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Justiça
O raio-X da Justiça
Uma pesquisa inédita abre a caixa-preta
da Justiça brasileira e dá um passo essencial
para arrancá-la do século passado

Alexandre Oltramari
A Justiça no Piauí
anda em petição de miséria. Em Campo Maior,
a 90 quilômetros da capital, o fórum funciona numa
construção planejada para abrigar o mercado municipal.
A sala do juiz fica numa baia onde deveriam trabalhar feirantes
da cidade. Em todo o estado, há mais de 40.000 processos
emperrados, alguns dos quais estão há dez anos sem
a realização de uma única audiência.
No Piauí falta tudo, inclusive gente. Há juízes
que quase nunca aparecem para trabalhar e funcionários que
trabalham demais, como um da 6ª Vara Criminal em Teresina que,
sozinho, cuida da tramitação de 1.600 processos. Falta,
também, equilíbrio: juízes e funcionários
do Tribunal de Justiça, a mais alta corte do estado, trabalham
apenas meio turno, mas no interior, onde há menos processos,
o expediente é integral. Na capital e no interior, falta
até papel e há casos de certidões de nascimento
sendo preenchidas em papel de embrulho. A única coisa que
parece não faltar no Piauí é dinheiro para
pagar salários que podem chegar a 40.000 reais aos meritíssimos
que ocupam o olimpo da Justiça estadual.
O cenário desolador do
Piauí não é propriamente uma surpresa, mas
nunca se soube como interpretá-lo nem se pôde cotejá-lo
com o de outros estados. Agora, pela primeira vez na história
do Judiciário brasileiro, tudo isso tornou-se possível
graças a um alentado estudo encomendado pelo Supremo Tribunal
Federal ao qual VEJA teve acesso com exclusividade. Nesta semana,
o presidente do STF, ministro Nelson Jobim, anunciará os
principais resultados do levantamento num encontro jurídico,
em Brasília. "Nosso objetivo é identificar os principais
gargalos do Judiciário. Que o sistema é lento, já
sabemos. Mas onde está congestionado? É assim porque
falta pessoal? Ou é um problema de gestão mesmo?",
questiona Jobim. A pesquisa durou um ano e colheu dados em todos
os estados e no DF sobre a Justiça estadual, a federal e
a trabalhista, que, juntas, respondem pela quase totalidade do Judiciário
nacional. Pela pesquisa, explica-se por que a Justiça no
Piauí é um escândalo nacional. Só dois
dados: ela é a que menos investe em informática no
país e a que mais gasta com pessoal mais de 95% de
seu orçamento anual. Apesar disso, o Piauí não
tem a Justiça mais emperrada. Esse troféu cabe ao
Ceará.
Ana Araujo
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| O ministro Nelson Jobim: enfim, um estudo
mostrando onde estão os grandes gargalos do Judiciário
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"Com esses dados, tudo vem à tona. Vamos saber exatamente
onde falta estrutura e onde falta gestão", diz Jobim. Examinando-se
os dados globais, conclui-se que o Brasil tem um bom número
de juízes são 7,7 juízes para cada 100.000
habitantes, mais que a média internacional e uma quantidade
até exagerada de servidores, mais que o dobro da média
lá fora. Pois bem: se não faltam juízes nem
funcionários, por que a Justiça brasileira leva em
média doze anos para julgar um processo, enquanto nos Estados
Unidos se demora apenas quatro meses? A pesquisa reforça
o velho diagnóstico: nosso sistema processual é tão
barroco, tão apinhado de recursos, idas e vindas, voltas
e contornos que parece concebido para desviar-se o máximo
possível de um desfecho. É um modelo inspirado no
sistema italiano, mas a Itália, depois da II Guerra, modernizou
seu sistema e o Brasil segue com a cópia antiga. Um
bom advogado pode usar até 120 recursos para protelar a sentença.
"Só aqui temos recurso do recurso do recurso, o que transforma
os processos em verdadeiras bibliotecas", diz o jurista Dalmo Dallari,
de São Paulo. "É até natural que a gente precise
de mais funcionários que os outros países."
Como costuma ocorrer com as instituições
nacionais, a Justiça também é um reflexo da
realidade brasileira que é altamente desigual. Na
Justiça estadual em Santa Catarina, cada um dos 5.887 funcionários
tem um computador à sua disposição, conectado
à internet. É um recorde nacional. A informatização
começou há apenas dez anos, mas hoje todas as 110
comarcas estão integradas ao sistema do Tribunal de Justiça,
em Florianópolis. Há um plano até para fazer
"inspeção virtual", um sistema que permitirá
a fiscalização de todas as comarcas a distância.
