Edição 1904 . 11 de maio de 2005

Índice
Claudio de Moura Castro
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Auto-retrato
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Entrevista: Tom Wolfe
"Eu votei em Bush"

O mais irreverente jornalista americano
diz que não há mais causas de esquerda
nos Estados Unidos


Jerônimo Teixeira

 

Jim Cooper/AP

"Os intelectuais têm uma fobia irracional a Bush. Eu me divirto com isso. Votar nele é tão contra a corrente..."

O escritor e jornalista americano Tom Wolfe, de 74 anos, é um cronista impiedoso da vida de seu país. Seja falando dos malucos que enchiam a cabeça de LSD nos anos 60 – no livro-reportagem O Teste do Ácido do Refresco Elétrico – ou dos gananciosos investidores de Wall Street nos anos 80 – no romance A Fogueira das Vaidades –, Wolfe exerce a mesma ironia. Em seu mais recente romance, Eu Sou Charlotte Simmons, que a editora Rocco lança nesta semana, o autor de Nova York – célebre também por ser um dândi que só se veste de branco – retrata as universidades americanas e a vida desregrada de seus estudantes, com muitas festas e farras nos dormitórios mistos. Mesmo com toda essa verve, o escritor tem um grande carinho pelo objeto de sua sátira, os Estados Unidos. E se confessa um eleitor convicto do presidente George W. Bush – que, por seu lado, é um leitor da obra de Wolfe. O autor fará sua primeira visita ao Brasil nesta semana – será dele a conferência de abertura da Bienal do Livro do Rio de Janeiro, na quinta-feira. De Nova York, onde mora, Wolfe falou por telefone a VEJA.

Veja – A imprensa americana já relatou que o presidente George W. Bush gostou de Eu Sou Charlotte Simmons e tem recomendado o livro a amigos. O senhor esperava que ele fosse um fã de sua literatura?
Wolfe – Não, nunca imaginei isso. Mas acho ótimo. Algumas pessoas ficaram horrorizadas com isso. Os intelectuais de Nova York, em especial, têm uma fobia irracional – embora quase sempre inofensiva – a Bush. Eles não percebem que na verdade a política americana é muito estreita.

Veja – Como assim, estreita?
Wolfe – O governo americano é como um trem: tem gente gritando para o governo virar à esquerda ou à direita, quando o trem simplesmente não pode mudar de direção. Ele anda sobre os trilhos. Ninguém vai se tornar um ditador nos Estados Unidos, e ninguém vai cortar nossos direitos civis. É por isso que não entendo essa fobia a Bush entre os intelectuais. Os americanos em geral não se entusiasmam tanto por política. Em 1974, quando Nixon saiu do governo, não houve uma só demonstração nas ruas, a favor ou contra. Não houve sequer um episódio de algum republicano bêbado jogando um tijolo numa vitrine. Eu mesmo nunca me interessei em escrever sobre política americana. Seria como fazer a cobertura jornalística de um jogo de gamão. Muito chato.

Veja – Pelo que o senhor está dizendo, dá para supor que seu voto na última eleição foi para Bush.
Wolfe – Sim, sem dúvida. E muitos confrades no meio jornalístico ficaram escandalizados quando souberam disso – olhavam para mim como se eu fosse um criminoso, um molestador de crianças. Eu me divirto com isso. Votar em Bush é tão contra a corrente...

Veja – A religião seria uma das razões pelas quais a intelectualidade rejeita o presidente Bush?
Wolfe – Não havia pensado nisso, mas é verdade. Bush é um soldado cristão. A religiosidade faz com que, para os intelectuais, ele pareça um tipo rústico.

Veja – O senhor é religioso?
Wolfe – Não, mas tenho uma consciência aguda da importância da religião. Fala-se muito da "direita religiosa" nos Estados Unidos. Mas não é de direita: é só religiosa. Hoje, basta ter uma fé cristã convencional para ser visto como um tipo de extremista.

Veja – Uma de suas reportagens mais famosas, do fim dos anos 60, fala das festas em que a alta sociedade de Nova York recebia grupos políticos extremistas como os Panteras Negras – uma tendência que o senhor batizou de "radical chique". Ainda existem festas assim hoje?
Wolfe – Não, pois não existem mais grandes movimentos de esquerda como os Panteras Negras. Aliás, não há mais nenhuma causa que possamos identificar como de esquerda. Mesmo a oposição à guerra no Iraque não foi uma causa de esquerda, pois congregou gente de todos os tipos.

