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Especial Os
vivos e a as outras vidas É possível
que a existência humana, tão complexa e rica, se dissolva quando
o coração pára? Com uma resposta prática para
essa questão crucial e a promessa de comunicação
direta com os mortos, o espiritismo tornou-se a religião ou,
pelo menos, a segunda opção religiosa de 40 milhões
de brasileiros  Gabriela
Carelli
Luludi/Ag.
Luz
 | | Sessão
espírita em São Paulo: em busca de ajuda e orientação |
O homem passa boa parte do tempo
projetando o futuro. Descobrir o mundo, aprender novas lições, apaixonar-se,
gerar e criar filhos, perseguir objetivos, aspirar à felicidade. Tudo isso
compõe um ritual de celebração da vida e torna tão
rica a aventura humana que uma reflexão crucial se impõe: é
possível que a existência, tão complexa, se dissolva feito
fumaça assim que o coração e o cérebro param de funcionar?
Desde tempos imemoriais o homem se recusa a acreditar nessa fatalidade. Todas
as religiões, sem exceção, enxergam na morte o início
de outro tipo de existência, que começaria pela sobrevivência
de uma parte da essência humana chame-se a ela de alma, espírito
ou qualquer outro nome. A crença na vida após a morte é universal.
Os brasileiros, claro, não são exceção. Entre nós,
talvez mais do que entre outros povos, não apenas se crê na eternidade
da alma, mas se dá como certo que a reencarnação e a comunicação
com os mortos são possíveis. Há
nisso um sincretismo religioso tipicamente brasileiro. De acordo com o IBGE, 74%
dos brasileiros declaram-se católicos, e a doutrina da Igreja Católica
não concebe a comunicação direta entre mortos e vivos. Pelo
menos não entre mortais comuns e mortos idem. A comunicação
entre santos e mortais é admitida pela doutrina católica. Mas apenas
quando ocorre um milagre. Coisa rara, como se sabe. Na prática, boa parte
desse contingente católico também dirige sua fé ou sofre
a influência de outro credo sem expressão no exterior e que só
cresce no Brasil: o espiritismo. Segundo essa doutrina, codificada em 1857, na
França, por Allan Kardec pseudônimo do pedagogo Hippolyte
Léon Denizard Rivail , a alma de todo ser humano morto reencarna
tantas vezes quantas forem necessárias para que, devido às boas
ações, ela se purifique. Quando atinge o patamar mais alto, torna-se
um espírito puro, livre de imperfeições, e não mais
retorna ao corpo físico. O espiritismo também crê que, com
algum treino, qualquer pessoa pode se comunicar com os mortos. A questão
é: para que fazer isso? Há várias respostas possíveis.
A primeira é receber conselhos e orientação daqueles que
já superaram os constrangimentos da existência corpórea. A
segunda diz respeito à dor humana. Imagine uma mãe que chora a perda
de um filho. Pode haver mais conforto que um contato espiritual, no qual ele lhe
assegura que passa bem na vida póstuma?
No princípio era o medo. E o medo se fez crença. Para o sociólogo
alemão Max Weber (1864-1920) essa seria a maneira mais simples de explicar
o surgimento das religiões nas sociedades humanas. Por temor à fome,
aos perigos e à morte, em determinada fase de sua evolução
cultural, a humanidade apegou-se ao fervor religioso. Com ele veio a crença
na vida eterna e no renascimento da alma e até do corpo físico em
uma ou sucessivas existências. Veio também a idéia de que
é possível a comunicação entre vivos e mortos. De
uma maneira ou de outra, as convicções acima estão presentes
em quase todas as religiões, mesmo nas que renegam essas facetas. Quando
um católico reza para um santo de sua devoção ou quando,
em caso de milagre, uma figura sagrada lhe aparece em carne e osso ou em forma
éterea, está se dando uma espécie de comunicação
entre vivos e mortos. Os budistas negam a existência de uma alma substantiva,
mas acreditam na transmigração do carma conjunto das ações
dos homens e suas conseqüências em algo que só pode ser
definido como espírito. Sigmund Freud (1856-1939),
criador da psicanálise, tinha uma explicação para a prevalência
na história das sociedades humanas da crença na transcendência
do espírito. Ela não difere muito da de Weber. "Podemos dizer que,
para a psicanálise, conceitos como reencarnação e comunicação
com os mortos servem de consolo para a angústia que sentimos diante da
finitude", explica a psicanalista freudiana Karin Wondracek, professora da Escola
Superior de Teologia de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. De várias
formas, os psicanalistas e os místicos estão atrás de respostas
à mesma pergunta. O ser humano já foi definido como o único
animal que sabe que vai morrer. É natural que a pergunta seguinte seja:
o que vem depois? Essa pergunta aparece nas obras
mais ancestrais da cultura humana. Na cultura grega clássica era permitido
às almas escolher novos seres para encarnar, fossem humanos ou animais.
