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Cultura Índex
de palavras Cartilha politicamente correta
do governo federal condena termos de uso comum entre escritores e compositores
 João
Gabriel de Lima
A Secretaria Especial dos
Direitos Humanos provocou polêmica ao distribuir, na semana passada, uma
cartilha de termos politicamente incorretos. O livro trai a inegável vocação
autoritária de parte do governo, em seu afã de regulamentar a língua
falada pelo brasileiro. É inevitável lembrar que um ministro de
Lula, Aldo Rebelo, da Coordenação Política, já propôs
a sério cobrar multas de quem usasse palavras com raízes
em outros idiomas. A iniciativa da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, que
gastou 30.000 reais do contribuinte numa tiragem de 5.000 exemplares, não
deve ir tão longe, felizmente. Diante da reação de escritores,
jornalistas e acadêmicos, o secretário dos Direitos Humanos, Nilmário
Miranda, suspendeu a distribuição do livreco.
Existem termos ofensivos a minorias que, por essa razão, deveriam ser banidos?
A cartilha do governo lista palavras como "malandro", "branquelo", "caipira",
"pivete", "cabeça-chata", "cigano", "macumbeiro", "palhaço" e "roceiro",
que aparecem em profusão na obra de escritores. Em Casa-Grande &
Senzala, de Gilberto Freyre, os termos "preta" e "mulata", que estão
no índex, aparecem quase a cada página. O personagem Pedro Archanjo,
protagonista de Tenda dos Milagres, de Jorge Amado, tem o coração
dividido entre uma "crioula" e uma "gringa" termos proscritos pela cartilha.
Os dois exemplos não foram escolhidos por acaso. A cultura brasileira é
uma das mais politicamente corretas do mundo, no melhor sentido da expressão.
Em 1933, quando Hitler se tornou chanceler na Alemanha e as idéias nazi-fascistas
começaram a se tornar populares na Europa, Gilberto Freyre lançou
no Brasil seu Casa-Grande & Senzala, uma pá de cal científica
na teoria da superioridade racial. A partir de então, a valorização
da miscigenação passou a ser a idéia central da arte brasileira
e a obra de Jorge Amado se constitui num bom exemplo disso. Palavras que
antes tinham sentido pejorativo como "malandro" e "mulata" passaram
a ter valor positivo no Brasil. Legitimadas pela literatura, migraram à
canção popular. É
óbvio que existem termos realmente ofensivos a minorias, mas esses não
precisam de legislação para sumir do vocabulário. Prescrever,
como diz o livro, que a palavra "índio" não deve ser usada, pois
negaria a diversidade das civilizações pré-colombianas, é
um evidente exagero. Não foi por acaso que a cartilha desagradou ao presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, que no discurso de 19 de abril, Dia do Índio,
empregou a palavra sete vezes. O presidente esbarra em termos proscritos a cada
vez que improvisa em público. Será que algum dia ele vai ser interpelado
pelos termochatos da Secretaria Especial dos Direitos Humanos quando se referir
à primeira-dama, Marisa Letícia, usando o apelido carinhoso de "minha
galega"? |