Edição 1904 . 11 de maio de 2005

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Especial
Sarau místico-musical

O livro Encontros com Médiuns
Notáveis
adiciona novas histórias
à eterna peregrinação dos artistas
em busca do outro lado da vida


Okky de Souza


NESTA EDIÇÃO
Os vivos e as outras vidas

DOS ARQUIVOS DE VEJA
À nossa moda (26/7/2000)
Um povo que acredita (19/12/2001)

A música popular brasileira é mesmo uma coisa de outro mundo, a julgar pelo livro Encontros com Médiuns Notáveis (Nova Era; 195 páginas; 29,90 reais), que chega às livrarias nesta semana. Seu autor, Waldemar Falcão, é figura popular no meio artístico carioca. Na esfera terrena, é músico e já trabalhou em gravadoras multinacionais. Em investidas mais elevadas, já atuou como editor de obras espiritualistas e é astrólogo. A parte mais substanciosa de seu livro é um perfil detalhado dos principais médiuns que ele conheceu em sua cruzada espiritualista, recheado de casos impressionantes para quem acredita em textos psicografados, cirurgias feitas com instrumentos domésticos sem assepsia, reencarnação e outras manifestações de entidades do além. Os clientes desses médiuns? Muitos deles são medalhões da MPB.

No livro de Falcão, o médium que mais desperta curiosidade é o fluminense Lourival de Freitas, cuja trajetória consiste de duas fases: pré-Tom Jobim e pós-Tom Jobim. Antes de conhecer o autor de Garota de Ipanema, Lourival tinha o apelido de "Nero" – isso porque ele dizia que o imperador romano, aquele que mandou tacar fogo em Roma, era um dos espíritos com os quais trabalhava em seus cultos (que ajudante, hein?). Depois de se encontrar com Jobim, Lourival ganhou fama e passou a ser conhecido sob a alcunha de "Bruxo de Laranjeiras", numa referência ao bairro carioca onde morava. O bruxo era um especialista em ervas e plantas amazônicas. Mantinha centenas delas em sua casa e as usava para fazer chás e beberagens curativas. Também era dono de um aparelho criado por um cientista alemão que, segundo ele, seria capaz de medir a aura das pessoas – uma cadeira semelhante à dos consultórios dentários da qual saíam fios em direção a um painel cheio de controles e botões. A cadeira, segundo o livro, funcionou muito bem até que Lourival resolveu usá-la para medir a aura do compositor Milton Nascimento, de quem se tornara conhecido. Assim que começou a sessão, no entanto, todos os sensores do painel dispararam ao mesmo tempo. "A cadeira queimou e tive de mandá-la de volta para a Alemanha", contou o médium a Waldemar Falcão. Pelo jeito, alguém lá em cima não gosta de Travessia.

De acordo com o relato de Helena Jobim em sua biografia de Tom, seu irmão, o autor de Matita Perê começou a tomar as beberagens do bruxo Lourival com resultados notáveis. Entre outros benefícios, teria parado de beber e de fumar. "Parecia ter-se incorporado nele um ente da floresta (...) Em pouco tempo uma cor rosada e sadia começou a aparecer em seu rosto", escreve a biógrafa. Não, Tom não virou um duende. Mas ficou tão entusiasmado com as bruxarias que se tornou companhia freqüente de Lourival, inclusive auxiliando-o nas cirurgias espirituais. Cabe aí uma explicação importante: o médium, que operava com tesouras, facas de cozinha, agulhas de costura e o que mais estivesse à mão, usava como anestesia a música. A contribuição de Tom às atividades do amigo era tocar violão ou piano durante as tais cirurgias para evitar que o paciente sentisse dores. Certa vez, para se curar de um renitente mal no joelho, a cantora Miúcha preferiu entregar-se à dupla Lourival/Tom Jobim a fazer uso da medicina tradicional. Enquanto o bruxo lhe aplicava um líquido branco no joelho (com uma agulha não esterilizada, evidentemente), Tom interpretava ao violão De Todas as Maneiras, de Chico Buarque. A sessão, aliás, contou com o acompanhamento do próprio Chico nos vocais. "Terminada a cirurgia, meu joelho estava tão bom que Lourival dançou um frevo comigo, e depois fomos todos jantar", relata Miúcha. Sim, frevo.

Lourival morreu – ops, desencarnou – há poucos anos, mas uma outra médium acostumada ao assédio das estrelas continua na ativa. É conhecida como Célia, octogenária e até hoje comunista de carteirinha (duplamente espírita, portanto). Entre os diversos espíritos que ela diz freqüentar sua casa estão o do psicanalista Carl Gustav Jung (Freud não poderia gostar mesmo dele), o do compositor Wolfgang Amadeus Mozart e o das cantoras Linda Batista e Dalva de Oliveira. Entre os compositores – ainda encarnados, bem entendido – que já foram conhecer seu trabalho contam-se Ney Matogrosso e Gilberto Gil. "Fui por curiosidade e acabei muito impressionado com aquelas 500 pessoas reunidas num galpão, à espera de fazer contato com os espíritos por intermédio de Célia", conta Ney. Quando acabam os trabalhos de psicografia e há algum compositor presente, Célia pede que ele interprete uma música. Ney atacou de Rosa de Hiroshima, sucesso desde os tempos do conjunto Secos & Molhados. Em outra ocasião, Gilberto Gil, que preferiu não ser entrevistado sobre o assunto para esta reportagem, escolheu Superhomem para brindar a platéia presente. Num caso extraordinário que o livro diz ter ocorrido nos domínios de Célia, Falcão garante que ficou sabendo do nascimento de José, filho de Gilberto Gil, por intermédio de Pedro, o filho do compositor que faleceu tragicamente há anos, num acidente de automóvel. "Liguei para o Gil a fim de cumprimentá-lo e ele ficou espantado." Falcão contou-lhe, então, que Pedro havia encarnado em Célia para dar a boa notícia.

