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Entrevista: Tom
Wolfe "Eu votei em Bush"
O mais irreverente jornalista americano diz que não há mais
causas de esquerda nos Estados Unidos  Jerônimo
Teixeira
Jim Cooper/AP
 | "Os
intelectuais têm uma fobia irracional a Bush. Eu me divirto com isso. Votar
nele é tão contra a corrente..." | |
O escritor e jornalista americano Tom Wolfe, de 74 anos, é um cronista
impiedoso da vida de seu país. Seja falando dos malucos que enchiam a cabeça
de LSD nos anos 60 no livro-reportagem O Teste do Ácido do Refresco
Elétrico ou dos gananciosos investidores de Wall Street nos
anos 80 no romance A Fogueira das Vaidades , Wolfe exerce
a mesma ironia. Em seu mais recente romance, Eu Sou Charlotte Simmons,
que a editora Rocco lança nesta semana, o autor de Nova York célebre
também por ser um dândi que só se veste de branco retrata
as universidades americanas e a vida desregrada de seus estudantes, com muitas
festas e farras nos dormitórios mistos. Mesmo com toda essa verve, o escritor
tem um grande carinho pelo objeto de sua sátira, os Estados Unidos. E se
confessa um eleitor convicto do presidente George W. Bush que, por seu
lado, é um leitor da obra de Wolfe. O autor fará sua primeira visita
ao Brasil nesta semana será dele a conferência de abertura
da Bienal do Livro do Rio de Janeiro, na quinta-feira. De Nova York, onde mora,
Wolfe falou por telefone a VEJA. Veja
A imprensa americana já relatou que o presidente George W. Bush gostou
de Eu Sou Charlotte Simmons e tem recomendado o livro a amigos. O senhor
esperava que ele fosse um fã de sua literatura? Wolfe
Não, nunca imaginei isso. Mas acho ótimo. Algumas pessoas ficaram
horrorizadas com isso. Os intelectuais de Nova York, em especial, têm uma
fobia irracional embora quase sempre inofensiva a Bush. Eles não
percebem que na verdade a política americana é muito estreita. Veja
Como assim, estreita? Wolfe O governo americano
é como um trem: tem gente gritando para o governo virar à esquerda
ou à direita, quando o trem simplesmente não pode mudar de direção.
Ele anda sobre os trilhos. Ninguém vai se tornar um ditador nos Estados
Unidos, e ninguém vai cortar nossos direitos civis. É por isso que
não entendo essa fobia a Bush entre os intelectuais. Os americanos em geral
não se entusiasmam tanto por política. Em 1974, quando Nixon saiu
do governo, não houve uma só demonstração nas ruas,
a favor ou contra. Não houve sequer um episódio de algum republicano
bêbado jogando um tijolo numa vitrine. Eu mesmo nunca me interessei em escrever
sobre política americana. Seria como fazer a cobertura jornalística
de um jogo de gamão. Muito chato. Veja
Pelo que o senhor está dizendo, dá para supor que
seu voto na última eleição foi para Bush. Wolfe
Sim, sem dúvida. E muitos confrades no meio jornalístico
ficaram escandalizados quando souberam disso olhavam para mim como se eu
fosse um criminoso, um molestador de crianças. Eu me divirto com isso.
Votar em Bush é tão contra a corrente... Veja
A religião seria uma das razões pelas quais a intelectualidade
rejeita o presidente Bush? Wolfe Não havia pensado
nisso, mas é verdade. Bush é um soldado cristão. A religiosidade
faz com que, para os intelectuais, ele pareça um tipo rústico. Veja
O senhor é religioso? Wolfe Não,
mas tenho uma consciência aguda da importância da religião.
Fala-se muito da "direita religiosa" nos Estados Unidos. Mas não é
de direita: é só religiosa. Hoje, basta ter uma fé cristã
convencional para ser visto como um tipo de extremista. Veja
Uma de suas reportagens mais famosas, do fim dos anos 60, fala das
festas em que a alta sociedade de Nova York recebia grupos políticos extremistas
como os Panteras Negras uma tendência que o senhor batizou de "radical
chique". Ainda existem festas assim hoje? Wolfe Não,
pois não existem mais grandes movimentos de esquerda como os Panteras Negras.
Aliás, não há mais nenhuma causa que possamos identificar
como de esquerda. Mesmo a oposição à guerra no Iraque não
foi uma causa de esquerda, pois congregou gente de todos os tipos. Veja
Nem a questão racial é uma bandeira de esquerda? Wolfe
Não mais. Houve uma grande mudança nessa área.
