Edição 1904 . 11 de maio de 2005

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Aviação
O rasante da Varig

Afundada em dívidas, a companhia
recebe ultimato do governo e busca
parceiros para manter-se viva


Chrystiane Silva

NESTA REPORTAGEM
Quadro: As três panes que enfraqueceram a empresa
Gráfico: O vôo da dívida

A Varig chegou aos 78 anos com poucos motivos para comemorar. A companhia enfrenta a pior crise desde sua criação, em 7 de maio de 1927. Corroída por uma dívida que pode chegar a 9,5 bilhões de reais – seu balanço admite apenas 5,7 bilhões de reais –, ela precisa urgentemente de uma injeção de capital. A crise se arrasta desde os anos 90, quando a Varig perdeu seu monopólio nas linhas internacionais e começou a afundar. Os problemas se agravaram com a competição tarifária e os atentados de 11 de setembro, que geraram prejuízos de 19,4 bilhões de dólares para as companhias aéreas no mundo todo. Na semana passada, a Varig sofreu novas panes. O compartilhamento de vôos com a TAM, que lhe permitia um alívio financeiro desde março de 2003, foi encerrado, e a empresa avisou que vai deixar de voar em cinco rotas pouco rentáveis (Campo Grande, Cuiabá, Palmas, Uberlândia e Santarém). Para complicar, a Varig recebeu um ultimato de empresas do governo. A BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras, ameaça cortar o fornecimento de combustível à companhia se uma dívida de 45 milhões de reais não for paga. Já a Infraero, a estatal que controla os aeroportos, ameaça impedir que a Varig opere em 66 aeroportos até o pagamento de um papagaio de 177 milhões de reais.

Carlos Moskovics/
Acervo Instituto Moreira Salles
DÉCADA DE 50
No apogeu, a Varig liderava um mercado promissor


Os diretores da Varig têm uma resposta pronta para a decadência da companhia: a culpa é do governo. Segundo eles, a desregulamentação abrupta do setor, aliada a planos econômicos desastrosos, destruiu o vigor financeiro da empresa. Nada mais justo, portanto, que o próprio governo abra os cofres públicos para salvá-la, numa espécie de "encontro de contas". A verdade, porém, não é tão simples quanto fazem crer os "variguianos", como são chamados os funcionários, defensores e lobistas da empresa no Congresso. Muitos dos problemas da Varig foram criados pela própria empresa com sua complexa estrutura de administração, erros de gestão e fraudes gigantescas.

O sistema administrativo adotado pela Varig foi criado em 1945 após a II Guerra Mundial. O presidente da empresa, Ruben Berta, decidiu proteger seu controle acionário, que tinha origem alemã. Criou a Fundação dos Funcionários da Varig, hoje chamada de Fundação Ruben Berta, que passou a deter o controle da companhia. Ao longo dos anos, o poder da fundação foi aumentando até o ponto de não admitir nenhuma ingerência externa. Sua autoridade é tamanha que os executivos contratados não conseguem levar adiante as medidas necessárias para administrar a empresa. Entre 1995 e 2002, a Varig teve seis presidentes. Nesse período, muitas medidas de saneamento que exigiam redução de pessoal, restrição de salários ou venda de ativos foram barradas. Enquanto isso, multiplicaram-se os desvios e erros de gestão.

Em 2000, a Varig criou a Varig Log, seu braço de transporte de carga e logística, que substituiu a Varig Cargo. O projeto previa 1.500 funcionários próprios e uma rede de 500 franqueados no Brasil que iriam entregar encomendas de todos os tipos e tamanhos. A Varig Log recebeu investimentos de 6 milhões de reais, mas em dezoito meses não conseguiu apresentar lucro, e sim um déficit de 150 milhões de reais. O presidente da companhia, José Carlos Rocha Lima, e outros 120 funcionários foram demitidos. A Varig Log passou para o comando de João Luis Bernes de Sousa, o atual presidente, que focou o negócio apenas na entrega de carga, e no ano passado a companhia faturou 497 milhões de reais. Após a saída de Rocha Lima, a agência Kroll foi contratada para averiguar as atividades da Varig Log. Outro sinal de má administração ocorreu com a Varig Travel, empresa criada em 2001 para comercializar pacotes turísticos, que está em liquidação com uma dívida estimada em 40 milhões de reais. "É impossível saber o rombo total porque não havia contabilidade regular", diz Luiz Augusto Winther Rebello Júnior, liquidante da empresa. Manuel Fernandes Lourenço, o ex-presidente da Varig Travel, é acusado pela Varig de conluio para fraudar a data de um contrato e estender de doze meses para dez anos o prazo para uso da marca Varig Travel. Laudo do Instituto de Perícia Del Picchia confirma a falsificação.

Não é só isso. Há três anos, em uma auditoria interna, a Varig descobriu que pagava serviços superfaturados a uma companhia contratada em 1995 para fazer serviços genéricos de digitação, inclusive o registro das milhas voadas no programa Smiles. O superfaturamento pode ter sido de até 10 milhões de reais. A companhia admite apenas que 2,046 milhões foram pagos a mais. "Quando irregularidades aparecem, elas são eliminadas. Mas parece que a Varig de repente virou a Geni brasileira, todo mundo joga pedra. O que a Varig menos tem é má gestão porque ainda está viva, apesar de todo o seu passivo, num ambiente hostil e competitivo como este", diz o comandante Luiz Martins, presidente da companhia. Em meio ao vendaval, a empresa estuda quatro propostas de investidores. Qualquer solução de mercado será ótima para o setor de aviação brasileiro e para os funcionários da Varig. Por solução de mercado, entenda-se qualquer desfecho que não exija dinheiro público para premiar erros privados.

 
 
 
 
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