O
Sol está morrendo, a Terra vive um inverno perpétuo e oito astronautas
estão já há um ano e meio em viagem, amarrados a uma bomba
atômica do tamanho da Ilha de Manhattan, que pretendem usar para recombustar
a estrela. Sua missão, a Icarus II, é a segunda do gênero.
A primeira, a Icarus I, sumiu no espaço sete anos antes, em circunstâncias
ignoradas. Todo o material de fissão nuclear disponível no planeta
foi empregado na bomba que a Icarus II carrega. Ela é, portanto, a última
chance da humanidade. Mas Sunshine Alerta Solar (Sunshine,
Inglaterra, 2007), que estréia nesta sexta-feira no país, não
é um Armageddon nem um Impacto Profundo. É, isso sim,
uma ficção científica com os pés bem plantados no
tempo em que o gênero floresceu com 2001 Uma Odisséia no
Espaço, Solaris, Corrida Silenciosa e Dark Star ou seja,
um filme com a cabeça muito acima do chão e os olhos voltados para
aquele ponto em que a ciência e a existência se tornam um mistério
de dimensões espirituais. Sunshine mira e acerta em
outro alvo também: como de praxe no trabalho de seu diretor, o inglês
Danny Boyle, ele não é diversão para poucos, e sim para muitos,
feita com um notável senso de espetáculo.
Boyle às vezes erra (como em A Praia, com Leonardo DiCaprio, que
o fez entender que seu ambiente é mesmo a Inglaterra, e não Hollywood).
Normalmente, porém, o diretor se mostra um renovador de gêneros.
Ele o fez com o suspense em Cova Rasa; com as crônicas de drogados
em Trainspotting; e, recentemente, com o terror, no ótimo Extermínio.
Também Sunshine é um excelente exemplo desse seu talento,
a começar pelo fato de que se propõe a emular o maior ícone
do gênero, 2001, e consegue fazê-lo sem passar nenhum vexame.
Muito ao contrário, aliás. Como no filme de Stanley Kubrick, Sunshine
dedica boa parte de seu tempo à descrição de como seria viver
numa nave espacial uma experiência ao mesmo tempo completamente estrangeira
e curiosamente familiar. A Icarus II tem um jardim, que produz verduras e oxigênio.
Tem ambientes que recriam paisagens terrestres, onde a tripulação
vai aliviar o stress provocado pelo confinamento. Abriga ainda uma comunidade
organizada, já que os astronautas têm personalidades e habilidades
complementares. Mas nada disso basta para atenuar a sensação dos
tripulantes de que seu isolamento é cada vez mais profundo, e de que sua
jornada pode ser sem volta. Também como no filme de Kubrick, eles estão
mesmerizados por uma visão em vez de um monolito, a imagem do Sol,
cada vez mais incandescente e perturbadora. Quando, já perto de seu destino,
a Icarus II capta um sinal de socorro emitido por sua antecessora, a tensão
atinge um ponto crítico. Por um lado, resgatar a bomba da Icarus I aumentará
as chances de sucesso da missão. Por outro lado, o desvio na rota significa
que a viagem pode levar a lugares, e a desdobramentos, insondáveis. A decisão
entre uma coisa e outra recai sobre o físico da nave, Capa. Interpretado
pelo irlandês Cillian Murphy, que o diretor descobriu em Extermínio
e rapidamente se revelou um dos atores mais intrigantes da nova geração,
Capa se verá assim relutantemente investido de um poder de escala divina,
que em muito excede o da ciência.
Boyle gastou 40 milhões de dólares para fazer seu filme orçamento
modesto para os padrões atuais , mas ele tem cara de 120 milhões.
Esse é, numa ficção científica, o primeiro sinal de
inteligência: um visual apoiado muito mais em conceitos do que em efeitos.
Essa é a razão pela qual 2001 ou O Enigma de Andrômeda,
por exemplo, não envelhecem, e que provavelmente dará vida longa
também a Sunshine. Do belíssimo design da nave aos estranhos
trajes espaciais que os astronautas usam para sair dela (inspirados, veja-se só,
no gorro do personagem Kenny, do desenho South Park), Sunshine evita tudo
o que possa transmitir uma visão datada do futuro. Omite também
imagens da Terra em seu inverno final: salvá-la é o objetivo inicial
dos astronautas, mas a seta da Icarus II aponta para o outro extremo e para a
obsessão de mergulhar no Sol (cujo calor, para quem não se lembra
do mito grego, derreteu a cera das asas de Ícaro, fazendo-o despencar e
punindo sua arrogância com a morte). Quanto mais longe o homem viaja, mais
ele chega perto de si mesmo, é a idéia de Sunshine
uma idéia que norteou toda a grande ficção científica
dos anos 60 e 70, que Star Wars e congêneres enterraram de forma
inglória e que Danny Boyle ressuscita, aqui, em bom tempo e em grande estilo.