O ciclo de reencarnações e renascimentos é o núcleo
do hinduísmo e do budismo, e estava na base da própria vida do Egito
dos faraós. Não por acaso, eles eram sepultados com suas riquezas,
para que pudessem desfrutá-las no outro mundo. Como os espíritas
atuais, os egípcios acreditavam que só depois da morte a existência
humana alcançava a plenitude. William Shakespeare reservou a um espírito
um dos papéis principais de sua obra-prima, Hamlet. O pai do personagem-título,
príncipe da Dinamarca, volta em forma de fantasma para lhe informar que
fora morto pela mulher e seu amante, que lhe roubara o trono. O célebre
diálogo dessa peça ("ser ou não ser") trata exatamente da
angústia humana diante da impossibilidade de saber que sonhos trará
o sono da morte. Além de cultivar ainda
hoje os ritos de origem africana, comuns a diversos países onde a escravidão
foi a base da economia no passado, o país sobressai nas estatísticas
mundiais como a pátria do espiritismo de inspiração kardecista
nome que deriva do francês Allan Kardec, estudioso positivista do
fim do século XIX que produziu uma versão cientificista dos fenômenos
religiosos focados na vida depois da morte. Segundo a Federação
Espírita Brasileira, mais de 40 milhões de pessoas seguem a doutrina
de Allan Kardec no Brasil. Apenas 2% dos brasileiros se dizem espíritas
nos censos oficiais. A imensa maioria simplesmente acrescenta, sem drama de consciência,
os ensinamentos de Kardec aos das religiões que professam oficialmente.
Funcionam no país 10.000 centros espíritas. Eles eram apenas 3 000
no começo dos anos 90. Duzentas editoras publicam somente livros voltados
para a comunidade espírita. Já foram vendidos 22 milhões
de exemplares de sete livros escritos por Allan Kardec no Brasil.
A razão do sucesso é a mesma que alavanca esse tipo de crença
em todo o mundo e alavancou no passado: a rejeição da idéia
de que o sofrimento, o som e a fúria sem significado da vida humana possam
ser totalmente em vão. "O espiritismo conforta seus seguidores porque oferece
explicações para todas as mazelas da vida e coloca o sofrimento
como uma forma de purificação da alma", diz Antonio Flávio
Pierucci, sociólogo especialista em religiões da Universidade de
São Paulo. O espiritismo é mais direto, mas oferece um produto bastante
similar ao das demais religiões. Todas prometem um mundo melhor além-túmulo,
em geral em contato próximo com o esplendor do Divino. O que o espiritismo
tem de próprio, ainda que não seja um monopólio seu, é
o fato de acenar com a certeza de que, no futuro, haverá outras vidas,
quantas forem necessárias, para tirar as manchas da alma. "A doutrina católica
não ensina aos fiéis como lidar com a dor que os mortos deixam nos
vivos nem explica as injustiças da vida. O sucesso do espiritismo deriva
justamente dessa capacidade", diz o frei Luiz Carlos Susin, professor de teologia
da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
A crença maciça na reencarnação e na comunicação
com os mortos não é uma extravagância brasileira. Uma pesquisa
recente mostrou que 51% dos americanos acreditam em espíritos e 27% crêem
em reencarnação. O que nos diferencia são a respeitabilidade
alcançada por essas crenças na sociedade brasileira e as dimensões
do espiritismo no país. O Brasil foi desde sempre um terreno fértil
para crenças baseadas na comunicação com os espíritos
e na reencarnação. Os escravos vindos da África entre os
séculos XVI e XIX trouxeram crenças no contato direto com o mundo
dos mortos, que floresceram e permearam todos os estratos da sociedade. Também
os índios conversavam com seus mortos, cujo espírito, acreditavam,
permanecia entre os membros da tribo por algum tempo. Nos Estados Unidos, os negros
e os índios cultivavam práticas semelhantes, mas elas foram perseguidas
até a extinção pelos protestantes para eles, o conceito
de encarnação era coisa do diabo, não de espíritos.
Os primeiros brasileiros foram mais tolerantes com o mundo mágico dos escravos
e dos índios, aproveitando-se das dificuldades encontradas pela Inquisição
para impor o rigor católico na parte de baixo do Equador. Conclui Ceres
Medina, antropóloga da Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo: "Quando as idéias de Allan Kardec chegaram ao Brasil,
pelas mãos da elite que costumava estudar na França, foram assimiladas
facilmente porque o brasileiro já convivia com as práticas espiritualistas".
