Edição 1904 . 11 de maio de 2005

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Medicina
Máquinas que vêem

Aparelhos que permitem enxergar o interior
do corpo humano aprimoram o diagnóstico
e o tratamento de várias doenças


Giuliana Bergamo

 

Fotos divulgação
Sem retirar nem ao menos uma gota de sangue, o BiliChek dosa as quantidades de bilirrubina em recém-nascidos. Oito em cada dez crianças nascem com altas doses da substância no sangue, o que causa icterícia. Normalmente, para o diagnóstico e tratamento da síndrome, os bebês têm de ser submetidos a consecutivas coletas de sangue. Quando realizado em excesso, esse procedimento é a principal causa de transfusão em recém-nascidos

Começa a ser testado no Brasil um aparelho capaz de mapear em tempo real as veias do corpo humano, o VeinViewer (Observador de Veias, em inglês). O aparelho promete facilitar os tratamentos vasculares e estéticos, além de tornar a coleta de sangue e as injeções de medicamentos bem menos dolorosas. A máquina emite raios infravermelhos que captam a temperatura da região corporal a ser vasculhada. Como as veias são mais quentes do que os outros tecidos, elas são ressaltadas pelo VeinViewer. Em seguida, um computador transforma essas informações em imagens. Em frações de segundo, elas são projetadas sobre a parte do corpo examinada, formando um mapa bastante detalhado da ramificação das veias. Com isso, o médico ou o enfermeiro sabe exatamente onde estão as veias no momento de puncionar uma delas ou de aplicar uma injeção. Fabricado pela empresa Luminetx, sediada na cidade de Memphis, nos Estados Unidos, o VeinViewer deve chegar ao mercado no primeiro semestre do próximo ano. Eleito como uma das melhores invenções de 2004 pela revista americana Time, ele é uma evolução do venoscópio, criado no início dos anos 90. Enquanto a máquina antiga consegue visualizar apenas veias a partir de 0,5 milímetro de calibre, o VeinViewer mostra vasos até cinco vezes mais finos.

 

Raios infravermelhos captam as variações de calor da superfície da pele e registram a localização das veias. Em frações de segundo, o VeinViewer projeta o mapa da vascularização superficial sobre a pele do paciente. O método deve facilitar a coleta de sangue, o tratamento de varizes e a aplicação de injeções subcutâneas e intramusculares

A primeira fase brasileira das pesquisas com o VeinViewer, numa clínica em São Paulo, avaliará a sua eficácia no tratamento de varizes. O método mais usado consiste na injeção de uma substância que queima os vasos sanguíneos dilatados. O grande desafio do médico é chegar até a veia maior que serve de tronco para as veias muito finas e ramificadas, que, nos casos mais graves, deixam as pernas de suas vítimas com a aparência de um mapa hidrográfico. Como a veia maior fica abaixo do emaranhado das pequenas veias, a melhor maneira para determinar a sua localização é por meio de ultra-sonografia. As imagens captadas por esse tipo de máquina, no entanto, não são projetadas sobre a pele, mas numa tela – o que dificulta o trabalho do médico para acertar o local exato da injeção. Com o VeinViewer, a chance de acertar a veia numa só agulhada é praticamente de 100%. Os testes no Brasil serão conduzidos pelo cirurgião vascular Kasuo Miyake, de São Paulo, e pelo próprio inventor do aparelho, o físico americano Herbert Zeman. A nova máquina promete ajudar inclusive nos tratamentos estéticos à base de injeções de toxina botulínica. A coleta de sangue para exame em crianças e pacientes muito debilitados também será facilitada com o uso do VeinViewer.

O VeinViewer é a última invenção em um campo da medicina que não pára de produzir novidades – o da criação de máquinas capazes de vasculhar e mapear com nitidez e amplitude a atividade no interior do corpo humano, em tempo real. Graças a elas, o diagnóstico e o tratamento de várias doenças tendem a se tornar cada vez menos invasivos e dolorosos para o paciente. Um exemplo desse tipo de benefício proporcionado pelo aprimoramento tecnológico do maquinário médico é um aparelhinho chamado BiliChek, utilizado para medir a quantidade da substância bilirrubina na corrente sanguínea de bebês. Imprescindível ao diagnóstico da icterícia, esse exame é tradicionalmente feito a partir da análise de amostras de sangue. Até que a bilirrubina seja devidamente metabolizada, a dosagem é periódica. Em alguns casos pode ser diária. A forma de fazer essa dosagem é por meio da coleta de sangue. "O problema é que a coleta excessiva de sangue é a principal causa de transfusão em recém-nascidos", diz a pediatra Simone Lotufo, do Laboratório Fleury. A cada coleta, retiram-se quase 3 mililitros de sangue, o que é muito para um corpinho que carrega, em média, apenas 300 mililitros de sangue. Encostado à testa do recém-nascido, o BiliChek mede a bilirrubina sem tirar uma só gota do bebê. O diagnóstico dado pelo aparelho não é definitivo, mas serve para triagem. Se os níveis de bilirrubina estão altos demais, deve-se fazer o teste convencional por meio da coleta de sangue.

 

Fotos gentilmente cedidas pela GE Medical Systems
A evolução das técnicas de ressonância magnética e tomografia computadorizada causou uma revolução na medicina diagnóstica. Elas fornecem imagens detalhadas e tridimensionais de rins, intestino e coração (acima, em sentido horário), entre outros órgãos

Outra descoberta que está beneficiando os bebês no diagnóstico de doenças são as imagens tridimensionais produzidas por ressonância magnética e tomografia computadorizada. Médicos dinamarqueses usam o exame para estudar malformações cardíacas em fetos e recém-nascidos. O estudo e o tratamento do coração são mais difíceis em crianças principalmente por causa do seu tamanho. As imagens captadas por ressonância magnética remontam o órgão em uma imagem tridimensional que pode ser visualizada na tela de um computador. Com ela, os médicos podem analisar partes internas e externas do coração. O mesmo método serve para observar áreas necrosadas depois de infartos. Imagens semelhantes são conseguidas por meio dos novos aparelhos de tomografia. Eles "fatiam" o coração, com a finalidade de estudar com mais minúcia as artérias coronarianas. Outra utilidade dessa tecnologia é a colonoscopia virtual. Esses exames ainda não excluem os métodos invasivos, como a angiografia por cateter. No entanto, podem ser usados como métodos de triagem. Em todos os casos, os riscos de morbidade são baixíssimos, assim como o relato de desconforto pelos pacientes.

A medicina diagnóstica evolui tanto e tão rápido que, daqui a dois anos, é provável que máquinas como o VeinViewer e o BiliChek não figurem entre as mais avançadas. "A evolução é impressionante. Há algumas décadas, informações bem mais rudimentares do que as que conseguimos hoje só eram possíveis com a retirada de uma parte considerável do corpo ou por meio da necropsia", diz o neurorradiologista Antônio Rocha. Com essas máquinas que enxergam dentro do corpo, tudo o que se quer, evidentemente, é evitar a necropsia.

 
 
 
 
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