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Polícia
Ligações perigosas
Escuta mostra que o MST orientou
a facção criminosa PCC a organizar
uma manifestação

Carlos Rydlewski e Fábio
Portela
Diego Padgurschi/Folha Imagem
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| Protesto em SP que reuniu mais de 4 000 pessoas:
detentos planejaram o transporte e até as palavras de ordem
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Era o que faltava: uma ligação
entre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Primeiro
Comando da Capital (PCC), facção criminosa que atua
nos cárceres paulistas. Não se sabe ainda se é
rasa ou profunda, mas, ao que tudo indica, ela existe. Um relatório
preparado pelo juiz Edmar de Oliveira Ciciliati, da Vara de Execuções
Criminais de Tupã (SP), com uma hora de escutas telefônicas,
feitas no início de abril pela Polícia Militar em
celulares de presos, sugere que o PCC contou com a colaboração
dos sem-terra para organizar um protesto em 18 de abril, em São
Paulo. Participaram da manifestação mais de 4.000
pessoas, no que foi a maior concentração de parentes
de condenados já vista no Brasil. O ato, que reivindicava
mudanças no regime de visitas dos presídios, mostrou
uma capacidade até então inédita de articulação
dos detentos.
As gravações indicam que o contato
com o MST teria começado por meio das relações
pessoais de um dos presos com integrantes do movimento. "Aí
veio a idéia de ter uma maior orientação no
campo de batalha", diz um criminoso (veja
trechos da escuta). As dicas dos sem-terra teriam
sido transmitidas em "palestras" ministradas a pessoas em liberdade,
que depois as repassaram para a facção criminosa.
Um integrante do MST ofereceu ainda os serviços de uma gráfica.
Nas ligações, há comentários sobre o
fato de um dos líderes do PCC ter conhecido José Rainha
Júnior, do MST, na prisão de Presidente Bernardes
(SP), em 2003. "Mas ele é sujo", diz o condenado. "Não
com ladrão (detentos comuns), mas com o comando (o
PCC)." Já um tal Gaúcho, apontado como membro
da cúpula do MST, seria "da hora".
Nos telefonemas gravados, parcialmente divulgados
na semana passada pelos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal
da Tarde, discutem-se ainda detalhes práticos do protesto,
como o preço do frete de ônibus para levar pessoas
do interior ao ato na capital. Cada veículo custou 1.300
reais. Os presos também acertaram o valor de 10.000 camisetas
cada uma a 6,40 reais. O juiz corregedor dos presídios,
Miguel Marques e Silva, afirma: "Tudo isso precisa ser apurado,
mas a questão que fica é como o Estado, organizado
e com mobilidade para defender a sociedade, não consegue
combater um grupo de presos que faz esse tipo de coisa de dentro
da cadeia".
Xico Graziano, ex-presidente do Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra),
não considera improvável que tenha sido estabelecida
uma relação mais próxima entre o MST e o PCC.
"Desde que passou a montar fábricas de sem-terra, o MST faz
alianças urbanas de todo tipo", diz Graziano. "Eles precisavam
arregimentar pessoas para a militância e, nesse processo,
essa aproximação é razoável." Razoável
e com precedentes, enfatize-se. Alianças entre bandos criminosos
e organizações que se pretendem revolucionárias
são comuns. O caso mais próximo e atual é a
associação entre as Farc, a guerrilha esquerdista
que inferniza a Colômbia, e os traficantes de cocaína
daquele país. Um alimenta o outro, numa simbiose que tenta
minar o poder do Estado.
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Os diálogos
do PCC
As
escutas feitas pela polícia de São Paulo,
no início de abril, flagraram conversas por celular
entre prisioneiros, todos apontados como integrantes
da facção criminosa Primeiro Comando da
Capital (PCC).
OS PERSONAGENS
Orlando Mota Júnior,
conhecido como Cala Calu, então preso na cidade
de Iaras. Condenado a 48 anos de prisão.
Douglas Azevedo,
o Da Paz, na ocasião, preso em Araraquara. Condenado
a dezesseis anos.
Marcos Willians
Camacho, vulgo Marcola ou Narigudo, atual cabeça
do PCC. Condenado a 39 anos.
Denis e Luizinho,
outros dois integrantes do grupo. Luizinho está
solto.
AS CONVERSAS
O PCC PEDE AJUDA AO MST
Fala 1. Entre Orlando Mota Júnior,
o Cala Calu, e Denis:
Cala Calu (...)
Eu acabei de conversar com os líderes do MST
e eles vão dar umas instrução
(sic) pra gente.
Fala 2. Entre Cala Calu e Douglas Azevedo, o Da Paz:
Da Paz (...) O Narigudo
(Marcola) conhece um dos líderes dele, que
estava em Bernardes. É sujo, o Rainha (José
Rainha).
Cala Calu É
sujo, né?
Da Paz Sujo, sujo.
Nem conversava (...) Mas um outro que assumiu e é
líder-geral deles lá, que é o Alemão,
e o nome dele é Gaúcho, ele já
mandou as cartas para o irmão aqui (Marcola).
Ele é um cara da hora, irmão, e está
fechando com a gente de igual.
Fala 3. Mantêm-se os personagens:
Cala Calu (...)
Nós pode (sic) ficar tranqüilo que
ele (o suposto integrante do MST) tem experiência
com isso, ele vai conduzir a situação
nossa, aí veio a idéia de (...) ter uma
maior orientação no campo de batalha,
entendeu? (...)
Da Paz Pra você
ver que, às vezes, os ventos estão a nosso
favor, né, cara?
Cala Calu Ele deixou
à nossa disposição até mesmo
a gráfica dele e as pessoas que faz (sic)
faixa para ele pra todo tipo de manifestação.
Da Paz Não
tô acreditando no tamanho do negócio que
estamos proporcionando. O bagulho é evolução,
mesmo. O barato vai ser mil grau (sic).
CRIME
MUITO ORGANIZADO
Fala 4. Da Paz faz comentários
sobre a consulta feita ao Ministério da Justiça,
por um advogado, sobre os ritos burocráticos
para organizar um protesto:
Da Paz Eles (do
Ministério da Justiça) não
podem estar diretamente com a gente, não vão
mover nenhuma palha. A única coisa que podem
fazer é mandar aviso para a prefeitura, para
a PM, a Civil (polícia), o DSV (departamento
de trânsito). Tem de avisar um monte de gente.
(...) Tudo isso, como eu posso te falar, é um
direito nosso. (...) Se vocês fizer (sic)
desse jeito, podem ir que já era. (...)
PODER
DE FOGO
Fala 5. Da cadeia, outros negócios
também são tratados nas ligações
gravadas, como a compra de uma metralhadora:
Luizinho Tem um
cara aqui que está vendendo uma matraca (metralhadora).
(...) Fala que dá 3 000 reais, no máximo
3 500 reais, se estiver nova.
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