Edição 1904 . 11 de maio de 2005

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Saúde
Veneno do bem

Chega ao mercado o remédio contra
o diabetes que é feito a partir da
saliva de um lagarto


Paula Neiva

Acaba de ser aprovado pela FDA, a agência americana de controle de remédios e alimentos, o primeiro de uma nova classe de medicamentos contra o diabetes tipo 2, uma doença que atinge cerca de 10 milhões de brasileiros. Produzida em parceria pelos laboratórios Eli Lilly e Amylin, a substância exenatida será vendida sob o nome comercial de Byetta. A previsão é que o novo remédio chegue ao Brasil no próximo ano. A exenatida imita a ação do GLP-1, um hormônio produzido no intestino, na presença de alimentos. Entre outras funções, o GLP-1 estimula a produção e a secreção do hormônio insulina pelo pâncreas. Nos pacientes diabéticos tipo 2, a atividade do GLP-1 é insatisfatória, o que reduz as taxas de insulina e aumenta as de açúcar no sangue – as duas principais características do diabetes. A princípio, a exenatida será indicada em associação com dois outros tipos de remédio para o controle da doença – as metforminas, que melhoram o desempenho da insulina no organismo, e as sulfoniluréias, que incentivam a liberação de insulina pelo pâncreas. "Essa combinação de medicamentos é recomendada apenas para pacientes em estágio inicial ou moderado da doença", diz o endocrinologista Freddy Eliaschewitz, pesquisador da Universidade de São Paulo. Quadros mais graves de diabetes exigem doses extras de insulina.

A atuação da exenatida vai além. Ela também age no cérebro, aumentando a sensação de saciedade. Isso para um remédio contra o diabetes é um senhor predicado. O excesso de peso é um dos principais fatores de risco para a doença e aumenta a probabilidade de distúrbios cardiovasculares – o que, para os diabéticos, é especialmente grave. A presença de muito açúcar no sangue danifica a parede dos vasos sanguíneos e, assim, facilita o depósito de gordura, causa de infartos e derrames. Os estudos com a exenatida mostram que, depois de cerca de um ano, a perda de peso é de, em média, 4 quilos. Outra vantagem do novo medicamento, administrado por injeção duas vezes ao dia, antes do café-da-manhã e do jantar, é que ele age de forma inteligente. Suas moléculas ficam circulando pelo organismo, mas só entram em funcionamento quando as taxas de açúcar no sangue atingem níveis anormais. Dessa forma, o tratamento torna-se mais preciso. "Como a maioria dos medicamentos tradicionais não tem essa 'inteligência', o paciente fica mais sujeito a quedas bruscas nos níveis de açúcar, a hipoglicemia", diz o médico Daniel Lerário, endocrinologista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. O Byetta é o primeiro de uma série de lançamentos que prometem o controle do diabetes (veja quadro).

A exenatida foi desenvolvida a partir da saliva venenosa do monstro-de-gila, um lagarto que vive nos desertos do sudoeste dos Estados Unidos. Seu descobridor é o endocrinologista americano John Eng, de 56 anos. A substância foi isolada em 1990 e sua semelhança com o GLP-1, provada dois anos depois. A instituição em que o médico trabalhava, no entanto, não se interessou pela descoberta. Por conta própria, Eng patenteou o composto e foi em busca de um laboratório que se dispusesse a fabricar a exenatida. O primeiro a se interessar foi o Amylin, da Califórnia, que em seguida se juntou ao gigante Eli Lilly para lançar o Byetta.

 

 

 
 
 
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