Edição 1904 . 11 de maio de 2005

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Em nossa administração pública a roubalheira virou rotina. E vice-versa.

P R O C L A M A S – o que diria Aécio

Todos ouviram o pronunciamento do menino Aécio, herdeiro do trono das Minas. Mas, como não é das tradições desse Reino dar nome aos bois (preferem dar pseudônimos), o menino não disse tudo. Em nosso dever de jornalista covarde, adjetivação usada por Lula – embora ele não saiba o que é adjetivo –, reproduzimos aqui o que seria o discurso inteiro:

"Quando, no curso dos acontecimentos da existência humana, é fundamental um povo dissolver os laços que o ligam a outro, torna-se necessário assumir perante as regiões globais de nossa terra a responsabilidade pela separação e a garantia de que isso não afetará a Bolsa de Tóquio nem o mercado da soja em Akala Lumpar. Assim, nesta data, comunicamos às nossas eternas sesmarias a Implantação dos Estados Unidos das Minas Gerais e Afins, com capital em Conceição do Mato Dentro.

Nosso ponto de ruptura se deu quando o poder da ignorante e corrupta Federação (onde está proibido o inglês e implantado o neoportuguês) impôs-nos cobrança de responsabilidades fiscais com juros maiores do que os que o Shylock de Shakespeare jamais ousou cobrar.

Por isso proclamamos nossa separação. Só não repetimos Libertas quæ sera tamen porque, como o Millôr nos ensinou, o latim aí está longe do castiço (Liberdade ainda que tardia todavia) e preferimos lançar desafio mais condizente com nossa índole e mais coerente com os novos tempos: "Não vem que não tem!".

Sabem os historiadores: todo ato heróico nasce sempre de uma realidade prosaica. Como na cobrança de impostos excessivos, na Nova Inglaterra, pela corte inglesa, o que criou a Grande Nação Americana. E a Derrama do Ouro, feita pela coroa portuguesa, aqui mesmo nas Minas. Agora o Poder Discricionário, acoitado no Planalto Perdido e orientado pelo Saddam de Garanhuns, quer tirar o pão de queijo da boca de nossos filhos. Arrancar a máquina de costura de nossas já tão sacrificadas mães de família. Tirar a farda surrada e mal cerzida de nossos alferes. O jeton de nossos vereadores. O Uai de nossas bocas.

Esse Planalto já promove até mesmo um movimento para transferir para novelistas paulistas a autoria de Hilda Furacão!

No passado participamos da Cabanagem, da Balaiada, da Confederação do Equador, da Farroupilha, até mesmo da República Juliana, gloriosas etapas em que nos sacrificamos ajudando nossos irmãos territoriais. Em nossa generosidade, e pudor, deixamos até que os baianos usassem o nome glorioso de um mineiro para batizar uma revolta local – a Sabinada. Pra não pensarem que residia em nós o interesse menor de defender os direitos autorais do Fernando Sabino.

Claro, maledicentes não deixam de lembrar que o Golpe de 64 começou aqui, quando, em Juiz de Fora, o heróico banqueiro Magalhães Pinto invadiu e tomou sete agências do Bradesco. Mas eu pergunto – que estado é perfeito? Alagoas?

Somos, nós, os das Minas, ninguém ignora, a não ser os que não sabem, geneticamente heróicos e artísticos. Na luta cívica tivemos o ortodontista Tiradentes, na escultura ninguém teve maior aleijado do que nós, apesar do nome Aleijadinho. Na literatura tivemos o Drummond, o Guimarães, o Otto Lara (criador desse interessantíssimo personagem de história em quadrinhos, o Mangabeira Unger). No varejo musical tivemos o Grande Otelo, o Ari Barroso, hoje temos o Wagner Tiso, o João Bosco e o Milton Bituca. Na reforma de velhas ricas, no mundo inteiro, ninguém suplanta o doutor Ivo. O cinema nacional começou em Cataguazes; e só isso tornou possível o Central do Brasil, do Waltinho Salles, também de origem mineira. Na culinária toda a antiga federação babava e baba diante do nosso feijão-tropeiro. E o mundo vai babar ainda mais quando começarmos a exportar a nossa goiabada com catupiri.

Também não é sem razão que nos chamam de alterosas. Temos as maiores montanhas do Brasil, com média de 800 metros de altura. Somos alto-suficientes.

Dominamos ainda a maior agricultura de gado bovino do país. E de nada adianta nos vedar acesso aos portos do mar Atlântico, pois temos a imensa extensão do Mar d'Espanha.

Somos o que sempre fomos, para estarmos sempre onde estaremos. Com Itamar criamos o Plano Real. Com Aécio vamos enfrentar Lula, sem plano, e irreal."

 
 
 
 
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