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Aviação
O rasante da Varig
Afundada em dívidas, a companhia
recebe ultimato do governo e busca
parceiros para manter-se viva

Chrystiane Silva
A Varig chegou aos 78 anos com poucos motivos
para comemorar. A companhia enfrenta a pior crise desde sua criação,
em 7 de maio de 1927. Corroída por uma dívida que
pode chegar a 9,5 bilhões de reais seu balanço
admite apenas 5,7 bilhões de reais , ela precisa urgentemente
de uma injeção de capital. A crise se arrasta desde
os anos 90, quando a Varig perdeu seu monopólio nas linhas
internacionais e começou a afundar. Os problemas se agravaram
com a competição tarifária e os atentados de
11 de setembro, que geraram prejuízos de 19,4 bilhões
de dólares para as companhias aéreas no mundo todo.
Na semana passada, a Varig sofreu novas panes. O compartilhamento
de vôos com a TAM, que lhe permitia um alívio financeiro
desde março de 2003, foi encerrado, e a empresa avisou que
vai deixar de voar em cinco rotas pouco rentáveis (Campo
Grande, Cuiabá, Palmas, Uberlândia e Santarém).
Para complicar, a Varig recebeu um ultimato de empresas do governo.
A BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras, ameaça
cortar o fornecimento de combustível à companhia se
uma dívida de 45 milhões de reais não for paga.
Já a Infraero, a estatal que controla os aeroportos, ameaça
impedir que a Varig opere em 66 aeroportos até o pagamento
de um papagaio de 177 milhões de reais.
Carlos Moskovics/
Acervo Instituto Moreira Salles
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DÉCADA
DE 50
No apogeu, a Varig liderava um mercado promissor |
Os diretores da Varig têm uma resposta pronta para a decadência
da companhia: a culpa é do governo. Segundo eles, a desregulamentação
abrupta do setor, aliada a planos econômicos desastrosos,
destruiu o vigor financeiro da empresa. Nada mais justo, portanto,
que o próprio governo abra os cofres públicos para
salvá-la, numa espécie de "encontro de contas". A
verdade, porém, não é tão simples quanto
fazem crer os "variguianos", como são chamados os funcionários,
defensores e lobistas da empresa no Congresso. Muitos dos problemas
da Varig foram criados pela própria empresa com sua complexa
estrutura de administração, erros de gestão
e fraudes gigantescas.
O sistema administrativo adotado pela Varig
foi criado em 1945 após a II Guerra Mundial. O presidente
da empresa, Ruben Berta, decidiu proteger seu controle acionário,
que tinha origem alemã. Criou a Fundação dos
Funcionários da Varig, hoje chamada de Fundação
Ruben Berta, que passou a deter o controle da companhia. Ao longo
dos anos, o poder da fundação foi aumentando até
o ponto de não admitir nenhuma ingerência externa.
Sua autoridade é tamanha que os executivos contratados não
conseguem levar adiante as medidas necessárias para administrar
a empresa. Entre 1995 e 2002, a Varig teve seis presidentes. Nesse
período, muitas medidas de saneamento que exigiam redução
de pessoal, restrição de salários ou venda
de ativos foram barradas. Enquanto isso, multiplicaram-se os desvios
e erros de gestão.
Em 2000, a Varig criou a Varig Log, seu braço
de transporte de carga e logística, que substituiu a Varig
Cargo. O projeto previa 1.500 funcionários próprios
e uma rede de 500 franqueados no Brasil que iriam entregar encomendas
de todos os tipos e tamanhos. A Varig Log recebeu investimentos
de 6 milhões de reais, mas em dezoito meses não conseguiu
apresentar lucro, e sim um déficit de 150 milhões
de reais. O presidente da companhia, José Carlos Rocha Lima,
e outros 120 funcionários foram demitidos. A Varig Log passou
para o comando de João Luis Bernes de Sousa, o atual presidente,
que focou o negócio apenas na entrega de carga, e no ano
passado a companhia faturou 497 milhões de reais. Após
a saída de Rocha Lima, a agência Kroll foi contratada
para averiguar as atividades da Varig Log. Outro sinal de má
administração ocorreu com a Varig Travel, empresa
criada em 2001 para comercializar pacotes turísticos, que
está em liquidação com uma dívida estimada
em 40 milhões de reais. "É impossível saber
o rombo total porque não havia contabilidade regular", diz
Luiz Augusto Winther Rebello Júnior, liquidante da empresa.
Manuel Fernandes Lourenço, o ex-presidente da Varig Travel,
é acusado pela Varig de conluio para fraudar a data de um
contrato e estender de doze meses para dez anos o prazo para uso
da marca Varig Travel. Laudo do Instituto de Perícia Del
Picchia confirma a falsificação.
Não é só isso. Há
três anos, em uma auditoria interna, a Varig descobriu que
pagava serviços superfaturados a uma companhia contratada
em 1995 para fazer serviços genéricos de digitação,
inclusive o registro das milhas voadas no programa Smiles. O superfaturamento
pode ter sido de até 10 milhões de reais. A companhia
admite apenas que 2,046 milhões foram pagos a mais. "Quando
irregularidades aparecem, elas são eliminadas. Mas parece
que a Varig de repente virou a Geni brasileira, todo mundo joga
pedra. O que a Varig menos tem é má gestão
porque ainda está viva, apesar de todo o seu passivo, num
ambiente hostil e competitivo como este", diz o comandante Luiz
Martins, presidente da companhia. Em meio ao vendaval, a empresa
estuda quatro propostas de investidores. Qualquer solução
de mercado será ótima para o setor de aviação
brasileiro e para os funcionários da Varig. Por solução
de mercado, entenda-se qualquer desfecho que não exija dinheiro
público para premiar erros privados.
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