Edição 1904 . 11 de maio de 2005

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Congresso
... e ficou sem mandato

Deputado denunciado por reportagem de
VEJA foi cassado. Ele aparece em gravações
tentando extorquir e fazendo ameaças


Policarpo Junior


Dida Sampaio/AE
André Luiz, no dia da votação de sua cassação: carta aos parlamentares

André Luiz, do Rio de Janeiro, é o primeiro deputado federal a perder seu mandato na atual legislatura. Por 311 votos, 54 a mais que o necessário, os deputados entenderam que André Luiz quebrou o decoro parlamentar num diálogo em que tentava extorquir 4 milhões de reais do empresário de jogos Carlos Cachoeira. O diálogo, registrado em gravador digital, mostra que André Luiz vendia sua influência para livrar Cachoeira de ser incriminado na investigação feita por uma CPI na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Desde que VEJA trouxe o caso a público, em reportagem publicada em outubro do ano passado sob o título "Vende-se uma CPI", André Luiz nunca negou que a voz que se ouve na fita fosse sua, mas sempre disse que o diálogo era uma montagem. A fita foi submetida a perícia, concluindo-se que não havia montagem, mas, mesmo assim, André Luiz manteve seu argumento. Agora, ele, que já foi segurança do bicheiro Castor de Andrade antes de se aventurar na política, volta para seu lugar de origem: a Assembléia do Rio, onde é técnico legislativo. Ficará inelegível até 2015, quando estará com 56 anos.

"Minha intenção era só mostrar que há um lado sujo na política carioca", diz Cachoeira. E mostrou. Mas o deputado estadual envolvido no caso na Assembléia do Rio, Alessandro Calazans, foi inocentado por seus pares. O emissário de Cachoeira que simulava negociar o pagamento da extorsão apenas para gravar as conversas com André Luiz acabou ouvindo mais do que planejava. Lá pelas tantas, André Luiz revela que, em apenas um fim de semana, matou oito pessoas no Rio. O deputado não foi cassado por sua condição de homicida confesso. A investigação sobre os assassinatos ainda estava em curso na Câmara, e será interrompida agora com a cassação, mas o Ministério Público do Rio está apurando o caso – que poderá acabar com a prisão de André Luiz para além de 2015. Trajetória semelhante foi traçada pelo ex-deputado Hildebrando Pascoal, o último cassado antes de André Luiz. Pascoal, que se tornou célebre por picar suas vítimas com motosserra, perdeu o mandato em 1999 em decorrência de uma série de acusações – entre elas, tráfico de drogas, assassinato e participação em grupo de extermínio. Na Justiça, foi condenado a 37 anos. Depois, a mais 25. Hoje está numa cela de segurança máxima em Rio Branco, no Acre.

Reportagem de VEJA que revelou o caso: a voz era de André Luiz e a perícia concluiu que não havia montagem

Na batalha para livrar-se da guilhotina, André Luiz manteve o apoio de alguns deputados do PMDB, legenda à qual pertencia quando passou a ser investigado, e ganhou a simpatia de parte da bancada dos evangélicos, chegando a participar de seus cultos na Câmara. Aos demais deputados, André Luiz mandou uma carta, intitulada "A luta continua", na qual pede para ser inocentado mas não apresenta um único dado que ao menos sugira sua inocência. Chegou a procurar uma agência de publicidade, interessado em melhorar sua imagem, mas desistiu de contratá-la. Inimigos do ex-deputado chegaram a interferir a seu favor – não por solidariedade, mas por temor. O deputado Carlos Rodrigues, do PL do Rio, que ajudou a fazer andar a cassação de André Luiz, pediu ao relator do processo, Gustavo Fruet, que tivesse clemência. E explicou-se: "Se ele for cassado, ele vai me matar". Na sessão que decidiu pela cassação, Fruet apelou ao bom senso dos colegas. "Se não cassarmos o deputado, estaremos legitimando a extorsão", disse.

Até o último minuto, André Luiz tentou dizer que seu direito à defesa foi cerceado. Mesmo depois da cassação, seu advogado, Michel Saliba, encarregou-se de manter a tese em seu passeio pelo Congresso. Isso também não corresponde à realidade. O deputado Chico Alencar, do PT do Rio, lembra que Michel Saliba teve muitas oportunidades para apresentar a defesa de seu cliente – uma delas, aliás, foi na Comissão de Ética e Decoro Parlamentar, à qual o advogado nem sequer compareceu. O advogado, soube-se mais tarde, estava ocupado explicando-se à Polícia Federal, depois de ser preso em Curitiba sob a acusação de integrar uma quadrilha que aplicava golpes contra o sistema financeiro nacional.

 
 
 
 
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