O astro inglês Steve Hackett, que fez fama no grupo Genesis, também provou da força dos orixás e dos espíritos. Numa temporada brasileira, foi levado por Falcão aos domínios de Luiz, outro médium célebre entre os artistas da MPB, para um jogo de búzios. Hackett ficou impressionado com a interpretação que o médium fez da posição das conchas – segundo o astro, ele acertara tudo a respeito de sua vida. Na seqüência, Luiz ajudou Hackett a resolver um problemão. Há tempos que o músico tentava vender uma mansão que possuía em Londres, mas sempre que o negócio estava prestes a ser fechado acontecia algo que impedia sua conclusão. Antes de Falcão partir para Londres, a fim de finalizar um disco que havia gravado no Brasil com Hackett, Luiz o chamou. "Existe um morador espiritual na casa que eles querem vender e é preciso fazer uma operação limpeza", disse-lhe. E receitou a solução do problema: espalhar muito milho branco, do tipo com que se faz canjica, pelos cômodos da casa. Steve Hackett garante que a receita foi tiro e queda e a casa foi logo vendida.

Encontros com Médiuns Notáveis não é uma obra de pregação, não pretende convencer ninguém a se converter ao espiritismo. Falcão apenas relata o que diz ter presenciado em suas andanças pelo mundo espiritual, fala dos médiuns com a intimidade de quem conviveu longamente com eles e, principalmente, nunca despreza a possibilidade de quem ler aquelas linhas não acreditar em uma palavra que elas contêm. De qualquer forma, lêem-se com curiosidade os relatos dos casos, muitos deles ocorridos na própria família do autor. A MPB é realmente de outro mundo.

 

Uma cirurgia espiritual,
com Tom Jobim ao violão

Emanuelle Bernard


Tom Jobim tornou-se cliente e amigo íntimo do médium Lourival de Freitas, apelidado de "o bruxo de Laranjeiras", que, com suas ervas e plantas da região amazônica, conseguiu que o maestro abandonasse a bebida e o cigarro. Lourival fazia cirurgias com facas, lâminas de barbear e agulhas de costura, sem desinfetá-las. Como anestesia, usava apenas a música, de preferência executada ao vivo. A cantora Miúcha submeteu-se a uma dessas cirurgias, no joelho, tendo ao fundo Chico Buarque – seu irmão – nos vocais e Tom ao violão, na música De Todas as Maneiras, de Chico.

 

Gilberto Gil e a psicografia

Divulgação


Gilberto Gil interessou-se pelos trabalhos de psicografia da médium Célia, que considera os artistas "as verdadeiras antenas da humanidade", e resolveu fazer-lhe uma visita. Lá chegando, cantou Superhomem e fez um dueto com Pery Ribeiro, que acredita comunicar-se por meio da médium com a mãe já morta, a cantora Dalva de Oliveira. Célia dizia também receber mensagens de Pedro, o filho de Gil já falecido.

 

 

Ney foi procurar Linda Batista

André Nazareth/Strana


O cantor Ney Matogrosso acredita em reencarnação e acha uma pena que o catolicismo a tenha eliminado de sua doutrina. Seus pais eram espíritas, mas, quando criança, ele tinha medo de que um espírito aparecesse na sua frente. Há poucos anos, foi visitar um centro espírita e impressionou-se com o que ouviu: "A médium me contou que a cantora Linda Batista, já falecida, aparecia muito por lá, e isso foi um dos estímulos para que eu produzisse um musical sobre essa artista".

 

Receita para vender mansão em Londres

Didier Debusscher/Reuters


Passando pelo Rio de Janeiro, o músico inglês Steve Hackett, do grupo Genesis, foi consultar o médium Luis. Acabou ganhando uma receita para resolver um problema patrimonial: fazia muito tempo que ele tentava vender sua mansão em Londres, mas não apareciam compradores. Segundo o médium, havia uma presença espiritual na casa que impedia a venda. Solução: espalhar um bocado de milho branco pelo imóvel. Hackett garante no livro que deu certo.

 

O poder da aura de Milton Nascimento

Divulgação


Milton Nascimento recorreu ao médium Lourival, o mesmo de Tom Jobim, para curar uma tonteira que o atormentava fazia anos. Lourival resolveu submeter Milton a um aparelho eletrônico que, segundo dizia, era capaz de ler a aura das pessoas. Os sensores do aparelho dispararam. A engenhoca queimou e foi enviada de volta à Alemanha para conserto.

 
 
 
 
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