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Brasil Sinal
verde para a corrupção?
Tucanos
ouvem relato de empresário sobre rede de corrupção na
gestão Marta Suplicy. E fecham o bico  Monica
Weinberg e Marcelo Carneiro
Juca
Varella/Folha Imagem
 | Monica
Zarattini/AE
 | ALOYSIO
NUNES Enviado de empresário queria saber do secretário
o que fazer com a sobra da "caixinha" da gestão Marta (ao lado) |
Com
sede em São Bernardo do Campo, em São Paulo, a Consladel Construtora
e Laços Detetores e Eletrônica é uma empresa que faz todo
tipo de negócio. Segundo contratos sociais registrados na Junta Comercial,
ela atua nos ramos de construção civil, sinalização
viária, instalação de radares, manutenção de
automóveis, processamento de dados e até compra e venda de imóveis.
Mas a especialidade da Consladel é ganhar licitações. A empresa
só presta serviços para o poder público: tem gordos contratos
com prefeituras, estados e o governo federal. O problema é que, quanto
mais ganha musculatura nessa área, mais vê aumentar o número
de denúncias que pesa sobre ela. Nos últimos nove anos, a Consladel
teve seu nome ligado a uma série de investigações do Ministério
Público, todas relacionadas a corrupção em prefeituras e
fraudes em concorrências. Seu proprietário, Jorge Moura um
engenheiro de fala mansa e avesso a fotografias, conhecido por empresários
e políticos como "Jorginho" , já foi acusado, entre outras
coisas, de integrar um pool de empresas que, na gestão Paulo Maluf, conquistavam
obras públicas mediante pagamento de propinas em dólar (veja
quadro). Mesmo com todos esses problemas, a Consladel seguiu em frente,
tocando bons negócios sempre envolvendo dinheiro público.
Nos últimos quatro anos, na gestão da prefeita Marta Suplicy, ela
fez de tudo um pouco: fiscalização por radar, manutenção
de túneis, iluminação pública e reforma de praças.
Nesse período, Jorginho e sua empresa acumularam novas denúncias.
A mais recente delas atinge em cheio a gestão
petista. Em março deste ano, VEJA ouviu de um dos tucanos mais próximos
do prefeito José Serra, que sucedeu Marta, uma história de arrepiar.
Segundo esse relato, logo que Serra tomou posse, o empresário Jorge Moura
fez uma visita ao presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET)
de São Paulo, Roberto Scaringella de quem se diz amigo. Na conversa,
ainda de acordo com o tucano, Jorginho foi direto ao ponto. Disse que, durante
a administração de Marta Suplicy, era encarregado de pagar uma propina
mensal de 1,4 milhão de reais a altos funcionários de três
órgãos da prefeitura: SPTrans, Ilume e a própria CET. O empresário
teria chegado a detalhar para Scaringella os valores pagos em cada companhia:
800.000 reais na SPTrans, 400.000 na Ilume e outros 200.000 na CET. O dinheiro
não era desembolsado apenas pela Consladel, mas por um conjunto de empresas
de médio e grande portes que prestavam serviço para esses órgãos
e tinham interesse em vencer licitações organizadas pela prefeitura.
Moura teria dito ainda, sem declinar nomes, que dois secretários de Marta
recebiam uma propina de cerca de 20.000 reais mensais, segundo ele, a título
de "complemento salarial". Na qualidade de articulador da operação,
deu a entender que gostaria de continuar o "negócio" com os tucanos.
Sérgio
Castro/AE
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CÂMARA MUNICIPAL DE SÃO PAULO Triste
notoriedade desde a revelação da máfia dos fiscais |
O
presidente da CET não foi o único a ouvir o relato de Jorge Moura.
