Edição 1904 . 11 de maio de 2005

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Cultura
Índex de palavras

Cartilha politicamente correta do
governo federal condena termos de uso
comum entre escritores e compositores


João Gabriel de Lima

A Secretaria Especial dos Direitos Humanos provocou polêmica ao distribuir, na semana passada, uma cartilha de termos politicamente incorretos. O livro trai a inegável vocação autoritária de parte do governo, em seu afã de regulamentar a língua falada pelo brasileiro. É inevitável lembrar que um ministro de Lula, Aldo Rebelo, da Coordenação Política, já propôs – a sério – cobrar multas de quem usasse palavras com raízes em outros idiomas. A iniciativa da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, que gastou 30.000 reais do contribuinte numa tiragem de 5.000 exemplares, não deve ir tão longe, felizmente. Diante da reação de escritores, jornalistas e acadêmicos, o secretário dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda, suspendeu a distribuição do livreco.

Existem termos ofensivos a minorias que, por essa razão, deveriam ser banidos? A cartilha do governo lista palavras como "malandro", "branquelo", "caipira", "pivete", "cabeça-chata", "cigano", "macumbeiro", "palhaço" e "roceiro", que aparecem em profusão na obra de escritores. Em Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, os termos "preta" e "mulata", que estão no índex, aparecem quase a cada página. O personagem Pedro Archanjo, protagonista de Tenda dos Milagres, de Jorge Amado, tem o coração dividido entre uma "crioula" e uma "gringa" – termos proscritos pela cartilha. Os dois exemplos não foram escolhidos por acaso. A cultura brasileira é uma das mais politicamente corretas do mundo, no melhor sentido da expressão. Em 1933, quando Hitler se tornou chanceler na Alemanha e as idéias nazi-fascistas começaram a se tornar populares na Europa, Gilberto Freyre lançou no Brasil seu Casa-Grande & Senzala, uma pá de cal científica na teoria da superioridade racial. A partir de então, a valorização da miscigenação passou a ser a idéia central da arte brasileira – e a obra de Jorge Amado se constitui num bom exemplo disso. Palavras que antes tinham sentido pejorativo – como "malandro" e "mulata" – passaram a ter valor positivo no Brasil. Legitimadas pela literatura, migraram à canção popular.

É óbvio que existem termos realmente ofensivos a minorias, mas esses não precisam de legislação para sumir do vocabulário. Prescrever, como diz o livro, que a palavra "índio" não deve ser usada, pois negaria a diversidade das civilizações pré-colombianas, é um evidente exagero. Não foi por acaso que a cartilha desagradou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que no discurso de 19 de abril, Dia do Índio, empregou a palavra sete vezes. O presidente esbarra em termos proscritos a cada vez que improvisa em público. Será que algum dia ele vai ser interpelado pelos termochatos da Secretaria Especial dos Direitos Humanos quando se referir à primeira-dama, Marisa Letícia, usando o apelido carinhoso de "minha galega"?

 

 

 
 
 
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