O espiritismo desembarcou no Brasil no momento
de crise política que antecedeu o advento da República. Naquele
período, havia uma insatisfação com a cúpula da Igreja
Católica, ligada ao conservadorismo político da monarquia. A doutrina
de Allan Kardec era ao mesmo tempo uma filosofia de vida e uma lista de preceitos
religiosos, e os brasileiros foram hábeis em transformar esse caldo em
religião. "Os adeptos procuravam usar ao máximo os conceitos científicos
em voga na época, principalmente o racionalismo e o evolucionismo, para
justificar o espiritismo, o que dava aos cultos uma respeitabilidade que atraía
a elite letrada", diz José Luiz dos Santos, chefe do departamento de antropologia
da Universidade Estadual de Campinas. "Para divulgar a doutrina, a elite tratou
de atrair pobres como clientes. Já no fim do século XIX eles procuravam
os centros espíritas para resolver seus problemas de saúde", explica
ele. O espiritismo deslanchou de vez no Brasil
pelas mãos do médium mineiro Chico Xavier (1910-2002), que se tornou
uma celebridade nacional ao receber diariamente, em seu centro espírita,
caravanas intermináveis de crentes em busca de curas e contatos com os
mortos. De origem humilde e com instrução primária, o médium
escreveu 400 livros atribuídos por ele a autores já mortos e que
venderam mais de 30 milhões de cópias. Para os milhares de brasileiros
que acorreram a ele, no entanto, Chico Xavier era quase um santo. "A grande contribuição
de Xavier foi mostrar o lado da caridade que pontua a cartilha de Allan Kardec",
diz Ceres Medina. "Ao propagar a prática da caridade, ele humanizou o espiritismo
e acabou com o preconceito contra ele", completa. Em outros países, o espiritismo
kardecista não teve tanta sorte. Em seu país de origem, a França,
ele definhou. "Até hoje o espiritismo é confundido com bruxaria",
disse a VEJA Charles Kempf, coordenador do Centro de Estudos Espíritas
Léon Denis, da cidade francesa de Thann. Kempf tem uma explicação
adicional para o êxito do espiritismo no Brasil. É uma explicação
bem material. Se a prática da caridade e do assistencialismo chancelou
o espiritismo no Brasil, na França isso não ocorreu. A razão?
O assistencialismo do Estado francês funciona com razoável perfeição,
não deixando espaço para os espíritas utilizarem esse recurso
para angariar um rebanho maior.
"O espiritismo não consola, explica as
desgraças da vida" Oscar
Cabral
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Todas
as noites Lily Marinho, viúva do fundador das Organizações
Globo, Roberto Marinho, segue um ritual: enche um copo de água e o coloca
ao lado do retrato do marido, na cabeceira da cama. De manhã, joga fora
a água. "Dizem que tudo de ruim fica concentrado ali", diz Lily, que é
católica, mas desde que o filho Horácio morreu, em 1966, encontrou
conforto no espiritismo. Leu Allan Kardec, foi a centros espíritas, visitou
Chico Xavier e chegou a ter uma visão. "Eu estava em Paris quando vi Horácio,
vestido de branco, segurando uma criança. Entendi que era um recado dele
para eu adotar um menino", conta. Sete meses depois da morte do filho ela adotou
um garoto, João Baptista. Lily afirma ter encarado a morte de Roberto de
forma mais tranqüila e que sente a presença dele pela casa. Aos 84
anos, ela não tem o hábito de ir à missa (apesar de ter providenciado
celebrações em memória do filho numa igreja de Milão),
garante que não teme a morte e acredita em reencarnação.
Diz Lily: "O espiritismo não é um consolo. É uma explicação
para as desgraças da vida".
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"Uma carta psicografada mudou minha vida" Roberto
Setton
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Ex-jogadora
da Seleção Brasileira de Basquete, Maria Paula Gonçalves
da Silva, a Magic Paula, de 43 anos, é espírita desde 1992. Conheceu
a doutrina em 1983, quando se submeteu a uma cirurgia espiritual, que sanou uma
lesão grave que tinha no joelho. Em 1999, passou por uma experiência
marcante. Durante uma sessão de massagem, a profissional que a atendia
passou mal e saiu da sala. "Quando ela voltou tinha nas mãos uma carta
psicografada com uma mensagem do meu pai", diz Paula. "Eu me senti culpada quando
ele morreu. A carta era sobre essa culpa. Mudou minha vida."
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Hollywood e o cenário do além
Uma série de sucessos de bilheteria cujo tema é a comunicação
entre vivos e mortos reflete o interesse despertado pelo tema, sobretudo o existente
nos Estados Unidos, onde os filmes são produzidos. As pesquisas mostram
que mais de 50% dos americanos acreditam em espíritos, 27% deles, em reencarnação,
e nove em dez estão certos de que a alma sobrevive à morte. À
esquerda, Nicole Kidman em Os Outros, e, à direita, Bruce Willis
em O Sexto Sentido, ambos filmes sobre fantasmas. | |
Com reportagem
de Tiago Cordeiro e Thereza Venturoli
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