|
|
Especial Sarau
místico-musical O livro Encontros com
Médiuns Notáveis adiciona novas histórias à
eterna peregrinação dos artistas em busca do outro lado da vida

Okky de Souza
A música
popular brasileira é mesmo uma coisa de outro mundo, a julgar pelo livro
Encontros com Médiuns Notáveis (Nova Era; 195 páginas;
29,90 reais), que chega às livrarias nesta semana. Seu autor, Waldemar
Falcão, é figura popular no meio artístico carioca. Na esfera
terrena, é músico e já trabalhou em gravadoras multinacionais.
Em investidas mais elevadas, já atuou como editor de obras espiritualistas
e é astrólogo. A parte mais substanciosa de seu livro é um
perfil detalhado dos principais médiuns que ele conheceu em sua cruzada
espiritualista, recheado de casos impressionantes para quem acredita em textos
psicografados, cirurgias feitas com instrumentos domésticos sem assepsia,
reencarnação e outras manifestações de entidades do
além. Os clientes desses médiuns? Muitos deles são medalhões
da MPB. No livro de Falcão, o médium
que mais desperta curiosidade é o fluminense Lourival de Freitas, cuja
trajetória consiste de duas fases: pré-Tom Jobim e pós-Tom
Jobim. Antes de conhecer o autor de Garota de Ipanema, Lourival tinha o
apelido de "Nero" isso porque ele dizia que o imperador romano, aquele
que mandou tacar fogo em Roma, era um dos espíritos com os quais trabalhava
em seus cultos (que ajudante, hein?). Depois de se encontrar com Jobim, Lourival
ganhou fama e passou a ser conhecido sob a alcunha de "Bruxo de Laranjeiras",
numa referência ao bairro carioca onde morava. O bruxo era um especialista
em ervas e plantas amazônicas. Mantinha centenas delas em sua casa e as
usava para fazer chás e beberagens curativas. Também era dono de
um aparelho criado por um cientista alemão que, segundo ele, seria capaz
de medir a aura das pessoas uma cadeira semelhante à dos consultórios
dentários da qual saíam fios em direção a um painel
cheio de controles e botões. A cadeira, segundo o livro, funcionou muito
bem até que Lourival resolveu usá-la para medir a aura do compositor
Milton Nascimento, de quem se tornara conhecido. Assim que começou a sessão,
no entanto, todos os sensores do painel dispararam ao mesmo tempo. "A cadeira
queimou e tive de mandá-la de volta para a Alemanha", contou o médium
a Waldemar Falcão. Pelo jeito, alguém lá em cima não
gosta de Travessia. De acordo com o relato
de Helena Jobim em sua biografia de Tom, seu irmão, o autor de Matita
Perê começou a tomar as beberagens do bruxo Lourival com resultados
notáveis. Entre outros benefícios, teria parado de beber e de fumar.
"Parecia ter-se incorporado nele um ente da floresta (...) Em pouco tempo uma
cor rosada e sadia começou a aparecer em seu rosto", escreve a biógrafa.
Não, Tom não virou um duende. Mas ficou tão entusiasmado
com as bruxarias que se tornou companhia freqüente de Lourival, inclusive
auxiliando-o nas cirurgias espirituais. Cabe aí uma explicação
importante: o médium, que operava com tesouras, facas de cozinha, agulhas
de costura e o que mais estivesse à mão, usava como anestesia a
música. A contribuição de Tom às atividades do amigo
era tocar violão ou piano durante as tais cirurgias para evitar que o paciente
sentisse dores. Certa vez, para se curar de um renitente mal no joelho, a cantora
Miúcha preferiu entregar-se à dupla Lourival/Tom Jobim a fazer uso
da medicina tradicional. Enquanto o bruxo lhe aplicava um líquido branco
no joelho (com uma agulha não esterilizada, evidentemente), Tom interpretava
ao violão De Todas as Maneiras, de Chico Buarque. A sessão,
aliás, contou com o acompanhamento do próprio Chico nos vocais.
"Terminada a cirurgia, meu joelho estava tão bom que Lourival dançou
um frevo comigo, e depois fomos todos jantar", relata Miúcha. Sim, frevo.
Lourival morreu ops, desencarnou
há poucos anos, mas uma outra médium acostumada ao assédio
das estrelas continua na ativa. É conhecida como Célia, octogenária
e até hoje comunista de carteirinha (duplamente espírita, portanto).
Entre os diversos espíritos que ela diz freqüentar sua casa estão
o do psicanalista Carl Gustav Jung (Freud não poderia gostar mesmo dele),
o do compositor Wolfgang Amadeus Mozart e o das cantoras Linda Batista e Dalva
de Oliveira. Entre os compositores ainda encarnados, bem entendido
que já foram conhecer seu trabalho contam-se Ney Matogrosso e Gilberto
Gil. "Fui por curiosidade e acabei muito impressionado com aquelas 500 pessoas
reunidas num galpão, à espera de fazer contato com os espíritos
por intermédio de Célia", conta Ney. Quando acabam os trabalhos
de psicografia e há algum compositor presente, Célia pede que ele
interprete uma música. Ney atacou de Rosa de Hiroshima, sucesso
desde os tempos do conjunto Secos & Molhados. Em outra ocasião, Gilberto
Gil, que preferiu não ser entrevistado sobre o assunto para esta reportagem,
escolheu Superhomem para brindar a platéia presente. Num caso extraordinário
que o livro diz ter ocorrido nos domínios de Célia, Falcão
garante que ficou sabendo do nascimento de José, filho de Gilberto Gil,
por intermédio de Pedro, o filho do compositor que faleceu tragicamente
há anos, num acidente de automóvel. "Liguei para o Gil a fim de
cumprimentá-lo e ele ficou espantado." Falcão contou-lhe, então,
que Pedro havia encarnado em Célia para dar a boa notícia.
