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Educação
Com medo dos alunos Provocado
pela indisciplina na sala de aula, um distúrbio psicológico
se alastra entre os professores: a fobia escolar 
Ruth Costas
| Paulo Giandalia  | "Muitos
pais acreditam em tudo o que as crianças dizem e vêm procurar os
orientadores para tirar satisfação. Isso é ruim porque, ao
menor sinal de deslize, os alunos fazem o que querem. Por isso temos de ser duros.
Sem respeito com os professores, é impossível qualquer aprendizagem
e a escola perde o sentido." Neide Maria
Negrini, 49 anos, professora de português na Escola Pueri Domus, em São
Paulo | | Há
um problema novo nas escolas brasileiras: a indisciplina nas salas de aula assumiu
tais proporções que muitos professores estão com medo dos
alunos. Não se trata da violência que, nos bairros pobres, ultrapassa
os muros escolares e ameaça fisicamente os educadores, mas sim de um fenômeno
de subversão do senso de hierarquia que ocorre em grandes redes de ensino
privadas e também está presente em colégios tradicionais.
Uma explicação parcial para essa mudança de comportamento
é a seguinte: os alunos ignoram a autoridade do professor porque o vêem
como uma espécie de empregado ou prestador de serviços, pago por
seus pais. Uma das queixas mais comuns dos professores diz respeito ao sentimento
de impotência diante de alunos indisciplinados. Certas escolas agem como
se a lógica do comércio aquela que diz que o freguês
sempre tem razão também valesse dentro da classe. "Os professores
estão sofrendo de fobia escolar, antes um distúrbio psicológico
exclusivo das crianças", diz o psicanalista Raymundo de Lima, professor
do departamento de fundamentos da educação da Universidade Estadual
de Maringá, no Paraná.
O professor que desenvolve fobia escolar sente um pavor profundo da escola e da
sala de aula, acompanhado de alterações físicas como palpitações
e tremores. Os ambulatórios psiquiátricos dos hospitais brasileiros
já registraram o aumento dos casos de professores com distúrbios
de ansiedade, entre eles a fobia escolar. "O número de professoras que
têm procurado atendimento por estar estressadas, deprimidas ou sofrendo
de crise do pânico aumentou cerca de 20% nos últimos três anos",
diz Joel Rennó Júnior, coordenador do Projeto de Atenção
à Saúde Mental da Mulher do Hospital das Clínicas de São
Paulo. Até meados dos anos 90, esse tipo de distúrbio psicológico
era um quase monopólio daqueles professores que trabalham em escolas públicas.
Hoje, afeta igual quantidade de educadores de colégios particulares.
| "Os alunos me enlouqueciam, por isso resolvi
deixar o ensino e me dedicar a um doutorado. Eu me sentia humilhado. Não
havia nenhum respeito pelos professores. Durante o intervalo, meus colegas chegavam
à sala de convivência tremendo de raiva. Alguns choravam. E o pior
é que não recebíamos apoio nem dos pais, que protegem demais
os filhos, nem dos coordenadores, que têm medo de perder alunos."
Marcos Hideaki Ono, paulista
de 37 anos, ex-professor do ensino médio | Paulo
Giandalia  |
| Sempre fez parte
do desafio do magistério administrar adolescentes com hormônios em
ebulição e com o desejo natural da idade de desafiar as regras.
A diferença é que, hoje, em muitos casos, a relação
comercial entre a escola e os pais se sobrepõe à autoridade do professor.
"Ouvi em muitas reuniões com coordenadores o lembrete de que os pais e
os alunos devem ser tratados como clientes e, como tais, têm sempre razão",
diz Iole Gritti de Barros, de 54 anos, professora aposentada. Durante 33 anos
ela ministrou aulas de história para alunos da 5ª série em
colégios particulares de São Paulo. Em algumas escolas, o temor
de desagradar aos pais e perder os alunos acaba se sobrepondo à necessidade
de impor ordem na sala de aula. A postura leniente com a disciplina explica-se,
em parte, pelo número crescente de carteiras vazias. Em cinco anos foram
abertas 2.000 novas instituições particulares de ensino fundamental
e médio, enquanto a quantidade de alunos permaneceu inalterada.