Veja – Nem a questão racial é uma bandeira de esquerda?
Wolfe – Não mais. Houve uma grande mudança nessa área. Não foi só o crescimento econômico da população negra: o nível de respeito entre raças cresceu tremendamente. Mesmo entre as pessoas mais brutas, não são mais aceitáveis os insultos raciais que eram comuns há algumas décadas.

Veja – Em 2003, o jornal The New York Times passou por uma crise de credibilidade depois que se descobriu que um de seus repórteres, Jayson Blair, inventava notícias. No ano passado, o noticiário da rede televisiva CBS foi acusado de falsificar documentos sobre o serviço militar de George W. Bush. O que se passa com o jornalismo americano?
Wolfe – O incidente com Jayson Blair foi tirado de proporção. Era um repórter inexperiente, um garoto, que fabricou fatos em algumas matérias. Tudo o que precisavam fazer era demiti-lo. Mas o próprio jornal extrapolou o caso para além de qualquer medida razoável: queria tanto se arvorar em modelo de virtude que foi como se Blair houvesse pecado contra Deus. No caso da CBS e de seu âncora, Dan Rather, há várias ironias. Em primeiro lugar, embora Rather tenha aprovado a exibição da matéria sobre Bush, ele não tinha nada a ver com sua apuração. Os âncoras não têm nada a ver com reportagem. O maior trabalho deles é tirar meia hora por dia para aprender como se pronunciam os nomes mais complicados de personagens do Oriente Médio. Eles lêem o que os outros escrevem – são cordas vocais muito bem pagas. Rather é um bom sujeito e não precisava se demitir.

Veja – O senhor não parece respeitar muito o jornalismo televisivo.
Wolfe – O problema com a televisão é que não existe reportagem. Os âncoras viajam apenas ocasionalmente para entrevistar algum chefe de Estado. O próprio Dan Rather entrevistou Saddam Hussein antes da guerra. Ou seja, eles vão ouvir as mentiras oficiais em pessoa. A televisão tira pelo menos 90% de suas notícias dos jornais. Quando ocorre um incidente como esse da CBS, a primeira coisa que os executivos de televisão e seus prepostos perguntam aos jornalistas é: "Onde é que vocês leram essa notícia?". E, se eles dizem que foram eles mesmos que apuraram o fato, a reação é de choque: "Vocês mesmos apuraram? Estão loucos?".

Veja – E os jornais?
Wolfe – Os jornais, nos Estados Unidos, tornaram-se monopólios locais. Não existe um jornal nacional significativo, como na Inglaterra. Como resultado, não há quatro ou cinco repórteres atrás das notícias nas cidades americanas, mas apenas um. Eu fui repórter de jornal por dez anos, e era diferente: havia competição, o que me obrigava a trabalhar cinco vezes mais. Isso mudou. Mas o que importa ressaltar é a liberdade absoluta da imprensa americana. Eu já debochei de muita coisa nos Estados Unidos, e pode até parecer, pelo que escrevo, que este é um país bizarro. Mas ainda acho que ele está em ótima forma. É um país profundamente democrático.

Veja – O senhor foi um dos expoentes do Novo Jornalismo, que levou recursos literários para a redação de notícias. Qual a herança desse movimento?
Wolfe – Os movimentos que trazem "novo" no nome envelhecem mal. Os jornais nunca gostaram do Novo Jornalismo, e com certa razão, pois é um gênero difícil. E nas revistas de hoje os editores querem textos curtos, simples de ler, sem muita sofisticação, pois acreditam que os jovens têm uma atenção limitada. É um erro: os jovens só têm atenção limitada para as coisas que os entediam. O Novo Jornalismo ainda é praticado em livros-reportagem como Falcão Negro em Perigo, de Mark Bowden, sobre a intervenção americana na Somália. Esses livros usam as técnicas literárias do Novo Jornalismo, embora não sejam mais identificados assim.

Veja – Por que o senhor decidiu escrever um romance sobre a vida estudantil nas universidades americanas?
Wolfe – É estranho que, dado o frenesi que ronda o tema, ninguém antes tenha escrito sobre a vida universitária americana da perspectiva dos estudantes. Havia estudos sociológicos que diziam que a conduta sexual nesse grupo é mais livre e irresponsável, mas são pesquisas quantitativas. Não se considerava como isso afeta a vida desses jovens. Também não se falou de como era a vida de um astro dos esportes universitários. Sempre se soube que havia um certo grau de corrupção nos esportes universitários. Pessoas que, pelo desempenho acadêmico, não mereceriam estar na universidade eram matriculadas para jogar no time de basquete ou futebol americano. Mas eu estava interessado em saber como esses esportistas se sentem, sendo tratados como semideuses.

