Edição 1904 . 11 de maio de 2005

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Entretenimento
Sob o domínio da Força

Lançamento do sexto e último filme da
série Star Wars, na semana que vem,
mobiliza os fervorosos fãs da série


Sérgio Martins

 
Divulgação/Fox
Cena de A Vingança dos Sith: um dos mais sombrios da série Star Wars, o filme mostrará a origem da maldade do vilão Darth Vader
Hector Mata/AFP

No último censo do Reino Unido, 390.000 cidadãos declararam-se adeptos de uma fé inusitada: a "religião" Jedi. A identificação dos ingleses com a ordem dos guerreiros da série de cinema Star Wars é uma amostra do fervor que a saga criada pelo americano George Lucas desperta em seus fãs – e também fornece indícios do grau de excitação deles com a proximidade do lançamento mundial de seu sexto e último filme, Episódio III – A Vingança dos Sith, previsto para o dia 19. Mais de um mês antes de o filme estrear em 4.500 salas dos Estados Unidos, uma hoste de maníacos por Star Wars já montava acampamento em frente ao Chinese Theatre, um dos cinemas mais famosos de Los Angeles. De nada adiantou avisar-lhes que a fita não entraria em cartaz no lugar: eles se mantêm em vigília assim mesmo, por julgar que é uma manobra para despistá-los. No Brasil, o filme será exibido em 450 salas, o equivalente a um quarto do circuito nacional, e os ingressos estarão à venda com uma semana de antecedência para atender à demanda dos fãs. Ao surgir, no fim dos anos 70, Star Wars causou uma revolução – a fita elevou os efeitos especiais a um padrão até então impensável de excelência, inaugurou a era dos megalançamentos nos cinemas e inventou o merchandising em larga escala de produtos associados a filmes (só com isso, movimentou nada menos do que 5 bilhões de dólares até hoje). Mas não se trata apenas da série mais bem-sucedida de todos os tempos: Star Wars é, sobretudo, um fenômeno cultural.

Uma das razões da reverência exacerbada dos fãs é o fato de que Lucas foi hábil em construir um universo mitológico cujo apelo é comparável, por exemplo, ao da série literária O Senhor dos Anéis, do inglês J.R.R. Tolkien. Sob uma trama que mistura clichês de faroeste com duelos de capa e espada, trata de questões universais. A mais evidente delas é o conflito entre pai e filho, abordado nas lutas entre o herói Luke Skywalker e o vilão Darth Vader. "A série lida com arquétipos e isso prende as pessoas", diz a psicóloga Luisa de Oliveira, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Ainda que tenha decepcionado muitos fãs de primeira hora, a retomada da série por Lucas em 1999, com a decisão de filmar três episódios adicionais para esclarecer o início da trama que se desenrola nos filmes originais, lançados entre 1977 e 1983, só confirmou a força do culto. A Vingança dos Sith deve dar mais alento ao fenômeno. Em um dos momentos mais sombrios da série, a fita revela como o cavaleiro Anakin Skywalker, em sua ânsia pelo poder, acaba se rendendo ao lado negro da Força – e se transmutando em Darth Vader, que será inimigo do próprio filho.

Ainda que sedutor, o universo de Star Wars, com seus cavaleiros armados de sabres de luz e extraterrestres bisonhos, também tem um efeito infantilizante sobre certo estrato dos espectadores. Seus fãs mais exaltados promovem convenções em que se fantasiam como o Mestre Yoda e a princesa Leia, entre outros personagens. Além disso, debatem cada detalhe da trama como se fosse um versículo das Escrituras. A brincadeira às vezes se torna escapismo. Para aqueles que conheceram Star Wars em seus primórdios e hoje têm mais de 35 anos, por exemplo, trata-se de uma forma de esticar a adolescência. Mesmo o pessoal mais jovem, contudo, também cede a esse fascínio. "Só tomei contato com a série quando seus primeiros episódios foram relançados, nos anos 90, mas fiquei doida pela história", diz Fabiola Chierice, de 28 anos, "primeira-dama" do fã-clube Conselho Jedi, de São Paulo. Fé não se discute.

 

E AGORA, JEDI?

Eric Risberg/AP
Lucas: ele se fechou em sua própria série


George Lucas declarou em várias ocasiões que nunca quis se tornar o "Senhor Star Wars": achou que o primeiro filme da saga, lançado em 1977, consumiria um ano de sua vida e ela, então, prosseguiria como a de qualquer outro cineasta – com filmes diversos, sobre temas diferentes. Mas Lucas, que no dia 14 faz 61 anos, deixou que sua criatura o dominasse a ponto de impedi-lo de adquirir o traquejo que a profissão exige. Quando ele inaugurou sua série, havia feito apenas dois filmes: a ficção científica THX 1138 e o nostálgico American Graffiti, sobre um verão no interior da Califórnia. Graffiti foi o filme que pôs Lucas no mapa, ao tornar-se um dos recordistas da relação custo-benefício na história do cinema: custou 777 000 dólares e rendeu 150 vezes mais só nos Estados Unidos. Ao se fechar no mundo de Star Wars, porém, o cineasta tornou-se uma ilha-continente: é dono do maior fenômeno da história do cinema, mas tem um currículo resumidíssimo como diretor e um histórico irregular como produtor, em que sucessos como a série Indiana Jones se alternam com fiascos como Howard, o Super-Herói. Nem Lucas sabe dizer o que Lucas vai fazer agora que a sexta e última parte de Star Wars foi concluída. Em entrevista na última edição da revista Time, ele falou vagamente sobre filmes experimentais, meio abstratos, na linha de Koyaanisqatsi, além de um quarto Indiana Jones – que, de tanto ser prometido, já soa como conversa fiada. Não só os fãs de Star Wars, portanto, vão ficar desnorteados. Lucas parece tão carente de um guru quanto eles.

Isabela Boscov

 
 
 
 
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