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Economia e
Negócios Um jogo para gigantes
Com 860 milhões de dólares, o grupo Casino torna-se dono de
metade do Pão de Açúcar e reforça o domínio
das grandes redes  Carina
Nucci Germano
Luders
 | | Em
1990, uma disputa familiar levou o Pão de Açúcar à ruína e a família tentou vendê-lo
por 200 milhões de dólares. Não apareceu um comprador sequer. Depois de quinze
anos sob a gestão Abilio Diniz, o supermercado vale dezesseis vezes mais: 3 bilhões
de dólares. Diz Abilio: "Quero repetir esse sucesso no Casino" |
O empresário Abilio Diniz gosta
de dizer que o Pão de Açúcar, a maior rede de supermercados
do país, foi construído duas vezes. A primeira, no fim dos anos
50, quando ele desistiu de estudar nos Estados Unidos para ajudar o pai a transformar
a doceria da família num supermercado. A segunda, no início dos
90, quando a família tentou e não conseguiu vender a empresa, que
estava em crise, por 200 milhões de dólares. Na falta de comprador,
Abilio Diniz resolveu assumir as rédeas do negócio. Não é
exagero nenhum afirmar que a terceira construção do Pão de
Açúcar foi selada na semana passada, quando a família Diniz
vendeu, por 860 milhões de dólares, parte da empresa ao grupo francês
Casino, que de acionista minoritário passou a ser dono de metade da rede
de supermercados. O controle acionário foi dividido, mas o brasileiro continuará
à frente das operações pelo menos até 2013,
quando, pelo acordo firmado, os franceses terão o direito contratual de
adquirir a fatia majoritária da empresa.
O Casino é o quinto maior supermercado da França. Apesar de não
liderar o setor, vende 30 bilhões de dólares por ano, cinco vezes
o faturamento do líder brasileiro. Além de capital, o grupo francês
tem mais de 9.000 lojas em dezenove países. Muito em breve essas lojas
oferecerão produtos brasileiros, entre eles os da marca Pão de Açúcar.
O acordo entre os Diniz e os franceses
está recheado de significados. Por representar dezesseis vezes o valor
ofertado pela rede de supermercados quinze anos atrás, o negócio
permite mostrar, em cifras, a riqueza que a gestão de Abilio agregou à
companhia ao tirá-la da ruína e recuperá-la financeiramente.
Além disso, ao dividir o controle do Pão de Açúcar
com os franceses, o empresário quitou dívidas da empresa, tornou-se
o quinto maior sócio individual do grupo francês e mostrou aos concorrentes
que, a partir de agora, terá fôlego para competir em melhores condições.
Outro sinal importante emitido pelo
acordo diz respeito ao poder das grandes marcas no mercado mundial de varejo.
Com a operação, grupos estrangeiros passam a controlar as quatro
maiores redes de supermercados no Brasil, ainda que de forma compartilhada, como
no caso do Pão de Açúcar. A segunda posição
no ranking brasileiro é ocupada pelo também francês Carrefour.
A terceira, pelo gigante americano Wal-Mart, que costuma varrer os concorrentes
por onde passa. No ano passado, a rede americana disputou com o Pão de
Açúcar o controle do grupo nordestino Bompreço. Pagou 300
milhões de dólares e levou a melhor. Portanto, ao aceitar o avanço
dos franceses na companhia, a rede Pão de Açúcar insere-se
numa tendência avassaladora. Não deixa de ser curioso, no entanto,
o fato de a empresa ficar um pouco menos brasileira. Isso porque optou por um
slogan patriótico para provocar seus concorrentes: "Orgulho de ser brasileiro".
Com a participação crescente
dos estrangeiros, a cada ano, os cinco maiores supermercados em operação
no Brasil aumentam em 2 pontos porcentuais o controle sobre tudo o que é
vendido no país e já abocanham nada menos que 42% do faturamento
do varejo de alimentos. No Brasil a concentração das grandes redes
do setor de varejo está apenas começando. Em países como
França e Alemanha, as cinco maiores redes detêm perto de 70% do mercado.
Na Suécia, a concentração chega a espantosos 90%. Por trás
desse movimento mundial rumo à aliança de infra-estrutura com capital
e clientela está a necessidade de vender cada vez mais para negociar melhor
os contratos com os fornecedores, oferecer preços menores aos consumidores
e reduzir os custos. O comportamento do cliente também incita à
concentração. Na hora de escolher o supermercado onde vai encher
o carrinho, o consumidor quer saber quem oferece o menor preço e a maior
variedade. Para dez em cada dez analistas
de varejo, o negócio foi uma brilhante saída para a família
Diniz, que não teria conseguido treinar um sucessor para Abilio. Antes
que o empresário se cansasse de gerenciar a empresa, ela tratou de achar
um parceiro com euros na agulha e familiaridade com o consumidor latino-americano.
"Temos todo o interesse em comandar uma empresa líder na América
Latina, que responde por 15% do nosso faturamento. Se Abilio quiser nos vender
sua parte daqui a oito anos, será ótimo", afirmou o vice-presidente
de relações institucionais do grupo Casino, Benoit Cornu. Se depender
do que diz Abilio, isso não será tão fácil: "Enquanto
eu tiver disposição, não abro mão de administrar a
minha empresa". |