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Edição 2003

11 de abril de 2007
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Todas as caras da humanidade

O saboroso livro que retoma Darwin para
examinar a história cultural das emoções


Jerônimo Teixeira

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Trecho do livro

O sorriso é universal. A expressão facial para a alegria é a mesma na mais gigantesca metrópole moderna e na mais isolada tribo selvagem. O mesmo vale para o choro, no outro extremo da palheta emocional. Ou para o ricto inconfundível de terror que se vê na Medusa de Caravaggio, reproduzida nesta página. O naturalista inglês Charles Darwin apontou essa constância em A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, livro de 1872. O clássico de Darwin serviu de mote para o saboroso Uma História das Emoções (tradução de Ryta Vinagre; Record; 420 páginas; 55 reais), do crítico cultural inglês Stuart Walton. A característica "transcultural" das intuições de Darwin atraiu Walton, que descobriu aí uma moral política para o século XXI: "Eu me oponho ao relativismo cultural, à idéia de que a democracia não poderia funcionar na Arábia Saudita porque a cultura dos árabes é diferente da nossa. Darwin demonstra que os seres humanos têm necessidades muito parecidas no mundo todo", disse Walton a VEJA. Seu livro é, portanto, uma história da permanência, mais do que da mudança. Fala de um mesmo desejo de expressão que pulsa da tragédia grega ao punk rock.

O título é talvez um pouco enganador: "história" sugere abordagem sistemática e cronológica. Walton – autor também de Out of It, uma "história cultural da intoxicação" (isto é, da manipulação das emoções pela via de drogas, legais ou ilegais) – segue um andamento mais livre. Seus dez capítulos, cada um deles dedicado a uma emoção, funcionam bem como ensaios independentes. Parte da graça do livro está no anedotário histórico-cultural acumulado pelo autor. O capítulo sobre o desgosto (no original, disgust, que seria mais bem traduzido por "nojo"), por exemplo, inclui uma história breve dos métodos utilizados pelos europeus para dispor de seus detritos corporais, dos repulsivos jarros despejados na calçada às instalações hidráulicas modernas.

Uma História das Emoções não se limita a essa miscelânea de curiosidades. Algumas linhas orientadoras mantêm a unidade do livro. A principal delas talvez seja o exame do significado político das emoções (veja quadro). É um terreno cheio de ambivalência: a mesma indignação raivosa que derruba governos corruptos instala regimes ainda mais opressivos, como se vê em tantas trajetórias revolucionárias. O capítulo sobre felicidade, nesse ponto, fica a meio caminho. Seu exame das perigosas promessas do pensamento utópico começa na República de Platão e se encerra na Utopia de Thomas More – não chega, portanto, a Marx e aos ideólogos socialistas que de fato inspiraram a desastrosa "utopia" soviética. As análises do papel da vergonha no sistema penal e das inusitadas relações entre nojo e filantropia são mais matizadas.

O livro insinua uma crítica à valorização contemporânea da espontaneidade a todo custo e às terapias da moda que pretendem ensinar seus pacientes a "liberar" suas emoções. Não, o homem contemporâneo não ficou mais rico ou feliz porque supostamente vive em uma cultura "expansiva". Uma História das Emoções percorre a obra de artistas e filósofos do passado, como Sófocles, Shakespeare, Beethoven, Schopenhauer. As emoções humanas podem ser sempre as mesmas, como Darwin propôs – mas nesses mestres elas são mais profundas.

 

Tantas emoções

O crítico inglês Stuart Walton examina o peso de diferentes sentimentos na história cultural

TRISTEZA e FELICIDADE
O fato de que o sofrimento é um estado universal – e bem mais comum do que a felicidade – é um dos problemas fundamentais da filosofia. A busca da felicidade muitas vezes se traduziu em ideais utópicos politicamente perigosos

MEDO
O terror expresso no rosto da Medusa decapitada no quadro de Caravaggio foi explorado por governos totalitários. Os governos que buscam inspirar o medo, porém, vivem eles mesmos no pavor de não sobreviver à reação dos cidadãos

RAIVA
Quando traduz a indignação diante de circunstâncias injustas, a raiva pode ser o motor de grandes mudanças sociais. Mas corre sempre o risco de se converter em uma nova fonte de terror revolucionário

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