Edição 1904 . 11 de maio de 2005

Índice
Claudio de Moura Castro
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Auto-retrato
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Economia e Negócios
Um jogo para gigantes

Com 860 milhões de dólares, o grupo Casino
torna-se dono de metade do Pão de Açúcar
e reforça o domínio das grandes redes


Carina Nucci

 

Germano Luders
Em 1990, uma disputa familiar levou o Pão de Açúcar à ruína e a família tentou vendê-lo por 200 milhões de dólares. Não apareceu um comprador sequer. Depois de quinze anos sob a gestão Abilio Diniz, o supermercado vale dezesseis vezes mais: 3 bilhões de dólares. Diz Abilio: "Quero repetir esse sucesso no Casino"



NESTA REPORTAGEM
Quadro: Um mercado para grandes

O empresário Abilio Diniz gosta de dizer que o Pão de Açúcar, a maior rede de supermercados do país, foi construído duas vezes. A primeira, no fim dos anos 50, quando ele desistiu de estudar nos Estados Unidos para ajudar o pai a transformar a doceria da família num supermercado. A segunda, no início dos 90, quando a família tentou e não conseguiu vender a empresa, que estava em crise, por 200 milhões de dólares. Na falta de comprador, Abilio Diniz resolveu assumir as rédeas do negócio. Não é exagero nenhum afirmar que a terceira construção do Pão de Açúcar foi selada na semana passada, quando a família Diniz vendeu, por 860 milhões de dólares, parte da empresa ao grupo francês Casino, que de acionista minoritário passou a ser dono de metade da rede de supermercados. O controle acionário foi dividido, mas o brasileiro continuará à frente das operações – pelo menos até 2013, quando, pelo acordo firmado, os franceses terão o direito contratual de adquirir a fatia majoritária da empresa.

O Casino é o quinto maior supermercado da França. Apesar de não liderar o setor, vende 30 bilhões de dólares por ano, cinco vezes o faturamento do líder brasileiro. Além de capital, o grupo francês tem mais de 9.000 lojas em dezenove países. Muito em breve essas lojas oferecerão produtos brasileiros, entre eles os da marca Pão de Açúcar.

O acordo entre os Diniz e os franceses está recheado de significados. Por representar dezesseis vezes o valor ofertado pela rede de supermercados quinze anos atrás, o negócio permite mostrar, em cifras, a riqueza que a gestão de Abilio agregou à companhia ao tirá-la da ruína e recuperá-la financeiramente. Além disso, ao dividir o controle do Pão de Açúcar com os franceses, o empresário quitou dívidas da empresa, tornou-se o quinto maior sócio individual do grupo francês e mostrou aos concorrentes que, a partir de agora, terá fôlego para competir em melhores condições.

Outro sinal importante emitido pelo acordo diz respeito ao poder das grandes marcas no mercado mundial de varejo. Com a operação, grupos estrangeiros passam a controlar as quatro maiores redes de supermercados no Brasil, ainda que de forma compartilhada, como no caso do Pão de Açúcar. A segunda posição no ranking brasileiro é ocupada pelo também francês Carrefour. A terceira, pelo gigante americano Wal-Mart, que costuma varrer os concorrentes por onde passa. No ano passado, a rede americana disputou com o Pão de Açúcar o controle do grupo nordestino Bompreço. Pagou 300 milhões de dólares e levou a melhor. Portanto, ao aceitar o avanço dos franceses na companhia, a rede Pão de Açúcar insere-se numa tendência avassaladora. Não deixa de ser curioso, no entanto, o fato de a empresa ficar um pouco menos brasileira. Isso porque optou por um slogan patriótico para provocar seus concorrentes: "Orgulho de ser brasileiro".

Com a participação crescente dos estrangeiros, a cada ano, os cinco maiores supermercados em operação no Brasil aumentam em 2 pontos porcentuais o controle sobre tudo o que é vendido no país e já abocanham nada menos que 42% do faturamento do varejo de alimentos. No Brasil a concentração das grandes redes do setor de varejo está apenas começando. Em países como França e Alemanha, as cinco maiores redes detêm perto de 70% do mercado. Na Suécia, a concentração chega a espantosos 90%. Por trás desse movimento mundial rumo à aliança de infra-estrutura com capital e clientela está a necessidade de vender cada vez mais para negociar melhor os contratos com os fornecedores, oferecer preços menores aos consumidores e reduzir os custos. O comportamento do cliente também incita à concentração. Na hora de escolher o supermercado onde vai encher o carrinho, o consumidor quer saber quem oferece o menor preço e a maior variedade.

Para dez em cada dez analistas de varejo, o negócio foi uma brilhante saída para a família Diniz, que não teria conseguido treinar um sucessor para Abilio. Antes que o empresário se cansasse de gerenciar a empresa, ela tratou de achar um parceiro com euros na agulha e familiaridade com o consumidor latino-americano. "Temos todo o interesse em comandar uma empresa líder na América Latina, que responde por 15% do nosso faturamento. Se Abilio quiser nos vender sua parte daqui a oito anos, será ótimo", afirmou o vice-presidente de relações institucionais do grupo Casino, Benoit Cornu. Se depender do que diz Abilio, isso não será tão fácil: "Enquanto eu tiver disposição, não abro mão de administrar a minha empresa".

 
 
 
 
topovoltar