Não foi só o crescimento econômico da população
negra: o nível de respeito entre raças cresceu tremendamente. Mesmo
entre as pessoas mais brutas, não são mais aceitáveis os
insultos raciais que eram comuns há algumas décadas. Veja
Em 2003, o jornal The New York Times passou por uma crise
de credibilidade depois que se descobriu que um de seus repórteres, Jayson
Blair, inventava notícias. No ano passado, o noticiário da rede
televisiva CBS foi acusado de falsificar documentos sobre o serviço militar
de George W. Bush. O que se passa com o jornalismo americano? Wolfe
O incidente com Jayson Blair foi tirado de proporção.
Era um repórter inexperiente, um garoto, que fabricou fatos em algumas
matérias. Tudo o que precisavam fazer era demiti-lo. Mas o próprio
jornal extrapolou o caso para além de qualquer medida razoável:
queria tanto se arvorar em modelo de virtude que foi como se Blair houvesse pecado
contra Deus. No caso da CBS e de seu âncora, Dan Rather, há várias
ironias. Em primeiro lugar, embora Rather tenha aprovado a exibição
da matéria sobre Bush, ele não tinha nada a ver com sua apuração.
Os âncoras não têm nada a ver com reportagem. O maior trabalho
deles é tirar meia hora por dia para aprender como se pronunciam os nomes
mais complicados de personagens do Oriente Médio. Eles lêem o que
os outros escrevem são cordas vocais muito bem pagas. Rather é
um bom sujeito e não precisava se demitir. Veja
O senhor não parece respeitar muito o jornalismo televisivo. Wolfe
O problema com a televisão é que não existe reportagem.
Os âncoras viajam apenas ocasionalmente para entrevistar algum chefe de
Estado. O próprio Dan Rather entrevistou Saddam Hussein antes da guerra.
Ou seja, eles vão ouvir as mentiras oficiais em pessoa. A televisão
tira pelo menos 90% de suas notícias dos jornais. Quando ocorre um incidente
como esse da CBS, a primeira coisa que os executivos de televisão e seus
prepostos perguntam aos jornalistas é: "Onde é que vocês leram
essa notícia?". E, se eles dizem que foram eles mesmos que apuraram o fato,
a reação é de choque: "Vocês mesmos apuraram? Estão
loucos?". Veja E os jornais? Wolfe
Os jornais, nos Estados Unidos, tornaram-se monopólios locais.
Não existe um jornal nacional significativo, como na Inglaterra. Como resultado,
não há quatro ou cinco repórteres atrás das notícias
nas cidades americanas, mas apenas um. Eu fui repórter de jornal por dez
anos, e era diferente: havia competição, o que me obrigava a trabalhar
cinco vezes mais. Isso mudou. Mas o que importa ressaltar é a liberdade
absoluta da imprensa americana. Eu já debochei de muita coisa nos Estados
Unidos, e pode até parecer, pelo que escrevo, que este é um país
bizarro. Mas ainda acho que ele está em ótima forma. É um
país profundamente democrático. Veja
O senhor foi um dos expoentes do Novo Jornalismo, que levou recursos
literários para a redação de notícias. Qual a herança
desse movimento? Wolfe Os movimentos que trazem "novo"
no nome envelhecem mal. Os jornais nunca gostaram do Novo Jornalismo, e com certa
razão, pois é um gênero difícil. E nas revistas de
hoje os editores querem textos curtos, simples de ler, sem muita sofisticação,
pois acreditam que os jovens têm uma atenção limitada. É
um erro: os jovens só têm atenção limitada para as
coisas que os entediam. O Novo Jornalismo ainda é praticado em livros-reportagem
como Falcão Negro em Perigo, de Mark Bowden, sobre a intervenção
americana na Somália. Esses livros usam as técnicas literárias
do Novo Jornalismo, embora não sejam mais identificados assim. Veja
Por que o senhor decidiu escrever um romance sobre a vida estudantil
nas universidades americanas? Wolfe É estranho que,
dado o frenesi que ronda o tema, ninguém antes tenha escrito sobre a vida
universitária americana da perspectiva dos estudantes. Havia estudos sociológicos
que diziam que a conduta sexual nesse grupo é mais livre e irresponsável,
mas são pesquisas quantitativas. Não se considerava como isso afeta
a vida desses jovens. Também não se falou de como era a vida de
um astro dos esportes universitários. Sempre se soube que havia um certo
grau de corrupção nos esportes universitários. Pessoas que,
pelo desempenho acadêmico, não mereceriam estar na universidade eram
matriculadas para jogar no time de basquete ou futebol americano. Mas eu estava
interessado em saber como esses esportistas se sentem, sendo tratados como semideuses.