Todo professor se prepara para as diabruras
tradicionais dos alunos, como colocar tachinhas na cadeira em que ele vai sentar
ou barbantes estendidos no chão da sala para vê-lo tropeçar.
São comportamentos que fazem parte do folclore escolar. A diferença
agora é que em muitas escolas os bagunceiros não são mais
castigados. "Há quarenta anos um jovem que adotasse esse tipo de postura
seria punido pela escola e receberia uma bronca em casa, tornando-se motivo de
vergonha para os pais", diz a pedagoga carioca Tania Zagury, autora do livro Escola
sem Conflito: Parceria com os Pais. "Hoje, a punição é
cada vez mais rara, tanto na escola como em casa." Os pais têm larga parcela
de culpa no que diz respeito à indisciplina dentro da classe. É
uma situação cada vez mais comum: eles trabalham muito e têm
menos tempo para dedicar à educação das crianças.
Sentindo-se culpados pela omissão, evitam dizer não aos filhos e
esperam que a escola assuma a função que deveria ser deles: a de
passar para a criança os valores éticos e de comportamento básicos.
É uma relação
contraditória. Os pais entregaram a educação dos filhos aos
colégios, mas alguns acham exageradas as exigências escolares ou
as punições impostas aos indisciplinados. Também se vêem
no direito de deixar o filho na escola com atraso ou buscá-lo mais cedo,
a pretexto de viajar ou ir ao dentista como se o horário de estudo
não tivesse importância. Sem poder impor regras aos alunos, os professores
acabam ficando impossibilitados de fazer aquilo que os pais esperam deles. A escola
é um lugar onde as crianças aprendem a convivência em sociedade,
com todas as suas regras. Ao perceberem que os pais estão sempre do seu
lado, os estudantes ficam com a impressão de que tudo é permitido.
"Um aluno chegou a me dizer que não iria fazer o que eu estava pedindo
porque, como o pai dele pagava a escola, ele se comportava como queria lá
dentro", diz a pernambucana Sandra Helena de Andrade, professora de português
em duas escolas privadas do Recife.
| "Nas reuniões com os coordenadores
eles exigiam que a gente tratasse os alunos como clientes, lembrando que freguês
tem sempre razão. Um absurdo. Eu sei que a escola é uma empresa,
mas tratar os alunos como clientes ou patrões é uma total inversão
dos papéis. Uma vez um aluno me disse que não ia me obedecer porque
quem pagava a escola era ele. Fiquei furiosa. Não sei o que será
desses alunos, com valores morais deturpados. Eles acham que podem tudo."
Iole Gritti de Barros, 54 anos, professora
de história aposentada | Paulo
Giandalia  |
| O professor acaba
submetido a múltiplas pressões. É seu dever ensinar, impor
disciplina aos alunos e, ao mesmo tempo, evitar que a escola perca "clientes".
"Os esforços para passar a matéria equivalem a uma parcela mínima
do desgaste físico e mental do professor", diz Marcos Hideaki Ono, de São
Paulo, professor de física durante dez anos. O restante da energia é
aplicado para controlar a classe, motivar os alunos e, às vezes, ensinar
aos adolescentes princípios morais e éticos básicos. Ono,
de 37 anos, conta que não suportava mais a agressividade dos alunos e,
recentemente, abandonou o ensino para seguir carreira acadêmica em física.
"Nos intervalos das aulas, era comum ver colegas tremendo de raiva ou chorando
na sala de convivência dos professores", diz Ono. Uma de suas colegas pediu
demissão depois que os alunos começaram a atirar-lhe moedas, insinuando
que ela, por ser negra, era indigente.
A autoridade do professor é importante no processo de aprendizagem do aluno.
