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11 de abril de 2007
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Cinema
Uma nova odisséia no espaço

Sunshine, do inglês Danny Boyle, devolve à
ficção científica o que ela já teve de grandioso


Isabela Boscov

 

Divulgação

Cillian Murphy, no interior da Icarus II: um filme de 40 milhões de dólares, mas com cara de 120


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Trailer do filme

O Sol está morrendo, a Terra vive um inverno perpétuo e oito astronautas estão já há um ano e meio em viagem, amarrados a uma bomba atômica do tamanho da Ilha de Manhattan, que pretendem usar para recombustar a estrela. Sua missão, a Icarus II, é a segunda do gênero. A primeira, a Icarus I, sumiu no espaço sete anos antes, em circunstâncias ignoradas. Todo o material de fissão nuclear disponível no planeta foi empregado na bomba que a Icarus II carrega. Ela é, portanto, a última chance da humanidade. Mas Sunshine – Alerta Solar (Sunshine, Inglaterra, 2007), que estréia nesta sexta-feira no país, não é um Armageddon nem um Impacto Profundo. É, isso sim, uma ficção científica com os pés bem plantados no tempo em que o gênero floresceu com 2001 – Uma Odisséia no Espaço, Solaris, Corrida Silenciosa e Dark Star – ou seja, um filme com a cabeça muito acima do chão e os olhos voltados para aquele ponto em que a ciência e a existência se tornam um mistério de dimensões espirituais. Sunshine mira – e acerta – em outro alvo também: como de praxe no trabalho de seu diretor, o inglês Danny Boyle, ele não é diversão para poucos, e sim para muitos, feita com um notável senso de espetáculo.

Boyle às vezes erra (como em A Praia, com Leonardo DiCaprio, que o fez entender que seu ambiente é mesmo a Inglaterra, e não Hollywood). Normalmente, porém, o diretor se mostra um renovador de gêneros. Ele o fez com o suspense em Cova Rasa; com as crônicas de drogados em Trainspotting; e, recentemente, com o terror, no ótimo Extermínio. Também Sunshine é um excelente exemplo desse seu talento, a começar pelo fato de que se propõe a emular o maior ícone do gênero, 2001, e consegue fazê-lo sem passar nenhum vexame. Muito ao contrário, aliás. Como no filme de Stanley Kubrick, Sunshine dedica boa parte de seu tempo à descrição de como seria viver numa nave espacial – uma experiência ao mesmo tempo completamente estrangeira e curiosamente familiar. A Icarus II tem um jardim, que produz verduras e oxigênio. Tem ambientes que recriam paisagens terrestres, onde a tripulação vai aliviar o stress provocado pelo confinamento. Abriga ainda uma comunidade organizada, já que os astronautas têm personalidades e habilidades complementares. Mas nada disso basta para atenuar a sensação dos tripulantes de que seu isolamento é cada vez mais profundo, e de que sua jornada pode ser sem volta. Também como no filme de Kubrick, eles estão mesmerizados por uma visão – em vez de um monolito, a imagem do Sol, cada vez mais incandescente e perturbadora. Quando, já perto de seu destino, a Icarus II capta um sinal de socorro emitido por sua antecessora, a tensão atinge um ponto crítico. Por um lado, resgatar a bomba da Icarus I aumentará as chances de sucesso da missão. Por outro lado, o desvio na rota significa que a viagem pode levar a lugares, e a desdobramentos, insondáveis. A decisão entre uma coisa e outra recai sobre o físico da nave, Capa. Interpretado pelo irlandês Cillian Murphy, que o diretor descobriu em Extermínio e rapidamente se revelou um dos atores mais intrigantes da nova geração, Capa se verá assim relutantemente investido de um poder de escala divina, que em muito excede o da ciência.

Boyle gastou 40 milhões de dólares para fazer seu filme – orçamento modesto para os padrões atuais –, mas ele tem cara de 120 milhões. Esse é, numa ficção científica, o primeiro sinal de inteligência: um visual apoiado muito mais em conceitos do que em efeitos. Essa é a razão pela qual 2001 ou O Enigma de Andrômeda, por exemplo, não envelhecem, e que provavelmente dará vida longa também a Sunshine. Do belíssimo design da nave aos estranhos trajes espaciais que os astronautas usam para sair dela (inspirados, veja-se só, no gorro do personagem Kenny, do desenho South Park), Sunshine evita tudo o que possa transmitir uma visão datada do futuro. Omite também imagens da Terra em seu inverno final: salvá-la é o objetivo inicial dos astronautas, mas a seta da Icarus II aponta para o outro extremo e para a obsessão de mergulhar no Sol (cujo calor, para quem não se lembra do mito grego, derreteu a cera das asas de Ícaro, fazendo-o despencar e punindo sua arrogância com a morte). Quanto mais longe o homem viaja, mais ele chega perto de si mesmo, é a idéia de Sunshine – uma idéia que norteou toda a grande ficção científica dos anos 60 e 70, que Star Wars e congêneres enterraram de forma inglória e que Danny Boyle ressuscita, aqui, em bom tempo e em grande estilo.

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