"Com esse sistema, poderemos estabelecer em breve um índice
de produtividade dos juízes e cobrá-los com base em
dados objetivos", diz o desembargador Eládio Rocha, corregedor-geral
da Justiça. Já no Ceará, onde a Justiça
conseguiu a proeza de ser a mais congestionada do país, mais
até do que a de São Paulo, a situação
é lamentável. Há quinze anos, segundo reclama
o presidente do Tribunal de Justiça em Fortaleza, Francisco
da Rocha Victor, não se cria uma câmara nova, nem se
contratam novos magistrados. No Ceará, a falta é de
dinheiro mesmo: a Justiça estadual gasta anualmente pouco
mais de 25 reais por habitante, a menor despesa do país.
A média nacional passa de 60 reais por habitante.
Uma Justiça eficaz é
artigo de primeira necessidade, mas boa estrutura física
e fartura de mão-de-obra nem sempre significam população
bem assistida. No Espírito Santo, tem-se a quarta melhor
média de juízes por grupo de 100.000 habitantes, o
que sugere uma Justiça mais funcional, que, em tese, deveria
ser mais solicitada pela população. No entanto, a
Justiça capixaba é a que menos recebe novas ações
por ano. É um caso único no país, e as explicações
podem ser múltiplas, mas uma delas salta aos olhos: a falta
de credibilidade do Judiciário capixaba. "A Justiça
daqui, contaminada pelo crime organizado, caiu no completo descrédito",
afirma Carlos Henrique Bezerra Leite, professor de direitos humanos
da Universidade Federal do Espírito Santo. "Já ouvi
empresários dizendo que preferem fazer um mau acordo, perdendo
dinheiro, a recorrer à Justiça estadual." No auge
da crise, há dois anos, um juiz federal que investigava colegas
de trabalho foi executado com três tiros na porta de uma academia.
Cinco juízes chegaram a ser citados como suspeitos. No mês
passado, um deles, Antônio Leopoldo Teixeira, foi preso como
mandante do crime.
Benonias Cardoso/Piauimagens
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| O fórum em Campo Maior, no interior
do Piauí: um escândalo em gastos altos e em maus
serviços |
O mau funcionamento do Judiciário
é devastador para a economia. Um estudo do pesquisador Armando
Castellar Pinheiro, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
(Ipea), constatou que um sistema jurídico ineficiente reduz
a taxa de crescimento de longo prazo em 25%. Isso significa que,
se o Brasil tivesse uma Justiça eficiente, teria condições
de crescer 0,8% a mais todo ano. O custo da ineficiência não
pára aí: a produção nacional poderia
aumentar 14%, o desemprego cairia quase 9,5% e o investimento saltaria
10,4%. Não é difícil entender por quê.
Cabe à Justiça garantir o cumprimento de contratos,
dado basilar para o funcionamento de qualquer economia de mercado.
Se um banco acredita que terá dificuldade para fazer uma
cobrança em caso de calote e não contará com
uma Justiça ágil a seu lado, vai cobrar juros mais
altos para compensar o risco e, em casos extremos, nem dará
o empréstimo. Isso, claro, escasseia e encarece o crédito
e derruba os investimentos. Num estudo recente, os economistas Persio
Arida, Edmar Bacha e André Lara Resende, pais do Plano Real,
narram didaticamente como a incerteza jurídica atrapalha
a formação de um mercado de crédito de longo
prazo no Brasil, uma coisa essencial para o crescimento econômico.
O trabalho mostra que os investidores
aceitam comprar títulos brasileiros de longo prazo porque
são em dólar sem risco, portanto, de cair no
pântano jurídico nacional. Por isso, os títulos
negociados em real são sempre de curto prazo porque, nesse
caso, qualquer desavença seria dirimida pelas cortes locais.
Para compensar esse problema é que o Brasil criou mecanismos
compulsórios de financiamento de longo prazo como
FAT e FGTS, que sustentam os fartos créditos do BNDES. A
boa notícia é que, finalmente, parece haver um empenho
sério para melhorar o sistema jurídico brasileiro.
O Ministério da Justiça já enviou 23 sugestões
ao Congresso Nacional numa tentativa de racionalizar o sistema processual
do país, limando o excesso de recursos meramente protelatórios.
A própria pesquisa do STF servirá de subsídio
para o trabalho do Conselho Nacional de Justiça, cujos membros
tomam posse no mês que vem e vão cumprir o célebre
controle externo do Judiciário. E poderão corrigir
excrescências como a que leva Mato Grosso do Sul a oferecer,
mesmo gastando apenas 53 reais por atendimento, a melhor Defensoria
Pública do país enquanto o Piauí tem
um serviço precário mas gasta 432 reais por atendimento.
Algo está errado aí.
Com reportagem de
Leonardo Coutinho, de Teresina;
Márcia Vaisman, de Fortaleza; e Maurício Oliveira,
de Florianópolis
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