|
|
Internacional Vizinho
na contramão O que incomoda Kirchner é
o fato de que o governo Lula escolheu a política econômica
certa e ele não  José
Eduardo Barella
A
história das relações entre Brasil e Argentina obedece a
um princípio básico: toda vez que a economia de um deles atinge
velocidade superior à do outro, surgem atritos diplomáticos. Foi
assim nos últimos 100 anos e é o que está por trás
da saraivada de declarações mal-humoradas com as quais o presidente
argentino Néstor Kirchner tem alvejado o governo brasileiro. O chanceler
argentino Rafael Bielsa foi escalado pelo presidente para criticar a iniciativa
brasileira de dar asilo ao presidente equatoriano Lucio Gutiérrez, derrubado
no mês passado, e de pressionar por uma aliança política entre
os países sul-americanos sem antes privilegiar a reabilitação
do Mercosul. Os argentinos também já avisaram que não apóiam
a pretensão brasileira de ter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança
das Nações Unidas. A imprensa argentina atribuiu a Kirchner a seguinte
declaração, que não foi negada pela Casa Rosada: "Se há
um posto vazio na Organização Mundial do Comércio, o Brasil
quer. Se há um lugar na ONU, o Brasil quer. Onde há uma vaga, o
Brasil quer para ele... Até queriam ter um papa brasileiro!".
A amargura direcionada ao Brasil, no fundo, é o prenúncio de que
dias difíceis estão pela frente para o governo argentino. Nada mais
oportuno, portanto, na melhor tradição populista, do que já
ir providenciando um bode expiatório. "A atitude do governo argentino,
na verdade, está mais relacionada ao declínio econômico e
comercial da Argentina e ao enfraquecimento político de Kirchner do que
a qualquer coisa que o Itamaraty tenha feito nos últimos meses", disse
a VEJA o analista político argentino Rosendo Fraga, diretor do Centro de
Estudos Nova Maioria, de Buenos Aires. O que afeta o humor do presidente argentino,
de acordo com Fraga, é o fato de o rumo da prudência econômica
e política escolhido pelo governo brasileiro estar dando melhores resultados
do que a delinqüência econômica adotada pela Argentina. Diferentemente
dos vários presidentes que se sucederam na Casa Rosada, Lula reinventou-se
no governo. De um lado, abomina a aventura econômica das moratórias
e bazófias, tão caras aos argentinos. De outro, persegue o desenvolvimento
social como meta. O governo Lula não é de esquerda nem de direita.
É de bom senso. Kirchner foi na direção
contrária. Ele herdou um país arrasado, em moratória internacional
e sem credibilidade. Para manter a governabilidade ele adotou medidas populistas
que colocaram a economia para andar a qualquer custo. Gastou mais do que arrecadou,
usou o dinheiro do Estado para tocar o tradicional governo clientelista argentino
em lugar de investir em infra-estrutura, deu de ombros ao risco da inflação.
Do ponto de vista da Argentina, ele renegociou parte da dívida externa
privada obtendo um desconto de 67 bilhões de dólares. Do ponto de
vista dos credores, Kirchner deu um megacalote de 67 bilhões de dólares.
No primeiro momento, o dinheiro do calote sustentou
a recuperação econômica. Funcionou. Ocorre que a liquidez
instantânea produziu efeito semelhante a uma bolha financeira. O custo das
bolhas é inflação. Nos três primeiros meses do ano,
a inflação argentina anualizada bateu em inacreditáveis 17%.
A projeção para o fim do ano é de 11% de inflação.
Na semana passada, a Argentina voltou a vender bônus da dívida pública,
mas a um custo que reflete o risco que o país oferece: terá de pagar
16,5% de juros ao ano. O Chile coloca títulos no mesmo mercado pagando
apenas 3,5% ao ano (mais 2% de inflação projetada para 2005). "Com
o distanciamento econômico entre Brasil e Argentina, era natural que o governo
brasileiro ocupasse espaço no cenário político regional,
deixando os argentinos ressentidos", diz o consultor de comércio exterior
Rubens Barbosa, de São Paulo. Ex-embaixador brasileiro em Washington e
Londres, Barbosa aponta uma razão prática que deveria impedir o
governo argentino de levar adiante sua desavença com o vizinho. "Na atual
situação, o Brasil é um dos raros países que se arriscam
a investir na Argentina", diz. O Brasil é o maior comprador de produtos
desse país. As picuinhas diplomáticas
da semana passada também têm a ver com a necessidade de Kirchner
de agradar à opinião pública argentina. Em outubro, haverá
eleições para o Congresso e para as províncias, e a vitória
de aliados é fundamental para Kirchner manter seu poder político.
"Ao bater no Brasil, ele tenta passar a imagem de um líder forte", diz
José Botafogo Gonçalves, ex-embaixador brasileiro em Buenos Aires
e presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais. Diz
Gonçalves: "É uma tática que não resolve o problema
central: os argentinos têm a sensação de que estão
ficando para trás, mas ainda não descobriram o caminho que precisam
seguir". |