No passado, o respeito ao mestre era imposto de forma autoritária, sem
deixar espaço para um relacionamento informal. Castigos e palmadas eram
considerados excelentes métodos para moldar a personalidade de alunos rebeldes
e prepará-los para a vida adulta. Em geral, as escolas incorporavam um
estilo disciplinar de inspiração militar. Esse modelo começou
a ser substituído na década de 60, com a difusão da psicologia
e de métodos pedagógicos que valorizavam o respeito à individualidade
da criança e do estudante. Passou a valer o conceito de que punir e reprimir
os alunos era ruim para o desenvolvimento da criatividade e do espírito
crítico. Nas décadas de 70 e 80, ainda predominava um meio-termo
entre o respeito à autoridade do professor e a liberdade concedida aos
alunos. "Nos últimos anos, esse equilíbrio foi desfeito pela postura
dos pais de se colocar sempre em defesa dos filhos e pela necessidade das escolas
de manter os alunos a qualquer custo", diz Dante Donatelli, coordenador do Colégio
Sidarta, de São Paulo. Com
reportagem de José Eduardo Barella
| O desafio de ensinar na periferia
Ricardo Benicchio  |
| Martins: agredido no primeiro mês de trabalho |
Se o professor de escola particular
precisa ter jogo de cintura para lidar com a falta de disciplina em classe, o
de rede pública necessita ser pós-graduado em regras de sobrevivência.
Ambos defrontam com o problema da falta de disciplina, mas as salas superlotadas
dos bairros mais pobres incluem agravantes. O jovem da periferia entra na escola
sem grandes perspectivas de futuro e essa frustração acaba se refletindo
em sua relação com o professor. O aluno não sonha em ser
médico ou advogado. Quer ser pagodeiro, jogador de futebol; o que importa
é fazer sucesso e ganhar dinheiro rápido. Essa inversão de
valores contém enorme potencial de violência. "Quem sobressai socialmente
numa escola de periferia não é mais o aluno estudioso, mas o valentão,
o sujeito esperto", diz Douglas Martins Izzo, professor de geografia numa escola
estadual em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo. "As agressões
verbais são as mais comuns, mas eu já fui ameaçado dentro
da classe por um aluno que mostrou uma arma escondida sob o casaco e me disse:
'Aqui dentro você é o professor, mas lá fora é uma
pessoa comum'." De acordo com uma
pesquisa da Unesco de 2002, mais da metade dos professores da rede pública
de ensino do Brasil já foi agredida por alunos dentro ou nos arredores
da escola. O tráfico de drogas é apontado pelos professores como
o grande desafio da escola pública. Muitos alunos são usuários
e o tráfico age à vontade. O diretor e os professores sabem quem
são os traficantes, mas se recusam a delatá-los à polícia
por uma questão de sobrevivência. Em Itaquaquecetuba, uma professora
que decidiu dar nomes ficou com o rosto deformado de tanto apanhar. Um funcionário
que tentou impedir a venda de drogas levou um tiro dentro da própria escola.
"Nas áreas urbanas mais pobres, as crianças vivem em um ambiente
de violência em casa e no bairro, o que acaba se refletindo dentro da escola",
diz a socióloga Miriam Abramovay, vice-coordenadora do Observatório
de Violências nas Escolas, da Universidade Católica de Brasília,
e coordenadora da pesquisa da Unesco.
O professor de inglês Carlos Gomes Martins, que desde o ano passado dá
aulas em uma escola estadual em Poá, também na Grande São
Paulo, enfrentou uma situação de perigo logo no primeiro mês
de trabalho. "Um aluno do ensino médio com o qual eu havia discutido partiu
para cima de mim para me agredir durante a aula", diz Martins. "Por sorte foi
contido pelos colegas." Uma diferença entre a escola pública e a
particular diz respeito ao comportamento dos pais. Na rede privada, o professor
é visto como um prestador de serviço e a família reage mal
quando o aluno é repreendido. Na periferia, ao contrário, os pais
vêem o professor como a última chance de os filhos terem educação.
Significa que, em geral, apóiam o professor quando ele é severo
com seus filhos. | |
| O retrato da indisciplina
Dante Donatelli, coordenador de escola e autor do livro Quem Me Educa?
A Família e a Escola Diante da (In)Disciplina, compilou dez atitudes
comuns em colégios particulares de São Paulo e que demonstram o
desrespeito dos alunos em relação aos professores
1. Tratar o professor como empregado
2. Jogar objetos no professor em sala de aula
3. Xingar o professor com palavrões
4. Negar-se a sair da sala de aula quando expulso
5. Exigir o direito de escolher a data de entrega dos trabalhos escolares
6. Ignorar a presença
do professor em classe 7.
Entrar e sair da aula à vontade, sem se importar com o professor
8. Discutir os critérios das
notas das provas dadas pelo professor
9. Dar ordens ao professor
10. Negar-se a fazer prova e entregar atestados médicos falsos como
desculpa | | |