|
|
Comportamento
Geração vaidade
A maioria dos jovens brasileiros acha que "pessoas bonitas têm mais
chances na vida". Um bom pretexto para gastar cada vez mais com roupas,
acessórios e tratamentos de beleza  Juliana
Linhares, André Rizek e Erin Mizuta
Fotos Lailson Santos
 | ANDRÉ
GRUNGLASSE, 19 anos, vestibulando
de relações públicas "Eu sou muito vaidoso, me considero
um metrossexual. Faço hidratação no cabelo, limpeza de pele,
academia, dieta balanceada e bronzeamento artificial a cada três meses.
No banho, uso três sabonetes: um para a pele do rosto; outro para o corpo;
e um terceiro, mais cheiroso, para dar perfume. Homem bonito tem mais moral."
| |
Os jovens brasileiros são
consumistas, acomodados, individualistas e, sobretudo, vaidosos muito vaidosos.
Trata-se de uma autodefinição. Nesta semana, a MTV divulgou os resultados
de pesquisa feita com 2.359 moradores de sete capitais brasileiras com idade entre
15 e 30 anos. Defrontados com uma lista de dezesseis adjetivos que poderiam caracterizar
a sua geração, mais de um terço dos entrevistados (37%) optou
pela palavra "vaidade". "Consumismo" veio em segundo lugar. Os jovens brasileiros,
afirma a pesquisa, preocupam-se com a forma (75% praticam esportes e 31% tentam
consumir alimentos diet ou com baixa quantidade de calorias), aprovam as cirurgias
plásticas com finalidades estéticas (55%) e se esforçam para
estar atualizados com a moda (41% já trocaram de aparelho celular de duas
a três vezes, por exemplo). Outro dado impressionante: 60% dos entrevistados
disseram concordar que "pessoas bonitas têm mais oportunidades na vida".
A pesquisa, encomendada ao instituto Datafolha, ouviu jovens pertencentes às
classes A, B e C, moradores das cidades de São Paulo (e interior), Salvador,
Brasília, Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre.
Pitadas
extras de narcisismo são parte da natureza adolescente. No caso brasileiro,
no entanto, tudo indica que há um certo exagero na dose. Entre os anos
de 2002 e 2003, o número de jovens que se submeteram a cirurgias plásticas
no país cresceu 45%, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica
Estética. Mais de 11% do total de plásticas realizadas no país
são feitas em pacientes de até 20 anos. Nos Estados Unidos, esse
número não passa de 7%. Lá, a cirurgia campeã é
a rinoplastia (correção do nariz para tratamento de distúrbios
respiratórios ou finalidades estéticas). No Brasil, lidera o ranking
das plásticas o implante de prótese para aumento dos seios. O jovem
brasileiro também é campeão mundial no que diz respeito à
disposição de consumir. Pesquisa feita pelo Instituto Akatu pelo
Consumo Consciente, em parceria com a Unesco, estudou hábitos de consumo
de jovens de diversos países e concluiu que, entre os que disseram "interessar-se
muito por compras", a maior porcentagem era de brasileiros: 37%. Os franceses
vieram em segundo lugar, com 32%, seguidos pelos japoneses (31%).

| GABRIELA
COMENALE, 19 anos, estudante de
biomedicina "Queria aumentar o tamanho dos meus seios desde que tinha 15
anos. Quando fiz 18, atormentei tanto o meu pai que ele me deu a operação
de aniversário. Coloquei 250 mililitros de silicone em cada seio, mas queria
muito mais. Meu sonho era ser igual à Danielle Winits, aquela atriz. O
médico é que não deixou." | |
Parece espantoso? Nem um pouco, afirmam especialistas.
"O jovem não é um grupo separado da sociedade. É parte e
reflexo dela", afirma a psicanalista Cleusa Pavan, professora do Instituto Sedes
Sapientiae, em São Paulo. Assim, num país campeão em cirurgias
plásticas, nada mais natural que os jovens também liderem o ranking
no seu segmento. O mesmo ocorre com o consumo. "O Brasil é uma nação
emergente. Países nessa situação, assim como pessoas, tendem
a valorizar ou exagerar hábitos de consumo, em especial os que denotam
poder e riqueza", afirma o publicitário Luiz Alberto Marinho, especialista
em tendências de consumo. Conclusão: se o universo adolescente vem
dando mostras de um narcisismo exacerbado e de um consumismo exagerado, a responsabilidade
por isso é, antes de tudo, dos adultos. "Os próprios pais desses
adolescentes estão muito preocupados com a aparência. A deles e a
dos filhos. Muitos cobram das crianças que sejam magras, bonitas e bem-vestidas
o tempo todo", diz a psicóloga Ceres Alves de Araujo, professora da PUC
de São Paulo. O psicanalista Contardo Calligaris também acredita
que a responsabilidade pelo comportamento dos jovens tem muito a ver com as expectativas
dos adultos. "Os adolescentes são sempre excelentes intérpretes
do desejo de seus pais", afirma Calligaris. "Assim, consciente ou inconscientemente,
acabam realizando os sonhos consumistas dos adultos que, não raro,
se dizem horrorizados com os hábitos dos filhos, mas sentem uma ponta de
prazer em vê-los realizar sonhos que eles próprios não querem
admitir que têm." O
consumismo adolescente, assim como a vaidade, vem sendo retratado com freqüência
em programas de TV dirigidos ao público jovem. A própria MTV criou
um programa inspirado nos reality shows americanos dedicados a mostrar as milagrosas
transformações de que são capazes um bom bisturi e um alentado
pacote de sessões dermatológicas. O Missão, apresentado
pela modelo Fernanda Tavares, patrocina banhos de loja e imersões em salões
de beleza a candidatos à metamorfose. Criado há menos de um ano,
já está entre as cinco atrações de maior audiência
da rede, que tem 35 programas ao todo. O seriado Malhação,
da Rede Globo, com seus roteiros de estilo edificante, também já
abordou o consumismo adolescente em diversos episódios. No mais recente
deles, um adolescente pobre e interesseiro se aproxima de uma jovem bonita e ricaça
só para se aproveitar do dinheiro dela e satisfazer seus desejos de consumo.
Termina arrependido e redimido pelo amor. O fato de, no seriado, o consumista
desenfreado ser um menino, e não uma menina, tem uma explicação.
O aumento da vaidade masculina é uma das conclusões mais notáveis
da pesquisa da MTV. Segundo o estudo, 37% dos adolescentes e jovens do sexo masculino
hoje cuidam das unhas, 28% usam cremes no rosto, 25% pintam o cabelo e 22% fazem
limpeza de pele. O estudante de direito Marcelo Campos Silva Abbondanza, de 22
anos, por exemplo, cumpre a lista inteira, à exceção da pintura
no cabelo. A cada dez dias, submete-se ainda a sessões de bronzeamento
artificial. "Tenho uma irmã mais velha, mas acho que sou o mais vaidoso
de casa", diz Marcelo. O estudante de arquitetura Guilherme Salsarella, de 18
anos, conta que seus cuidados com a beleza se resumem ao cabelo, diariamente arrumado
com a ajuda de cera importada. Em compensação, ele é capaz
de gastar toda a mesada, de 680 reais, em roupas e chegou a torrar 700 reais em
uma única conta de celular quer dizer, sua mãe torrou. Em
cinco anos, o estudante trocou dez vezes de aparelho.

