam da influência. Nos países do Oriente
Médio submetidos hoje em dia a regimes repressores, o livro e sua narradora,
Sherazade, que cativa um rei com histórias e assim impede que ele cumpra
o juramento de matar uma mulher por noite, são ícones para feministas
e intelectuais liberais. O egípcio Naguib Mahfuz, prêmio Nobel de
literatura de 1988, batizou de Noites das Mil e Uma Noites um de seus romances
mais célebres um questionamento do fundamentalismo religioso e do
autoritarismo político. Para a iraniana Farzaneh Milani, hoje residente
nos Estados Unidos, professora da Universidade de Virginia e autora de um estudo
importante sobre mulheres escritoras dos países islâmicos, Sherazade
é um símbolo da resistência inteligente. "Ela vence sua luta
sem recorrer à violência", disse Farzaneh a VEJA. Até mesmo
o tradutor Jarouche, que viveu na Arábia Saudita na adolescência,
ressalta o elemento transgressor das Noites. "Eu encontro ali uma língua
árabe livre, que desmente o moralismo sórdido dos fundamentalistas",
diz ele. No Ocidente, as leituras puramente estéticas
do clássico superam, de longe, qualquer uso político que se tenha
querido fazer dele. De Machado de Assis a Salman Rushdie, de Voltaire a Pier Paolo
Pasolini, de Jan Potocki a Marcel Proust, é possível traçar
a influência do livro. Conhecê-lo é, portanto, conhecer um
dos textos basilares da arte de vários séculos. Mas esse não
é o único argumento tampouco o melhor para incentivar
a leitura das Noites. Mais do que qualquer outro, esse é um livro
que celebra o prazer, o encanto e o valor de narrar e de ouvir narrativas. São
comuns, na coletânea, episódios em que contar uma história
salva a pele de uma personagem. A primeira delas é a própria Sherazade.
Raramente as histórias salvam por ter um conteúdo edificante. As
mais poderosas são aquelas recebidas com palavras como "espantosa" ou "admirável".
Apaixonado por ele, e possivelmente o seu melhor advogado, o escritor argentino
Jorge Luis Borges é preciso ao descrever o contato com o livro: "Temos
vontade de perder-nos nas Mil e Uma Noites; sabemos que ao entrar nelas
podemos esquecer o nosso pobre destino humano". |