Veja No seu livro, há muita
ênfase nas festas e nas atividades sexuais dos estudantes e quase não
se vê aprendizagem. Não é uma visão muito caricatural
da universidade? Wolfe Não, não acho. Fui a
várias universidades Stanford, Yale, Universidade da Flórida,
de Michigan, da Pensilvânia e as coisas eram assim mesmo. Não
é que não exista mais atividade acadêmica. Mas muito do trabalho
mais sério se dá na pós-graduação. Já
nos primeiros anos da universidade, a atmosfera é completamente diferente.
Veja Como foi seu contato com os
estudantes? Wolfe As pessoas achavam que seria difícil
para mim, na minha idade, e vestindo terno e gravata, conviver com os estudantes.
Mas não foi assim. Muitos dos jovens gostavam da idéia de ter um
par de orelhas grandes mas neutras para ouvi-los. Em geral, todos gostamos de
falar de nossas vidas. E eles especialmente, pois sabem que estão vivendo
um período incomum. Veja E
como se dá o sexo nos dormitórios da universidade? Wolfe
Há certos códigos de comportamento. "Ficar" ou ter um
caso com alguém no seu próprio dormitório não é
considerado uma atitude descolada. Isso é chamado de "dormincesto"
uma mistura de "dormitório" e "incesto". Quase não acontece de um
estudante atravessar o corredor para pular na cama de uma colega. Mas, quando
se encontra alguém numa festa ou num bar, é fácil arrastá-lo
para o dormitório. Veja Era
muito diferente na década de 50, quando o senhor fez seus cursos universitários? Wolfe
Sim. As igrejas ainda tinham um certo poder moral sobre as pessoas
então. E não existiam dormitórios mistos, como hoje. Aliás,
a maioria das faculdades era ou masculina ou feminina eu mesmo freqüentei
uma faculdade só de homens, e tínhamos de viajar no mínimo
70 quilômetros até uma faculdade feminina, para ter um encontro no
fim de semana. Não era permitido aos rapazes entrar no dormitório
das moças, e havia toque de recolher: tínhamos de levar as meninas
de volta até 1 hora, no máximo. Nos dormitórios de hoje,
qualquer um pode entrar ou sair sem vigilância. É um detalhe físico
que faz imensa diferença quando se trata de sexo. Por mais liberado que
seja, um adulto muitas vezes não consegue encontrar uma cama num prazo
curto. Se você mora em uma cidade, talvez tenha de ir para um hotel
o que é um incômodo e custa caro. Mas, na faculdade, os hormônios
estão eriçados e as camas encontram-se lá, à espera.
Veja Charlotte Simmons é
dedicado a seus dois filhos, que o ajudaram com a gíria universitária
dos personagens. O senhor se preocupava com a atividade sexual deles na universidade? Wolfe
Na verdade, não. Acredito que meus filhos têm um ótimo
discernimento e não vão fazer nada só pela pressão
do grupo. Mas também nunca perguntei nada a respeito a eles. Imaginei que,
se eles tivessem qualquer problema nessa área, me falariam. Veja
Certos capítulos de Eu Sou Charlotte Simmons deixam
a sugestão de que os avanços na área de neurociência
estão corroendo o senso moral das pessoas. Por quê? Wolfe
A mensagem da neurociência, embora isso talvez não seja
intencional, é que nós somos mecanismos. Pensamos que temos controle
sobre nossas escolhas, nossa idéia de bem e mal, o tipo de música
de que gostamos , mas a neurociência diz que na verdade não
é assim, que temos um microchip determinado geneticamente, e que não
existe livre-arbítrio. Essas idéias, que eu acho deprimentes, estão
se espalhando. Já se encontram pais por aí que acreditam que, se
o filho não está se saindo bem na escola, é porque não
foi programado para isso. Mas a crise moral é resultado também da
diminuição da fé religiosa entre pessoas educadas, bem de
vida. Veja O senhor mora a poucos
passos do Central Park, em Manhattan. A vida na cidade mudou muito depois dos
atentados de 11 de setembro de 2001? Wolfe Mudou muito nos
primeiros quatro ou cinco dias. Normalmente, em Nova York, se um carro demora
uma fração de segundo para arrancar quando o sinal abre, pode ter
certeza de que o carro atrás vai buzinar. E naqueles dias isso não
acontecia. Mas é assim com qualquer tipo de desastre: as pessoas se tornam
mais polidas. O mesmo se dá quando há um blecaute e o blecaute
quase vale a pena, só para estar cercado de pessoas cordatas, para variar
um pouco. Obviamente, uma tragédia como os atentados não vale a
pena. Depois de um ano, de qualquer forma, o temor de que algo do gênero
tornasse a acontecer começou a declinar. E hoje já não há
qualquer sentimento de ameaça. |