| GUILHERME
SALSARELLA, 18 anos, estudante de
arquitetura "Não posso entrar em um shopping center. Compro até
acabar meu dinheiro. Tenho quinze pares de tênis, mais de 25 jaquetas e
37 calças jeans, embora só use cinco. Minha mãe fica louca.
Ela é psicopedagoga, socialista, superética. Nada perua. Eu sou
consumista por mim e por ela." | |
De acordo com a pesquisa da MTV, não são só os telefones
celulares que os jovens brasileiros vêm trocando com freqüência
cada vez maior. Ela mostra que 53% dos entrevistados já "ficaram" com mais
de uma pessoa na mesma noite e que 76% já beijaram na boca uma pessoa que
conheceram no mesmo dia. "Esse tipo de comportamento reforça a constatação
de que os jovens hoje têm uma ânsia muito grande pela novidade e,
principalmente, pela quantidade", afirma a psiquiatra Carmita Abdo. A obsolescência
acelerada, tanto dos objetos quanto dos relacionamentos, pode ter conseqüências
negativas para esses adultos em formação, alerta a psicóloga
Helena Lima. "Corremos o risco de ter uma geração de pessoas ansiosas
e insatisfeitas", diz ela. "Hoje, a felicidade e o bem-estar duram muito pouco.
Os jovens querem sempre um computador mais novo, um boné mais caro e um
corpo mais satisfatório." Nesse cenário, nem as modelos, símbolos
da perfeição estética, escapam da frustração.
Pesquisa realizada pelo psicólogo Marco Antonio De Tommaso com 140 delas
chegou à estarrecedora conclusão de que 100% das entrevistadas estão
insatisfeitas com o próprio corpo. A quase-totalidade (92%) disse que gostaria
de fazer lipoaspiração e 72%, plástica no rosto.
Aos
pais, resta o dilema diário de decidir se cedem ou não aos desejos
dos filhos. Uma menina de 16 anos deve se submeter a uma plástica nos seios?
O pedido de (mais) uma calça jeans de 1.600 reais deve ser respondido prontamente
com um "não" indignado? Especialistas afirmam que, para responder a questões
como essas, os pais devem levar em conta dois pontos fundamentais. O primeiro
é saber que ceder de imediato às demandas adolescentes seja
por excesso de condescendência, seja por falta de disposição
de brigar implica pelo menos um risco grave: o de criar filhos incapazes
de lidar com a frustração e com a espera, duas características
incompatíveis com o universo que os aguarda, o dos adultos. O segundo é
que, para o adolescente, ser aceito por seu grupo constitui uma necessidade tão
crucial quanto é, para o adulto, estar empregado, por exemplo. "É
por causa disso que eles precisam muito mais de símbolos de estilo do que
nós", diz o especialista em consumo Luiz Alberto Marinho. Uma calça
cara pode ser, aos olhos do adolescente, menos uma extravagância de consumo
do que uma espécie de senha para que ele consiga se integrar a sua turma.
Cabe aos pais avaliar o que está por trás do desejo dos adolescentes.
E, por via das dúvidas, dar uma espiada nos próprios extratos de
cartão de crédito, antes de se indignar com o filho gastão.

| MARCELO
ABBONDANZA, 22 anos, estudante de
direito "Faço as unhas, bronzeamento artificial e hidratação
no cabelo, entre outras coisas. Dependendo do lugar, há uma certa preferência
no atendimento a pessoas mais arrumadas. Nas baladas, por exemplo, se a hostess
olhar e você estiver bem, entra. Se não, elas te tesouram na porta.
O meu visual já ajudou muito." | | 
|