O astro inglês Steve Hackett, que fez fama no grupo
Genesis, também provou da força dos orixás e dos espíritos.
Numa temporada brasileira, foi levado por Falcão aos domínios de
Luiz, outro médium célebre entre os artistas da MPB, para um jogo
de búzios. Hackett ficou impressionado com a interpretação
que o médium fez da posição das conchas segundo o
astro, ele acertara tudo a respeito de sua vida. Na seqüência, Luiz
ajudou Hackett a resolver um problemão. Há tempos que o músico
tentava vender uma mansão que possuía em Londres, mas sempre que
o negócio estava prestes a ser fechado acontecia algo que impedia sua conclusão.
Antes de Falcão partir para Londres, a fim de finalizar um disco que havia
gravado no Brasil com Hackett, Luiz o chamou. "Existe um morador espiritual na
casa que eles querem vender e é preciso fazer uma operação
limpeza", disse-lhe. E receitou a solução do problema: espalhar
muito milho branco, do tipo com que se faz canjica, pelos cômodos da casa.
Steve Hackett garante que a receita foi tiro e queda e a casa foi logo vendida.
Encontros com Médiuns Notáveis
não é uma obra de pregação, não pretende convencer
ninguém a se converter ao espiritismo. Falcão apenas relata o que
diz ter presenciado em suas andanças pelo mundo espiritual, fala dos médiuns
com a intimidade de quem conviveu longamente com eles e, principalmente, nunca
despreza a possibilidade de quem ler aquelas linhas não acreditar em uma
palavra que elas contêm. De qualquer forma, lêem-se com curiosidade
os relatos dos casos, muitos deles ocorridos na própria família
do autor. A MPB é realmente de outro mundo.
| Uma cirurgia espiritual, com Tom Jobim
ao violão
Emanuelle Bernard  |
Tom Jobim tornou-se cliente e amigo íntimo
do médium Lourival de Freitas, apelidado de "o bruxo de Laranjeiras", que,
com suas ervas e plantas da região amazônica, conseguiu que o maestro
abandonasse a bebida e o cigarro. Lourival fazia cirurgias com facas, lâminas
de barbear e agulhas de costura, sem desinfetá-las. Como anestesia, usava
apenas a música, de preferência executada ao vivo. A cantora Miúcha
submeteu-se a uma dessas cirurgias, no joelho, tendo ao fundo Chico Buarque
seu irmão nos vocais e Tom ao violão, na música De
Todas as Maneiras, de Chico.
| |
| Gilberto Gil e a psicografia
Divulgação  |
Gilberto Gil interessou-se pelos trabalhos
de psicografia da médium Célia, que considera os artistas "as verdadeiras
antenas da humanidade", e resolveu fazer-lhe uma visita. Lá chegando, cantou
Superhomem e fez um dueto com Pery Ribeiro, que acredita comunicar-se por
meio da médium com a mãe já morta, a cantora Dalva de Oliveira.
Célia dizia também receber mensagens de Pedro, o filho de Gil já
falecido.
| |
| Ney foi procurar Linda Batista
André Nazareth/Strana  |
O cantor Ney Matogrosso acredita em reencarnação
e acha uma pena que o catolicismo a tenha eliminado de sua doutrina. Seus pais
eram espíritas, mas, quando criança, ele tinha medo de que um espírito
aparecesse na sua frente. Há poucos anos, foi visitar um centro espírita
e impressionou-se com o que ouviu: "A médium me contou que a cantora Linda
Batista, já falecida, aparecia muito por lá, e isso foi um dos estímulos
para que eu produzisse um musical sobre essa artista".
| |
| Receita para vender mansão em Londres
Didier Debusscher/Reuters  |
Passando pelo Rio de Janeiro, o músico inglês
Steve Hackett, do grupo Genesis, foi consultar o médium Luis. Acabou ganhando
uma receita para resolver um problema patrimonial: fazia muito tempo que ele tentava
vender sua mansão em Londres, mas não apareciam compradores. Segundo
o médium, havia uma presença espiritual na casa que impedia a venda.
Solução: espalhar um bocado de milho branco pelo imóvel.
Hackett garante no livro que deu certo.
| |
O poder da aura de Milton Nascimento
Divulgação  |
Milton Nascimento recorreu ao médium Lourival,
o mesmo de Tom Jobim, para curar uma tonteira que o atormentava fazia anos. Lourival
resolveu submeter Milton a um aparelho eletrônico que, segundo dizia, era
capaz de ler a aura das pessoas. Os sensores do aparelho dispararam. A engenhoca
queimou e foi enviada de volta à Alemanha para conserto.
| |
|