Veja – No seu livro, há muita ênfase nas festas e nas atividades sexuais dos estudantes e quase não se vê aprendizagem. Não é uma visão muito caricatural da universidade?
Wolfe – Não, não acho. Fui a várias universidades – Stanford, Yale, Universidade da Flórida, de Michigan, da Pensilvânia – e as coisas eram assim mesmo. Não é que não exista mais atividade acadêmica. Mas muito do trabalho mais sério se dá na pós-graduação. Já nos primeiros anos da universidade, a atmosfera é completamente diferente.

Veja – Como foi seu contato com os estudantes?
Wolfe – As pessoas achavam que seria difícil para mim, na minha idade, e vestindo terno e gravata, conviver com os estudantes. Mas não foi assim. Muitos dos jovens gostavam da idéia de ter um par de orelhas grandes mas neutras para ouvi-los. Em geral, todos gostamos de falar de nossas vidas. E eles especialmente, pois sabem que estão vivendo um período incomum.

Veja – E como se dá o sexo nos dormitórios da universidade?
Wolfe – Há certos códigos de comportamento. "Ficar" ou ter um caso com alguém no seu próprio dormitório não é considerado uma atitude descolada. Isso é chamado de "dormincesto" – uma mistura de "dormitório" e "incesto". Quase não acontece de um estudante atravessar o corredor para pular na cama de uma colega. Mas, quando se encontra alguém numa festa ou num bar, é fácil arrastá-lo para o dormitório.

Veja – Era muito diferente na década de 50, quando o senhor fez seus cursos universitários?
Wolfe – Sim. As igrejas ainda tinham um certo poder moral sobre as pessoas então. E não existiam dormitórios mistos, como hoje. Aliás, a maioria das faculdades era ou masculina ou feminina – eu mesmo freqüentei uma faculdade só de homens, e tínhamos de viajar no mínimo 70 quilômetros até uma faculdade feminina, para ter um encontro no fim de semana. Não era permitido aos rapazes entrar no dormitório das moças, e havia toque de recolher: tínhamos de levar as meninas de volta até 1 hora, no máximo. Nos dormitórios de hoje, qualquer um pode entrar ou sair sem vigilância. É um detalhe físico que faz imensa diferença quando se trata de sexo. Por mais liberado que seja, um adulto muitas vezes não consegue encontrar uma cama num prazo curto. Se você mora em uma cidade, talvez tenha de ir para um hotel – o que é um incômodo e custa caro. Mas, na faculdade, os hormônios estão eriçados e as camas encontram-se lá, à espera.

Veja – Charlotte Simmons é dedicado a seus dois filhos, que o ajudaram com a gíria universitária dos personagens. O senhor se preocupava com a atividade sexual deles na universidade?
Wolfe – Na verdade, não. Acredito que meus filhos têm um ótimo discernimento e não vão fazer nada só pela pressão do grupo. Mas também nunca perguntei nada a respeito a eles. Imaginei que, se eles tivessem qualquer problema nessa área, me falariam.

Veja – Certos capítulos de Eu Sou Charlotte Simmons deixam a sugestão de que os avanços na área de neurociência estão corroendo o senso moral das pessoas. Por quê?
Wolfe – A mensagem da neurociência, embora isso talvez não seja intencional, é que nós somos mecanismos. Pensamos que temos controle sobre nossas escolhas, nossa idéia de bem e mal, o tipo de música de que gostamos –, mas a neurociência diz que na verdade não é assim, que temos um microchip determinado geneticamente, e que não existe livre-arbítrio. Essas idéias, que eu acho deprimentes, estão se espalhando. Já se encontram pais por aí que acreditam que, se o filho não está se saindo bem na escola, é porque não foi programado para isso. Mas a crise moral é resultado também da diminuição da fé religiosa entre pessoas educadas, bem de vida.

Veja – O senhor mora a poucos passos do Central Park, em Manhattan. A vida na cidade mudou muito depois dos atentados de 11 de setembro de 2001?
Wolfe – Mudou muito nos primeiros quatro ou cinco dias. Normalmente, em Nova York, se um carro demora uma fração de segundo para arrancar quando o sinal abre, pode ter certeza de que o carro atrás vai buzinar. E naqueles dias isso não acontecia. Mas é assim com qualquer tipo de desastre: as pessoas se tornam mais polidas. O mesmo se dá quando há um blecaute – e o blecaute quase vale a pena, só para estar cercado de pessoas cordatas, para variar um pouco. Obviamente, uma tragédia como os atentados não vale a pena. Depois de um ano, de qualquer forma, o temor de que algo do gênero tornasse a acontecer começou a declinar. E hoje já não há qualquer sentimento de ameaça.

 
 
 
 
topovoltar