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Crédito
Namoro com o precipício
GM e Ford, dois ícones do capitalismo
americano, são consideradas empresas
de alto risco nos EUA

João Gabriel de Lima
Foi a agência de classificação
de risco Standard & Poor's, e não o ambientalista José
Bové, que disparou o golpe simbólico mais certeiro
no coração de dois dos maiores ícones do capitalismo.
Na semana passada, a agência considerou que as duas mais importantes
indústrias de carros dos Estados Unidos, a General Motors
e a Ford, não eram mais investiment grade ou
seja, a Standard & Poor's não mais recomendava que se
comprassem títulos emitidos pelos dois grupos. A GM tem 292
bilhões de dólares de dívida. A Ford deve 161
bilhões.
Já
faz algum tempo que as duas montadoras, que formam com a Chrysler
o trio das gigantes dos Estados Unidos, vêm perdendo terreno
dentro de casa. Num universo de consumidores que permanece estável
há anos, o bolo que as americanas deixaram de morder foi
parar no estômago das rivais orientais e européias,
notadamente a japonesa Toyota, que hoje disputa palmo a palmo com
a Ford a vice-liderança do mercado mundial. A número
1 ainda é a General Motors.
O rebaixamento da nota das duas
montadoras mostra que as agências classificatórias
não são rigorosas apenas com países do Terceiro
Mundo. Nesse episódio, as notas baixas foram para duas das
maiores e mais tradicionais corporações americanas
e do planeta. Embora deva aumentar o custo da rolagem da dívida
de ambas, a ação da Standard & Poor's não
representa a bancarrota em curto prazo. Há, no entanto, um
forte significado simbólico. A saga da indústria automobilística
em particular a da Ford e da General Motors se confunde
com a própria história do capitalismo. São
elas, e não o McDonald's, os verdadeiros ícones da
economia de mercado.
A primeira revolução
da história da indústria automobilística se
deu quando, em 1913, Henry Ford se inspirou nas fábricas
de revólveres e máquinas de costura para criar uma
linha de montagem de produção de carros. Isso tornou
o automóvel acessível à maioria dos americanos.
Se a Ford inventou o consumo de massas, a General Motors criou a
moderna administração, pela mão de seu presidente
Alfred Sloan. Entre os conceitos que ele colocou em circulação
estava o da "obsolescência planejada" as pequenas mudanças
de design que levariam os consumidores a trocar de modelo com freqüência.
Popular e bem desenhado, o carro se tornava o ícone do século
XX e inspirava até os intelectuais franceses. "Concebido
por artistas desconhecidos, o automóvel é consumido
por uma população que se apropria dele como puro objeto
de desejo", escreveu Roland Barthes.
O
século XXI chegou, e a indústria automobilística
teve dificuldade para adequar sua estrutura mastodôntica a
um capitalismo de margens de lucro declinantes. Entre os vilões
da crise está certamente a alta dos preços do petróleo,
que diminuiu dramaticamente a venda de carros utilitários
esportivos, os famosos e beberrões SUVs. Eles vinham sendo,
nos últimos tempos, a tábua de salvação
das duas empresas. As corporações foram feridas também
por uma invenção tão vinculada à indústria
automobilística quanto o Ford Modelo T: o sindicalismo. Em
1999, os trabalhadores de Detroit arrancaram dos patrões
um acordo pelo qual as empresas são responsáveis pela
assistência médica integral de todos os seus funcionários,
inclusive os aposentados. Esses custos não param de subir
a ponto de atualmente a GM gastar mais com os planos de saúde
do que com aço: matéria-prima dos carros que produz.
O que mais assusta numa indústria que ainda responde por
um de cada sete empregos nos Estados Unidos não é
a situação atual, mas a falta de planos e perspectivas
para o futuro. Sonhando com as glórias de outro século,
as corporações estariam vivendo o dilema expresso
pelo romancista americano Scott Fitzgerald, o grande cronista da
era do carro. Elas seriam como "barcos contra a corrente, navegando
em direção ao passado".
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