VEJA apurou que o empresário fez contato também com o secretário
de Governo Aloysio Nunes Ferreira, braço-direito do prefeito José
Serra, por meio de uma pessoa ligada a um de seus advogados. O enviado de Moura
à prefeitura disse ao secretário que o empresário estava
sendo pressionado: integrantes do esquema de propina na gestão Marta estariam
cobrando dele a continuidade no recebimento do suborno. Sem nenhuma cerimônia,
o emissário informou ainda que havia uma "sobra" da caixinha recolhida
por Moura na gestão anterior e perguntou o que o dono da Consladel deveria
fazer com ela. Surpreso, Aloysio respondeu que, dali em diante, Jorge Moura não
deveria mais pagar nenhum suborno e sugeriu que a Consladel aproveitasse
a tal sobra da caixinha "para oferecer um desconto nos contratos com a prefeitura".
Ao presidente da CET, Moura, ainda segundo o relato
obtido por VEJA, contou que era responsável também por um segundo
esquema de corrupção este na Câmara Municipal de São
Paulo. Para votar projetos de interesse da prefeitura petista, e de empresas que
mantinham negócios com ela, políticos da base de apoio de Marta
recebiam o que Moura chamou de "gratificação". Em bom português,
uma propina, que, nas palavras do empresário, variava entre 30.000 e 120.000
reais mensais dependendo da "colaboração" de cada vereador.
A Câmara paulistana conquistou triste notoriedade desde a revelação,
em 1999, do escândalo envolvendo vereadores e uma máfia de fiscais
ligados a administrações regionais da prefeitura. "O lugar é
hoje um antro de corrupção", diz um experiente político paulistano.
"Não se faz nada lá sem pagar." Nos últimos dois meses, VEJA
entrevistou além de empresários e funcionários de
diversos escalões da administração municipal onze
vereadores da atual legislatura e da anterior. Sete confirmaram a existência
do que ficou conhecido nos corredores da Câmara Municipal como "a caixinha
do Jorginho". Três deles, sob sigilo, descreveram o esquema com uma impressionante
semelhança de detalhes. Segundo esses vereadores, o dinheiro chegava pelo
menos uma vez por mês, em um carro preto que estacionava na garagem da Câmara,
no 3º subsolo. Acondicionada em envelopes de papel pardo, a propina era entregue
a assessores dos vereadores envolvidos. De lá, seguia para o gabinete de
um dos integrantes do esquema, que fazia a divisão dos "postes"
senha por meio da qual os vereadores se referiam ao dinheiro. A notícia
da existência de uma caixinha de empresários destinada a "gratificar"
vereadores era tão disseminada à época que o hoje deputado
José Eduardo Cardozo (PT) chegou, em 2002, a abandonar às pressas
uma sessão que presidia depois que um funcionário subiu à
tribuna para cochichar-lhe ao ouvido: "O pessoal está lá na garagem
pegando o dinheiro". O deputado confirma a história: "Chamei uma equipe
de segurança e desci imediatamente, disposto a fazer prisões em
flagrante, mas não pude constatar nada". Até hoje, o deputado não
sabe se o que houve foi um alarme falso ou se, de fato, a "turma da caixinha"
esteve à beira de ser flagrada e dispersou-se ao perceber a movimentação
de seguranças. No último dia 15 de
abril, VEJA procurou Scaringella em busca de mais detalhes da conversa que ele
manteve com Jorge Moura. Especialista em trânsito e há mais de vinte
anos nesse setor, o presidente da CET negou que a conversa tivesse ocorrido. "Isso
pode ter acontecido com alguém que trabalhe na CET, mas não comigo",
disse Scaringella, para quem Jorge Moura é apenas "um conhecido do setor
de trânsito". Moura com quem VEJA conversou por dois dias seguidos,
em entrevistas que duraram mais de três horas conta uma história
um pouco diferente. O empresário, que nega ter pago propinas, diz que é
"amigo há anos" de Scaringella. Afirma também que, logo no início
da gestão Serra, recebeu do presidente da CET um telefonema curioso. "Ele
me explicou que seria difícil manter contratos com a Consladel, porque
minha imagem diante do novo governo era muito ruim", conta Moura. Segundo o empresário,
Scaringella lhe disse que sua empresa estava identificada com a gestão
petista e que alguns dos contratos firmados pela Consladel nesse período
eram suspeitos de irregularidade. Na noite de quinta-feira passada, VEJA voltou
a procurar Scaringella. Ele negou o telefonema. "Que eu me lembre, não
aconteceu", disse. Em seguida, voltou atrás: "Devo ter telefonado". Mais
adiante, nova reformulação: "Devo ter telefonado uma vez ou outra,
mas sempre para discutir assuntos técnicos".
José
Luis da Conceição/AE
 | ROBERTO
SCARINGELLA Falei, não falei, quer dizer, acho
que falei |
VEJA localizou dois
dos contratos da Consladel sob suspeita de irregularidade a que se referiu o presidente
da CET no tal telefonema. Ambos estão sob investigação do
Ministério Público, e um deles foi considerado irregular também
por técnicos do Tribunal de Contas do Município. No fim de março,
a assessoria de imprensa do governo Serra, contatada pela reportagem, se comprometeu
a fazer um levantamento de todos os contratos da Consladel na gestão Marta.
São documentos públicos. Duas semanas mais tarde, depois de insistentes
pedidos, a assessoria disse que a prefeitura havia decidido instaurar uma sindicância
para investigar os contratos que, ao contrário do prometido, jamais
foram passados à reportagem. Até agora, não se tem notícia
de que a tal sindicância tenha produzido algum resultado. E o que é
pior: mesmo com toda essa confusão, a gestão tucana decidiu manter
três contratos com a enrolada Consladel.
Resumo da ópera: tem-se um empresário que revela a existência
de uma rede de corrupção na administração anterior
e duas autoridades da gestão atual informadas sobre a existência
do esquema. O que aconteceu até agora? Nada. Cabe à polícia,
ao Ministério Público e à Justiça apurar os fatos
e à gestão Serra explicar por que continua permitindo que
a Consladel siga em frente com seus bons negócios à base de dinheiro
público.
OS ROLOS DA CONSLADEL
Desde 1996, a empresa de Jorge Moura é alvo
de denúncias de corrupção e irregularidades em licitações.
Algumas delas: • Em maio de 2002, em depoimento
ao Ministério Público, o médico João Francisco Daniel,
irmão de Celso Daniel, prefeito assassinado de Santo André, acusou
a Consladel de ser beneficiária de um esquema de corrupção
que funcionava na administração municipal petista •
Dois anos depois, também em depoimento, Marcos Feliciano, um ex-assessor
de Reynaldo de Barros, secretário de Obras em São Paulo na gestão
do prefeito Paulo Maluf, incluiu a Consladel em um pool de empreiteiras que pagavam
propinas em dólar para obter vantagens junto à secretaria
• Em março deste ano, o Ministério Público
em São Paulo instaurou um inquérito para investigar a prorrogação
de dois contratos de radar firmados entre a Consladel e a gestão de Marta
Suplicy. Técnicos do Tribunal de Contas já haviam considerado que
os contratos ferem a lei de licitações •
O Ministério Público ainda investiga a vitória da Consladel
em outra licitação da gestão Marta, para reforma de praças.
A suspeita é que ela apresentou preços abaixo do mercado para vencer
a concorrência e, mais tarde, obteve um aditivo que aumentou o valor da
obra de 7,6 milhões para quase 9,5 milhões de reais •
Três vereadores ouvidos por VEJA confirmam que a Consladel era a coletora
de uma caixinha destinada ao pagamento de "gratificações" a parlamentares
que apoiavam projetos de interesse de um pool de empresas e da prefeitura de Marta
Suplicy • O próprio dono da Consladel, segundo
relato obtido por VEJA, admitiu ao presidente da CET, Roberto Scaringella, que
na administração petista pagava mensalmente 1,4 milhão em
propinas a três órgãos públicos, além de 20
000 reais a dois secretários | | |